28 de jun. de 2012

REVISTA LACAN COTIDIANO

TRECHO DE LACAN COTIDIANO Nº 211 PORTUGUÊS


 VAMOS! 
DEBATE BOLOGNA

No Congresso, com a doutrina do passe
Céline Menghi

Freud captou a potência da pulsão, aspecto de resíduo insistente que contrasta com o princípio do prazer.
A psicanálise nos tempos de Freud apresentava-se, já, com seu caráter de peste.
Com Lacan, a psicanálise se coloca transversalmente à sociedade, pondo a nu o que foge do ideal e o fato de que as identificações dão cobertura de maneira ilusória. JAM, em uma de suas conferências espanholas, diz que “é o caráter asocial da psicanálise – não me apresso em difiní-la como antisocial – que nos faz pouco aceitos nos espaços oficiais”.
Hoje, na época da correria às identificações, da bulimia de gozos para todos, a psicanálise, para fazer frente à ingovernabilidade e irredutibilidade do gozo problemático para cada um, opta, com o discurso analítico, pela singularidade das soluções do sujeito e não pelo remédio universal que liquida o resíduo do sintoma, quando mesmo não o oblitera.
Como confirmam os ataques à psicanálise – refiro-me às infâmias dirigidas a quem trabalha com o autismo sem etiquetá-lo simplesmente como patologia orgânica ou comportamento a ser corrigido –, como confirma a posição da OMS frente à assim chamada saúde mental, com a oficialização de protocolos detalhados que avalizam terapias para todos os distúrbios que começam com dis…, hoje é cada vez mais evidente que a psicanálise com o discurso do analista, não compartilha com tais modalidades de abordagem que sustentam o programa da civilização.
A clínica demonstra cotidianamente, como poderemos escutar nas apresentações de casos clínicos durante o Congresso, que é através do levar em conta os traços da língua de cada um deixados no corpo, que se pode abrir o acesso aos recursos do um por um dos falasseres, a fim de que se produzam soluções únicas e singulares, que não têm relação com o comportamento ou a adaptação. A resposta ao sofrimento do ser humano não reside no sentido, no número, na cifra da identificação, e tampouco na bela forma, mas no defeito, no resto, no disfuncionamento, naquilo que de opaco pertence ao ser humano e lhe faz a diferença.
O discurso analítico se interessa pelo que não funciona, por isso, como sublinha JAM com frequência, ele é antieconômico, se confrontado com as leis que regem a economia do mundo – economia que hoje faz água por todas as partes -, mas, é econômico do ponto de vista do sujeito – e talvez seja isso que nós analistas devamos conseguir contrabandear. Trata-se de uma “outra economia”, uma economia, então, que não se funda somente no Um completamente só, mas leva em conta o Outro, O Outro do feminino, o Outro separado do Um, o Outro livre das identificações rígidas ou postiças, aquele Outro de uma outra solidão: o Outro do corpo.
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