publicado em 12/06/2019
A discussão a partir da apresentação deste filme foi muito boa e relevante para os estudos psicanalíticos e aqui poderemos desfrutar dos textos escritos pelas comentadoras Patrícia Gramacho e Ceres Lêda Rúbio.
Por: Patrícia Marinho Gramacho
Goiânia, Maio/2019
Sou uma apaixonada pelas palavras, acredito que fazemos coisas com as palavras e, também, que as palavras
fazem coisas conosco. Neste sentido, acho importante começarmos esclarecendo o
significado da palavra Cafarnaúm que dá nome ao filme.
Substantivo masculino, a palavra cafarnaum significa no dicionário
comum, lugar onde há tumulto ou desordem, local onde objetos são amontoados ou
guardados desordenamente. Citada na Bíblia, o nome Cafarnaúm, provavelmente significa
aldeia de Naum. Como Naum significa “compassivo”,
Cafarnaúm também pode significar “vila de compaixão”. E durante todo o filme
oscilamos entre a confusão e a compaixão.
Sempre que assisto filmes de
aventura, pergunto ao meu marido após algumas cenas de perseguição de carros no
meio da rua. Será que isto acontece de verdade? Será que a lei corre tanto para
se fazer presente no real?
Ao término de Cafarnaúm não havia o
que perguntar. O impacto foi imediato, assim como a sensação de “estranho -
íntimo”, como diz Lacan, citando Freud, aquele algo íntimo, mas que provoca
estranheza, não podendo ser de todo traduzido em palavras ou imagens - a
angústia.
De certa forma este convite de
escrita sobre o filme me possibilitou um “saber fazer” desta angústia,
possibilitando o que Marcus Viera e Romildo Barros chamam de “encontrar um
destino aos extremos do dizer, não necessariamente por meio das extremadas
ações”.
Estarei tentando aqui “ responder
como convém a um acontecimento significativo” (Rojas, 2019).
O filme se inicia com a constatação
via corpo, da idade de um menino aparentemente muito desnutrido – 12/13 anos,
que se encontrava em uma prisão para cumprir uma pena de 5 anos, segundo a fala
da mãe, por uma “brincadeira de criança”.
A pedido do juiz, este menino, como
réu, em primeira instância, justifica bem alto que enfiou “uma faca em um filho
da puta”, mas que está ali em outra condição, para “acusar” aos pais por lhe
trazerem ao mundo. Seguem-se cenas da mãe usando os filhos para o comercio de
drogas e a constatação de que a cadeia é um lugar esperado “para todos”, pois
um sobrinho e todos os irmãos estão em uma mesma cela, e o orgulho é ser
eficiente no tráfico durante o encarceramento. Temos aqui o “nãotodo por todo
canto – o pastout partout”, onde a lei já não regula as relações.
Caracterizam-se aqui zonas de indistinção não reguladas pela lei, que podem
assumir as mais diversas variações e facetas de acordo com o contexto social e
histórico (CISCATO e DUARTE, 2012).
Durante praticamente todo o filme
vemos um menino emburrado, sem sorrisos, que tem a própria casa reconhecida
pela mãe como “um abrigo para porcos”, como uma representação de um Homo Sacer, ou seja, aquele que se
encontra nesta zona de indefinição, não respaldado por quaisquer leis, sejam
dos homens, sejam divinas (AGAMBEN, 2008 in CISCATO e DUARTE, 2012). Não há
toque amoroso entre pais e filhos, apenas “petelecos”, puxões, agressão.
Homo
Sacer é uma expressão
latina que, literalmente significa 'homem sagrado', isto é, 'homem a ser
julgado pelos deuses'. Trata-se de uma figura obscura do direito romano arcaico, a qual se refere à condição de quem cometia um
delito contra a divindade, colocando em risco a pax deorum, a
amizade entre a coletividade e os deuses, que era a garantia de paz e
prosperidade da civitas; ou
seja, tal delito era uma ameaça ao próprio Estado. Em consequência disso, o indivíduo era
"consagrado" à divindade, isto é, deixado à mercê da vingança dos
deuses. Expulso do grupo social, excluído de todos os direitos civis, a sua vida passava a ser considerada "sagrada"
em sentido negativo. O indivíduo podia também ser morto por qualquer um -
mas não em rituais religiosos.
A figura do Homo Sacer apresenta similaridade com o
personagem Caim, da Bíblia -
aquele que carrega o pecado, mas também aquele que o denuncia.
Agamben, filósofo italiano, contemporiza
este conceito dizendo: “ [...] existem vidas humanas que perdem a tal ponto a
qualidade de bem jurídico, que a sua continuidade, tanto para o portador da
vida como para sociedade, perdeu permanentemente todo o valor” (AGAMBEN, 2010, P.133
in MARTINS,2015).
O único momento contemplativo de uma
vida de trabalho, presente para este menino, em que o “resto tem que ser
esquecido “, pareceu ser o vivido na relação com a irmã, Sahar, mais nova um
ano. Irmã que Zain tenta proteger de todas as formas do uso comercial de sua
sexualidade, mas não tem a esperteza de esconder um absorvente bem marcado na
transparência de uma roupa ainda de criança. O filme mostra Zain como um menino
que aparentemente sabe se defender da sexualidade do adulto, mas não tem a
malícia do olhar do adulto e que em alguns momentos ainda se encanta com a
possibilidade de uma fantasia infantil lhe aparecer, assim meio que de forma
bizarra diante da vida, quando por exemplo faz a pergunta a um senhor vestido
de Homem Barata: “Como é que você está conectado ao Homem aranha”?
Destaco três cenas do filme, a
primeira, em que a frase de Zain, tentando salvar a irmã de ser vendida como
objeto de troca se destaca pela coerência: “Mãe, ela é apenas uma criança”. Ele
é colocado como dejeto e a irmã como objeto de venda.
Lacan, no seminário 10: a angústia,
lembra a função de excremento que determinados grupos segregados podem vir a
ocupar no jogo social e ressaltamos ao mesmo tempo o ponto central da teoria
lacaniana: a insistência e
irredutibilidade do resíduo. “A redução de massas humanas à função de
excremento e a tentativa de eliminá-las irão, de uma forma ou de outra, sempre
fracassar. O resíduo insiste em retornar ou em reabrir esse lugar em que não se
permite imaginarizar ou simbolizar totalmente” (CISCATO e DUARTE, 2012).
E ele continua dizendo que o resto
não se permite reduzir nem a palavras, nem a imagens, mas é contando com sua
“presença-ausente”, com o impossível de representar, que um relato pode
tornar-se vivo, tornando-se um testemunho.
CENA 1
Acontece então, o retorno para a cena
do pai de Zain, no tribunal, justificando ao Juiz a troca da filha, remetendo
ao seu lugar de dejeto em sua própria vida, quando diz: “pessoas cuspiam em mim
na rua”. Sendo assim, dar uma “coberta à filha”, ainda que sob o jugo do uso de
sua sexualidade precocemente, era pelo menos lhe tirar da condição de lixo para
a de objeto de troca, funcional, uma evolução egoisticamente possível. Cabe
aqui a fala de Lacan quando diz:
“ Aquele que aspira ser amado se
satisfaz muito pouco em ser amado pelo seu bem. Sua exigência é ser amado tão
longe quanto possa ir a completa subversão do sujeito numa particularidade, e
no que essa particularidade possa ter de mais opaco, de mais impensável” (Lacan,
1953/1954, seminário – livro 1: Os escritos técnicos de Freud citado por LYRA e
CAMARGO,2012).
Para Zain estes pais viram o excesso.
LYRA e CAMARGO,2012, em seu texto
Ódio, um sentimento lúcido ressaltam que se por meio do amor, um sujeito pode
esperar obter uma inclusão para tudo aquilo que está em exílio da relação
sexual, poderíamos situar o ódio em uma posição ao mesmo tempo semelhante e
inversa. Se a figura é capaz de perturbar um sujeito, por fazê-lo sentir, de
modo perturbador, o seu próprio impensável, por lança-lo a posição impossível
de ser suportada em função de suas coordenadas subjetivas, é de se esperar que
ela seja alvo do ódio do sujeito.
E continuam dizendo: “O grave na
relação com o outro não ocorre quando ele simplesmente se destaca na balança
imaginária, mas sim quando perturba a montagem subjetiva. O grande perigo do
imaginário não é a derrota, mas a dissolução” – o excesso.
“Um sujeito não odeia o outro em
função daquilo que ele tem, mas sim do excesso que ele engendra quando entra em
relação consigo” (LYRA e CAMARGO,2012).
O fato é que para Zain é preciso um
distanciamento, uma roda gigante, um Gira-gira cuja figura central é uma figura
feminina com seios que precisam, segundo Zain, ser expostos. Onde está a mãe
que nutre?
Surge no filme o contraponto com uma
mãe do desejo. Aquela que não abandona. Aquela
que investe, colando-o à figura daquele que é amado, o filho desta, e que ele
cuida e que abandona com sofrimento.
Destaco então, a segunda cena em que Zain vai da
passagem ao ato. Quando descobre a morte da irmã, por um sangramento pós
gestação aos onze anos e que foi impedida de ser acudida a tempo, pois, não
tinha documentação para ser aceita no hospital. Havia uma esperança na lei, ali
aniquilada por diversos insultos de um pai que diz aos gritos: “Ninguém se
importa com você ou nós”. A busca
da regulação via documentos que talvez lhe desse uma escolha, o leva ao
ato. O encontro com a família e a notícia da morte da irmã, é mortífero. Ou ele
mata ou tudo aquilo o destrói.
Para Agamben, a vida nua é o campo em
que se mantém o paradoxo, é o lugar em que a vida foi excluída por sua
inclusão, onde só o direito pode alcançar o vivente. Assim, a vida torna-se
matável pela ordem do poder soberano juridicamente construído, o poder jurídico
torna o vivente excluído, aniquilado e matável (MARTINS, 2015).
Aparece aí o significante – o não
poder ser. O ódio como sentimento lúcido. O ódio tende a concentrar-se no
excesso, no impossível, na ex-sistência, enquanto o amor transita
incessantemente entre a causa e a demanda. Há no amor um trabalho incessante de
composição entre gozo e parceria, que o ódio dispensa em sua lucidez (LYRA e
CAMARGO,2012).
E surge o ato. O ato é norteado por
coordenadas simbólicas da linguagem. A passagem ao ato é justamente a tentativa
desesperada do sujeito de sair do lugar de objeto do gozo do Outro. Para tanto,
o sujeito, uma vez equiparado ao objeto a, se ejeta do Outro, buscando efetuar nele um
furo (BRASIL E ABECASSIS, 2012).
Freud em Recordar, repetir e elaborar
(1914) revela que aquilo que o paciente não consegue recordar, ele expressa
pela atuação. Os ideais da cultura, neste sentido, não trazem nenhuma paz.
Lacan marca como correlato essencial da passagem ao ato o largar de mão,
laisser tomber, deixar cair. Há um apagamento do sujeito, que no instante do
ato, ao buscar extrair o objeto a que tampona o furo do Outro e provoca a
angústia, reduz-se a ele.
CENA 2
O sujeito se precipita e despenca
fora da cena. Uma “passagem da cena para o mundo”. Passado seu instante, o
sujeito reaparece na cena de outra maneira. Ou seja, há uma relocalização do
sujeito que é simultânea à reconfiguração do Outro (BRASIL e ABACASSIS, 2012).
CENA 3
Fiquei a sentir o quão difícil é
visualizar tudo isto e compreendi porque ao final do filme as pessoas não se
levantaram imediatamente, ficaram meio que pregadas às cadeiras do cinema. Breton,
escritor e poeta, no imaginário surrealista chamou o inconsciente do indestrutível
caroço da noite (DUBA,2012).
O filme teve a habilidade de nos
colocar os olhares nos enquadres da cena, como também Zain, brinca com este
enquadre, quando usa o espelho para ver o mundo do desenho animado. O que se
pode inventar e transmitir a partir dos restos?
Finalizo com a fala de Cristina Duba
que diz da função do cinema e da literatura como possibilidades de representar
este impossível de ser representado:
“Esse testemunho fragmentário que
pode dar conta de uma pequena questão, de um pequeno ponto, mas não de um todo
que resta insuportável. E este insuportável só pode ser visto de forma
circunscrita a um ponto. (...) Nem tudo pode ser dito” (DUBA,2012, p.152).
REFERÊNCIAS
BRASIL, Flávia e ABECASSIS, Rodrigo. Do
imperativo de gozo à passagem ao ato. Em: Ódio, segregação e gozo de Marcus
André Vieira e Romildo do Rego Barros,2012, p. 141 a 152.
CISCATO, Marícia e DUARTE, Isabel do R. B. O que a angústia pode
nos ensinar sobre o objeto da segregação? Em: Ódio, segregação e gozo de Marcus
André Vieira e Romildo do Rego Barros,2012, p.25 a 36.
DUBA, Cristina. Comentários. Em: Ódio, segregação e gozo de
Marcus André Vieira e Romildo do Rego Barros,2012, p. 153 a 158.
LYRA, Rodrigo e CAMARGO, Carlos. Ódio,
um sentimento lúcido. Em: Ódio, segregação e gozo de Marcus André Vieira e
Romildo do Rego Barros,2012, p. 83 a 94.
MARTINS, Aline Souza. O texto: Homo
Sacer, sujeitos abandonados ao crime. Em http://www.appoa.com.br/correio/edicao/250/homo_sacer_sujeitos_abandonados_ao_crime/158
ROJAS, Silvina. Editorial da revista
Lacan XXI Revista FAPOL online, 2019.
COMENTÁRIO FILME CAFARNAUM
Por: Ceres Lêda F F
Rubio
Goiânia, Junho/2019.
O filme Cafarnaum, dirigido por
Nadine Labaki é extraordinário, e nos mostra o quanto uma família, um pai pode
transmitir de geração a geração seu modo de gozo de forma imperativa. Um gozo
que pode levar a destruição e a miséria de todos da família. O Pai de Zain,
nessa posição de dejeto, de um objeto caído, no lugar daquele que queixa ser
cuspido quando sai a rua, de sentir-se um inseto, um parasita, para poder
existir, obstinadamente, segue a indicação
que aprendera com o próprio pai: o que lhe faz
homem é ter filhos. E assim, os tem um a um, muitos, cuidando deles muito precariamente, demonstra nessa
ação obstinada um Mais-de-Gozar. Produz
assim, filhos sem documentos, filhos sem reconhecimento, nos apontando sua própria
condição, ou, se não isso, a morte como
fim a partir da sugestão de “pule da janela” recomenda. Ele próprio se apresenta assim, sem
documentos, sem cidadania, um morto-vivo, alcoolista, sem desejo. O pai de Zain
reclama que ninguém sabe que eles existem, são excluídos, e os filhos também tratados como objetos de
troca, de uso, lixo que Zain também denuncia na nomeação, ao ser chingado,
acorrentados enquanto crianças. Uma vida difícil diz ele.
Segregados! Segregados dentro de uma família,
dentro de um contexto social. A angústia de quem assiste as cenas dessa família, desamparados, emerge imediatamente , visto que
presenciamos um estado de exceção, uma zona de guerra, de indefinição, onde não há um pai que regule, não há uma lei que
os protejam, nem a dos homens e nem a divina. Uma zona de Homo Sacer segundo
Agamben citado no livro “Odio, Segregação e gozo”(BARROS e VIEIRA, 2012, p.26).
A psicanálise nos orienta que diante do segregado, da segregação, esse lugar,
esse espaço de Homo Sacer, não é
eliminável. Não há possibilidade, definitiva, de se fazer incluir em um
reconhecimento social ou de eliminação, sempre haverá um resto que fica.
Zain em uma irrupção do real, apresenta sua Cólera ao atacar Assad , e um ódio ao modo de gozar desse Outro (que
poderia ser ao desejo sexual por criança de Assad, Sahar uma criança de 11
anos). A cólera de Zain indica a presença da pulsão de morte dirigida a se
separar do Outro gozador, na medida que não consegue dar sentido aos motivos dos pais
de favorecer o “casamento” de Sahar. Ele replica na sua luta feroz
de evitar que Sahar seja levada pela mãe fazendo uma nomeação “Ela é sua
filha”, uma tentativa de fazer produzir alí o amor materno que poderia proteger
Sahar desse fim, medida perdida. Perdida ao que parece porque esses filhos não
estão para essa Mãe como objetos fálicos, agalmáticos, e sim,
provavelmente colocados como objetos de
sua fantasia gozante.
Zain, recusa essa herança, e suas
medidas no decorrer do filme mostram que ele luta para barrar esse gozo,
imposto pelo Pai. Um ódio que é dirigido a ele, estando em uma
posição de objeto e não de sujeito que possa desejar. Questiona não poder ir
para a Escola, questiona venderem a filha por galinhas e moradia, e, finalmente
quer processar os pais , a pena é não poderem ter mais filhos. Recorre a denúncia pública dos pais, a
degradação pública como meio de destituí-los
e também recorre a Lei , a justiça jurídica para não reproduzirem mais,
para não mais estar ele submetido ao Outro gozador, apesar de preso e separado
desses, pois vê que a repetição prevalece. É quando sentencia a mãe sobre sua repetição “esse
filho na sua barriga será como eu”.
Uma pergunta me ocorre, o motivo
pelo qual Zain não “obedece” a
instituição do gozo paterno de reprodução de filhos sem cuidados, de ser uns
dos filhos capachos e que denuncia publicamente. Isso seria a demonstração de sua indignação? Acredito que sim, concordando
com Lacan que nos ensina que a indignação é uma resposta frente a uma afronta à
dignidade. Recusar-se a estar em uma posição na relação com o outro que não é reconhecida,
é rechaçada. Poderíamos concordar aqui
que apesar de um real cruel ao qual está submetido sofrendo toda a ordem de
exposição, de sua passagem ao ato, ele sustenta um lugar de dignidade lúcida
sobre o que mereça.
Há um significante que Zain ganha
na nomeação do Pai , “seu bastardo”, e que denuncia, aquele que foi feito fora do
casamento. A partir disso poderíamos também supor que esse significante daria a
Zain o espaço necessário para desejar outra coisa que não fosse cumprir o imperativo a ele dirigido pelo suposto “pai”
e explicaria a submissão superegoica da mãe nessa parceria
sintomática com esse pai de fazer existir alí um homem, dando filhos a ele
infinitamente.
Em Zain há amor apesar da
experiência de ser objeto de ódio do outro. Um amor que o faz pensar e se
ocupar em proteger Yonas, desejar que ele tenha um futuro com identidade. Uma
identidade, um reconhecimento, sair do lugar de “não poder ser”, isso é o que poderá dar vida a Zain , o retirando do semblante do atestado
de óbito. Zain na sua ação, na sua invenção, cria e se serve de um novo espaço,
o Outro da denúncia que desmantela todo um cenário de ódio na dejeção de
objetos, objetos crianças, de refugiados, de tráfico humano.
Só nessa esperança de
reconhecimento de Ser, Zain sorri.
BARROS, Romildo do Rego e VIEIRA,
Marcus André (Org). Ódio, Segregação, Gozo. Ed.Subversos e ICP/RJ: Rio de
Janeiro, 2012.
CAFARNAUM, Diretora Nadine Labaki.
Líbano, França: 17 Janeiro 2019.
Hoje, dia 23 de fevereiro de 2019, Maria Josefina Fuentes, a Pepita, realizou seu testemunho de passe em Goiânia, uma gentileza com o Delegação GO/DF. Com o apoio da UNIALFA, representada pela Professora Hérica Landi, tivemos o auditório desta universidade lotado para ouvir este testemunho, em torno de 80 pessoas ouvindo de forma atenciosa e participativa. Abaixo está o texto de abertura da atividade, escrito por Ceres Lêda.
Encontramos o passe de Maria Josefina no livro Aposta no passe de de Jacques-Alain Miller e colaboradores.
Seu último livro: As mulheres e seus nomes. Lacan e o feminino.
Sobre o Passe – O que é?
O Passe foi criado por Lacan para
teorizar sobre o surgimento de um analista na lógica do final de análise. De
forma inédita, estabelece o passe como uma mostração de que daquela análise se retirou um analista e ao
mesmo tempo se efetiva uma Transmissão da Psicanálise a partir de uma
experiência psicanalítica. E desse modo eu responderia a pergunta de como se faz o ensino da
Psicanálise, que não se faz por um saber pré-dirigido, se faz a partir de uma experiência
analítica, em uma transmissão entusiasmada.
A Escola é para onde se dirige o analista para transmitir sua
experiência, e essa reconhece que há ali um analista.
Para a Escola de Lacan, não
existe analista sem Escola. O conceito, o dispositivo do Passe nos esclarece
sobre a necessidade de se ter uma Escola e de que esse procedimento, faz garantir a existência de um analista
No texto “Proposição de 9 de Outubro de 1967
sobre o psicanalista da Escola”, Lacan trás dois momentos que a Escola de Lacan
se define: uma Psicanálise em extensão, que seria o que resume a função da Escola como
presentificadora da psicanálise no mundo, fazer as transmissão da
psicanálise e a Psicanálise de
intensão, uma didática de como preparar operadores para ela, de se fazer
analistas a partir da própria experiência de
análise. Desse modo, esses analistas
se reúnem para fazer sobreviver o ensino de Lacan.
Existe um enodamente entre o
ensino e a transmissão que pode ser representado pelo circulo de Euler. A zona
de intersecção entre este dois campos , criada a partir desse nó, aponta para
uma estrutura de corte.
O Passe é um procedimento para a
Escola pensar sua prática. O Passe é o momento extremo da experiência analítica
que pode ser dividido em dois momentos:
A do “momento do passe” na
análise quando o sujeito conta sua história
sobre o real, e lá revela o seu
saber fazer com o seu sintoma, um saber
fazer com seu gozo, saber virar-se com o real do seu gozo. O final de análise
com uma identificação ao sinthome.
E a do evento do “procedimento do passe” , o procedimento não
é obrigatório na Escola de Lacan, não se estabelece que o fim da análise deva
ser autenticado no dispositivo do passe, em uma declaração pública. Mas a partir dele
uma comissão de garantia , na realização do procedimento, declara o
passador como Analista da Escola (AE).
A formação de um psicanalista,
implica, assim, levar a análise a esse ponto limite onde o objeto vira dejeto,
onde sintoma, significante e letra se equivalem, vira resto como descreve
Marcus André Vieira em seu livro Restos no texto Psicanálise do lixo.
“... se a finalidade da formação
de um psicanalista não consiste somente na aquisição de um saber, mas também em
ter adquirido certas condições subjetivas, uma transformação do seu ser, que
nunca é somente íntima, que se tornou pública, então, lá, onde no início da
análise tínhamos gozo autista, a análise faz aparecer um analista, operando
sobre os sintomas para produzir um efeito especial de significação.” Marcus
André Vieira.
.
O Testemunho de Passe, segundo descreve Romildo
do Rego Barros em seu prefácio da revista Latusa “Testemunho de passe –
Psicanálise e escrita”! , trata-se de um relato – sobre o passado – e de um
ensino – no presente – sobre a análise e seus efeitos de transformação
subjetiva, sem a parcialidade que é inerente ao trabalho de transferência
conforme também disse J.A. Miller. Este ainda diz, “o que designo como
testemunho do analisante é o nucleus do ensino da psicanálise”. O que ensina
esse analisante?” “O que pode se transmitir ao público de uma experiência
essencialmente privada”. Ou seja, ensina sobre uma passagem, uma torção que,
esvaziando o gozo próprio da fantasia privada, cria um novo acesso ao público,
desconhecido até então, e que certamente constitui um aspecto importante da
experiência.
E para realizar a sua 19º
experiência de Testemunho de Passe convido com alegria e entusiasmo, Maria
Josefina Sota Fuentes. Ela é AE
(Analista da Escola), Membro da
Associação Mundial de Psicanálise (AMP) e da Escola Brasileira de Psicanálise
(EBP). Trabalha como psicanalista e supervisora em consultório particular desde
1992. Formou-se em Psicologia (1991) no Instituto de Psicologia da Universidade
de São Paulo, onde também concluiu o Mestrado (1999) e o Doutorado (2009),
defendendo a tese que deu origem ao seu livro "As mulheres e seus nomes:
Lacan e o feminino", publicado pela Editora Scriptum (1992). É
sócia-fundadora do Centro Lacaniano de Investigação da Ansiedade CLIN-a e
integrante do corpo docente, onde é professora desde 2003. Foi Diretora
Secretária da Escola Brasileira de Psicanálise (2013-2015); Atualmente faz
parte do Conselho Deliberativo da EBP e do Conselho Técnico do CLIN-a.
Chamo para fazer o Comentário
sobre o testemunho de Pepita, Cristiano Pimenta, psicanalista, Membro da Escola
Brasileira de Psicanálise, da Associação Mundial de Psicanálise.
Ceres Lêda F F Rubio./ Goiânia 23
de Fevereiro 2019
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publicado em 01/11/2018
Bom proveito!!!!
publicado em 12/09/2018

Considerações sobre a Teoria de Turim de Jacques-Alain Miller
Ana Tereza de Faria Groisman
Em agosto de 2018, a convite do diretor geral da EBP, nos reunimos em São Paulo para uma conversação sobre a “Escola sujeito”, conceito extraído do texto de Jacques-Alain Miller; “A teoria de Turim”. Como diretora de tesouraria e secretaria da Seção RJ, me interessei em falar sobre a tensão entre a burocracia e o desejo, sustentando que o funcionamento de uma Escola de psicanálise não deve oferecer a seus membros o descanso engessado da burocracia, num funcionamento automático que tende ao adormecimento da vida da Escola.Como tema para discussão, proponho pensarmos o texto de Miller (2016) a partir da proposição de Lacan de que “não instituímos o novo senão no funcionamento” (LACAN, 2003, p. 248). Miller considera que “uma escola em formação é uma unidade dinâmica” (MILLER, 2016, p. 1). Sendo assim, seu processo de fundação e formação deve ser subjetivado por aqueles que se dedicam à sua construção, não devendo ser considerado como um assunto meramente burocrático. Esse processo de subjetivação é a própria formação da Escola. Ela não advém só ao final, a não ser como objeto, e sim se constitui no processo, antes e depois do ato de sua fundação. O que se propõe, então, é fazermos Escola, ou pelo menos tentarmos, a cada vez. A Escola existe quando a partir e em torno de seus significantes vemos se reunirem seus membros, suas subjetividades, apoiadas em uma causa, sempre singular e solitária, mas que se coletivizam a partir do esforço de sua transmissão. Segundo Miller (2016, p.8), a “Causa Freudiana” enraizada na subjetividade de Freud e em seu desejo inédito, é um significante Ideal em torno do qual se agrupou a Escola de Lacan. Mas foi preciso a formalização dessa causa, a qual foi interpretada e decantada por Lacan. Segundo Miller (2016), daí se extrai o desejo do analista, que pode ser lido como o desejo de separar o sujeito dos significantes mestres que o coletivizam, fazendo surgir a diferença absoluta e circunscrevendo a solidão subjetiva, marca de um real em torno do qual nos reunimos em transferência de trabalho na Escola. O desejo em causa dá leveza ao trabalho pesado, ao passo que a injunção superegoica faz pesar até o trabalho mais leve. Sendo assim, a cada vez que surge um convite ao trabalho, nos vemos em posição de subverter a convocação em causa, nos perguntando: onde tal demanda pode se enlaçar ao desejo de Escola, em que nos apoiamos para sustentar nosso trabalho? Se partimos da demanda do Outro com a pretensão de silenciá-lo, nos colocamos em posição de objeto sacrificial, dando consistência ao gozo do Outro, abrindo a via para a angústia e o adoecimento, o que seria a via oposta a proposta por Miller, onde o que precisa vigorar como orientação de trabalho é a causa singular, ancorada no desejo de analista. Para Miller, cabe a cada um o trabalho de subjetivar a Escola, adotá-la como um significante ideal e ao mesmo tempo fazer dela um sujeito barrado, “determinada pelos significantes dos quais é efeito” (MILLER, 2016, p.10). Uma Escola é então efeito dos significantes que ela produz a partir de seus membros, o que nos responsabiliza pelo movimento que ela produz. O trabalho na Escola só se transforma num trabalho de Escola na medida em que se descola da demanda do Outro e se sustenta na causa de desejo. Os efeitos de tal movimento serão formadores pois funcionam como um reviramento da demanda em desejo. Retomo aqui a proposição de onde partimos: “não instituímos o novo senão no funcionamento”. Como sujeito barrado, a Escola se abre a ser interpelada e interpretada. O novo surge daí, como efeito dessa interpretação, porém como instituição é inegável que também sofra a influência de um movimento no sentido contrário, pois aquele que institui o novo, engolindo-o em seu maquinário burocrático, tenderá a apagar a novidade a fim de se proteger do real veiculado por ela. Por fim, penso ser importante colocar em tensão os significantes que compõem essa frase: o novo, o instituído e o funcionamento. Como fazer funcionar, em nosso trabalho de Escola, a instituição do novo, numa unidade dinâmica, sempre aberta a interpretação e a reinvenção, sem nos abrigarmos na burocracia dos lugares instituídos? Talvez, tomar a Escola mais como sujeito barrado e menos como objeto Instituição, possa ser uma forma de manter soprando o espírito da psicanálise na Escola. | |||
| REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS LACAN, J. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. MILLER, J.-A. Teoria de Turim: sobre o sujeito da Escola. Opção Lacaniana Online, n. 21, 2016. Disponível em: http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_21/teoria_de_turim.pdf | |||
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publicado em 02/05/2018.
NA
SOLIDÃO DO UM - Ecos de Barcelona.
Por Ordália Alves Junqueira
Membro EBP-AMP
[...] o tempo
não para!
(Cazuza)
Algum tempo foi
necessário até conseguir colocar na escrita um grãozinho, uma semente dos “Ecos
de Barcelona -
2018”i. Decisão de não guardar nada e transmitir “tudo” que for
possível! Considerar que a relação entre subjetividade e temporalidade se acha
no cerne do ensino de Jacques Lacan - trazendo, com
base em um problema de lógica, uma reflexão sobre o tempo, em que este apresenta três instâncias constitutivas -
precipitará o caminhar dessa escrita nas pegadas do “ O tempo lógico...” (de Lacan -1998) ii. Lembrando que o mesmo não é uma lógica do
tempo, mas uma lógica do ato na qual o tempo toma o valor de significante.
No sofisma dos três
prisioneiros, Lacan
introduz a função da pressa, sendo
que a certeza é obtida de maneira antecipada. O apólogo lógico dos três prisioneiros responde, por sua vez,
que o sujeito pode concluir quanto ao
que é, e que ele atinge sozinho o verdadeiro, mas não o faz sem os outros, em uma
operação que deixa resto. Na solidão,
antecipadamente, construo meus três tempos (lógicos). Chega agora o momento de ato e transmissão, mas não
sem resto.
1º tempo: O Instante de ver.
(quatro visões principais)
1- Um “ultrapasse”: (Solidão 1) Como se
haver com a inconsistência do Outro?; tentar cingir o irrepresentável; inventar
uma invenção que se mostre e não se demonstre; o AE continua a produzir: visto
em 05 mesas, 05/06 trabalhos cada uma, de AEs já não em exercício, comentadas
por representantes dos cartéis de passe, Bassols e Laurentiii.
2 -
Transferência (+ e -): Um erro parar a análise na transferência negativa iv.“Deixar
a poeira baixar”, para atravessar o deserto? (Solidão 2). Um relâmpago
inominável aqui.
3 - A Interpretação e a Nomeação: A Interpretação como equívoco se aproxima
da Nomeação. Será a Interpretação uma
Nomeação? Será a Nomeação uma Interpretação?
4 - O Afeto: o que vem a ser o “efeito de
afeto” no cartel do passe? Um elemento novo. Faz o cartel do passe “despertar”,
e que não é teórico – com o passe o demandante passará a ocupar o lugar de AE
na Escola. Miller ensina que “o corpo muda de registro” e que “a nomeação (AE)
não é dada pelo cartel, mas pelo aplauso do público”. Sem o passe, criado por
Lacan, a experiência de análise ficaria nebulosa, e hoje até uma derrota. O
testemunho dos AEs, não do lado da gramática, traz respiração e novidade para a
Escola. E, o que muda e o que não muda no “programa de gozo” após a análise?
v
2º tempo: Tempo de compreender.
(A solidão do Um).
Em cada Um se mostra um
furo, que precisa de “remendo”. Lacan,
com sua presença, suas indicações, seus pacientes, não soltava, mas enlaçava tudo isso dizendo: “Na falta de outro recurso, opero com o nó”.
Na maioria das vezes, ele não pedia ajuda a ninguém, ficava só nesse trabalho.
Mostrando, talvez, cada posição subjetiva: como estamos cada Um com o “aperto”;
do que para cada Um aperta o nó; o nó de cada Um; o “aperto’ de cada Um;
completando: o “câncer” de cada Umvi.
Aquilo já em condução na
DGO/DF, em Transferência de Trabalho,
foi apontado: “Sabia que iria amar. É tudo que está trabalhando!” O que muda?
Seguindo Laurent (2018), poderá estar aí a mesma energia pulsional, só que no
lugar da culpa -
que vem no fracasso - surge a impaciência. E, no tempo de compreender, a permissão. (Solidão 3)
3º
tempo: Momento de concluir. (Desejo decidido pela
- O lugar da - Causa Analítica)
Talvez uma nomeação que
sempre esteve ali, que deixou sua marca, possa ser lida. Como nomear o furo?
Isso surge agora, não mais como um
problema, mas como um ordáliovii:
“A incansável”. No Ato de fundação da Escola, Lacan (1964)viii
registra: “Não é necessário que as
adesões abarquem a totalidade deste plano para que ele funcione. Não preciso de
uma lista numerosa, mas de trabalhadores decididos, como sou desde já”ix.
Decanto assim minha questão:
- Como transmitir
tudo isso?
-
Como transmitir tudo?
-
Como transmitir?
-
Como?
Talvez, permitindo continuar a fazer incansavelmente, impacientemente
e um pouco mais, pela Causa Analítica.
(Solidão 4). Sim! Peço novamente so-corro
a Cazuza:
Porque a gente é
assim?
[...] vê se
fica comigo e não desgruda de mim!
A título de conclusão, esse
parece ser o lugar da Causa Analítica para Ordália!
Goiânia, 25 de abril de 2018.
____________________________
i XI Congresso da AMP. Barcelona,
abril/2018 “As psicoses ordinárias e as outras, sob transferência”.
ii LACAN, J. O tempo lógico e a
asserção de certeza antecipada. Em: Escritos. RJ: JZE, 1998, p. 197-228.
iii Adianto, que nesse ponto -
junto com o último sobre o “afeto” - a certeza
veio de maneira antecipada: “O Passe na Escola”, uma nova atividade que
conduzirei na Delegação-GO/DF, à partir do primeiro semestre de 2018 (junho).
Desejada desde 2016, e após Barcelona-2018, se fará de fato!
iv LAURENT, É. [2018] Intervenção
na 2ª mesa do “Encontro marcado com o passe”:01/04/2018 – em Barcelona. (Inédita).
v Na nova atividade do “Passe na
Escola”-2018, da DGO/DF trataremos, também, disso.
vi No tempo de compreender, algumas vezes acompanhado por histórias
cirúrgicas, relatos de um filho, sobre suas “preciosidades” na rotina de
trabalho, como cirurgião oncológico. Os excessos e os furos doentes do corpo,
que demandam, literalmente, “remendos” com agulhas, bisturis e remédios: a
mastectomia, a quimioterapia, a radioterapia, que passa a ser de cada Um.
vii LACAN, J. [1953]. Discurso de Roma. RJ: Outros Escritos,
JZE, 2003, p. 144.
viii LACAN, J. [1964] Ato de
fundação. (21/06/1964). RJ: Outros Escritos. JZE, 2003, p. 239.
ix Em 2018, 54 anos após a
fundação da Escola, somos menos de 2.000 Membros. Segundo Bassols (2018) somos 1.983 em todo mundo. (Nos últimos 4
anos, em sua gestão, entraram 181,10% desse total.).
publicado em 23/03/2018, no facebook CIEN Brasil
RESSONÂNCIAS DO CIEN EM GOIÁS
Ceres Lêda F F Rubio
No dia 23 de Fevereiro o CIEN deu o pontapé inicial para a abertura de um Laboratório em Goiás, agora em formação, nomeado de “Entreoutros”. Para tanto, preparou uma Conversação Interdisciplinar intitulada “Etiquetagem e medicalização em crianças e adolescentes” tendo como pano de fundo a exibição do filme “L’enfance sous controle”. Para animar a conversa esteve presente a Psicanalista Ana Martha Maia (EBP/AMP), coordenadora do Laboratório do CIEN-Rio “A criança entre a mãe e a mulher” e a Pedagoga Sylvana de Oliveira Bernardi Noleto, professora da UEG e PUC-GO. Cerca de cinquenta pessoas responderam ao convite para lá estarem, indicando a relevância do tema e o interesse pelo trabalho.
Sylvana coloca-se como aquela que falava de “fora” para dizer de sua posição, não sendo psicanalista ao comentar sobre o filme, mas sendo leal a proposta do CIEN de reunir disciplinas e poder ela dizer sobre o discurso que a sustenta na sua prática dentro da Pedagogia.
Coloca-se diante do documentário com uma crítica, questionando e nos fazendo lembrar que o cineasta, ele próprio, ao elaborar a edição do filme recortou e incluiu muito provavelmente aquilo que lhe pareceu mais importante, indicando que o resultado do produto tem aí a marca de quem o construiu. O filme para ela questiona o conceito de criança e de infância, que são diferentes, e lhe provocou ao trazer um recorte do comportamento do indivíduo em detrimento de um contexto de totalidade que a Pedagogia considera ao falar do sujeito humano. E isso marca uma cisão entre o que apresenta o documentário e o que a Pedagogia pode analisar sobre o comportamento de uma criança. Sylvana defende que se deve considerar ao analisar o comportamento, o contexto histórico social e familiar para além do biológico. O filme defendendo apenas motivos biológicos para a violência e propondo soluções a partir do controle, avaliações e normatizações do comportamento, sem considerar , segundo ela a hipótese de que a violência é social, construída nas relações e das interações. Na relação com o outro é que se exprime a violência. Acredita nisso, como também que o processo de ensino aprendizagem se dá nas relações e é individualizada.
A Pedagoga na sua prática de escola pública confirma que lá, também há uma tendência de solicitar o diagnóstico e avaliação da criança para responder ao problema de comportamento e aprendizado e, concomitantemente adoecendo-as, segregando-as ao apontar os problemas sem se implicarem neles, a partir de uma impotência do professor no ensino. Relaciona que há nessa problemática, políticas públicas direcionadas que influenciam esse modo de funcionar do professor. Há uma racionalização e uma falta de entendimento na Escola sobre qual é a forma e de quem é a responsabilidade de resolver o problema. Um impasse!
O impasse aponta para uma diferença do lugar da Pedagogia, implicada com sua visão de totalidade do sujeito humano e o recorte parcial que se faz do indivíduo, na ciência, ao ofertar seus recursos para resolver o problema do comportamento violento e dificuldades na aprendizagem. Não se sabe sobre de quem é a responsabilidade na solução dessa questão claramente complexa. E não se crê a solução única a partir da avaliação, controle e a medicalização, para problemas que indicam receber influência do meio social, familiar.
A discussão avançou entre os participantes e cada um que se apresentou para falar concordou que o impasse se organiza na impotência e impossibilidade. A impotência de se estabelecer uma prevenção e controle da violência a partir de um contexto único biológico, na impotência de um ensino idealizado que promete um aprendizado também idealizado para as crianças e adolescentes. E a impossibilidade de encontrar soluções definitivas, que seja pela ciência a partir da medicalização.
Ana Martha contribuiu nessas discussões, e a partir de três exemplos de sua prática no laboratório do CIEN-Rio, confirmou o impasse apontado ao final na conversação e ainda esclarecendo na prática o modo de intervenção e condução de um laboratório.
Uma delas foi à experiência de uma atividade de laboratório ao atender a demanda de intervirem na queixa de violência em uma escola. Na instituição, entram em contato com a queixa de crianças que “não querem aprender a ler e escrever” e com problemas de “interação e disciplina”, observam ainda a relação dos profissionais da escola com determinados alunos. Esses profissionais não demonstrando sensibilidade e acolhimento às queixas desses outros, indicando já ali um tipo de “violência” na relação. O laboratório apontou que havia um ponto de excesso e de um gozo nas crianças que a escola não conseguia tratar, e, que os profissionais não se implicavam na problemática da violência na escola.
Ao final com o adiantado da hora, confirmou-se junto aos participantes o desejo de alguns continuarem em um segundo tempo, a discussão sobre o que a Conversação interdisciplinar apontou a respeito da temática proposta ao elaborar o impasse.
Fechamos o evento com o convite de seguirmos com o Laboratório Entreoutros, agora para um momento de elaboração e ampliação das discussões resultadas da Conversação.
publicado em 16/03;2018
Nota de repúdio
A Escola
Brasileira de Psicanalise (EBP) manifesta seu repúdio e seu profundo pesar pelo
assassinato da vereadora Marielle Franco, ocorrido na noite de ontem, no centro da cidade do Rio de
Janeiro. Oriunda do Complexo da Maré, Marielle dedicou-se à causa de
mulheres e negros, bem como à defesa dos Direitos Humanos.
Manifesta seu repúdio, ainda, à violência generalizada que se alastra sem freios, e a todo e qualquer ato que coloque em risco a integridade humana, bem como a vigência do Estado Democrático de Direito em nosso país.
Manifesta seu repúdio, ainda, à violência generalizada que se alastra sem freios, e a todo e qualquer ato que coloque em risco a integridade humana, bem como a vigência do Estado Democrático de Direito em nosso país.
A EBP
acompanhará os desdobramentos e permanecerá atenta ao momento
delicado que nossa democracia atravessa. Trabalhamos para que as mais diversas
vozes da cidade possam encontrar e inventar as palavras que expressam o mais
precioso de suas vidas e para que não se calem jamais.
Luiz
Fernando Carrijo da Cunha - Diretor da EBP
Lucíola
Freitas de Macedo- Presidente da EBP
publicado em 22 de março de 2018
Não existe raça mas, racismo
Sérgio de Campos
Racismo é um conjunto de crenças expressas em discurso para justificar a hierarquia de uma raça em prejuízo de outra. Essas crenças associadas a um conjunto de práticas e instituições discriminatórias proporcionam condições políticas e sociais a um determinado grupo em detrimento de outro[1].
Após a queda do regime nazista, a UNESCO, entre os anos 50 e 60, convocou, em quatro ocasiões, eminentes cientistas com a finalidade de se pronunciarem sobre o estatuto científico de raça. Chegou-se à conclusão que não existem provas científicas de que os grupos humanos diferem suas características mentais inatas em raças, tanto no que concerne à inteligência quanto ao que tange ao temperamento. Ou seja: as diferenças entre os grupos humanos não são determinadas geneticamente e as evoluções sociais e culturais são independentes das constituições inatas.
A UNESCO concluiu então que todos os seres humanos são capazes de participar da vida comum, de respeitar a reciprocidade, os deveres e de viver conforme o contrato social, e que, portanto, as diferenças étnicas são irrelevantes para as questões de organizações políticas, sociais, morais e culturais da humanidade. A UNESCO concluiu, então, que não existe justificação alguma na ciência para se usar o conceito de raça. O consenso da comunidade científica abalou totalmente a credibilidade daqueles que, na época, defendiam as teorias racistas. Inobstante a raça não encontrar apoio na ciência, o racismo não foi excluído dos discursos do senso comum.
Define-se racismo como “relações raciais, ideológicas ou religiosas” que utilizam as “distinções odiosas e injustas” entre os fenótipos e as diferenças culturais com a finalidade de justificar o domínio em situações de conflitos.. As características dessas “distinções odiosas” são a competição, a exploração, a opressão e a discriminação, indo mais além da que se observa no livre mercado; ademais, o racismo acontece entre grupos fechados, sendo impossível a permuta de filiação de um grupo para o outro; e por fim, todo o racismo é justificado pelos grupos dominantes sob a alegação de teorias determinísticas em razão de uma natureza biológica, como a teoria nazista de que os “arianos são raça pura”, associada a um conjunto de práticas que justificavam as atrocidades contra os judeus, em oferendas a um “Deus obscuro”[2]. Em épocas de tensões políticas, econômicas e sociais, o racismo converte as minorias em bodes expiatórios para sanar os males da sociedade.
A alegação geral é de que no Brasil não existe racismo. Com efeito, no país, a maioria das formas de hostilidades ou discriminações contra “grupos étnicos” são disfarçadas, encobertas e dissimuladas, particularmente, quando praticados por organismos oficiais. Segundo a ONU[3], o racismo é um problema estrutural do Brasil. A nova direita, ao negar o racismo, de modo cínico, propaga as boas intenções em nome da harmonia e da paz que “essas pessoas preferem o relacionamento social, sexual e cultural com sua própria raça”[4].
O racismo no Brasil não é um tema uniforme, susceptível a uma explicação única, mas amplo, complexo, com diversas nuances históricas que se baseiam na tese de que os negros têm um temperamento violento e preguiçoso e que seriam responsáveis - de acordo com estatísticas - pelos conflitos, tensões sociais e pelas próprias mortes. Assim, as minorias vulneráveis se tornam os culpados pelos males econômicos e sociais, o que justificariam sua exploração e sua desvantagem na sociedade econômica.
O colonialismo e o sistema de classe induziram ao racismo, particularmente, onde os imigrantes são submetidos à exploração e à opressão mais severas do que aquelas que o mercado de trabalho impõe aos trabalhadores do próprio país, como por exemplo, atualmente, os imigrantes venezuelanos no norte do Brasil.
Gilberto Freyre, em Casa grande & senzala, pintou com cores fortes um quadro brasileiro de contornos precisos e verdades incontestáveis de um equilíbrio de antagonismos que fez da civilização brasileira rica e singular. Entretanto, os críticos de Freyre ressaltam que a miscigenação esteve longe de ser coerente, visto que o racismo fora situado na própria arquitetura da Casa-grande. O próprio Freyre reconhece esse fato - no prefácio de sua primeira edição - no qual assinala que distante de ser harmônica, “a Casa-grande completada pela senzala representa todo um sistema econômico, social e político de produção da monocultura latifundiária e do trabalho escravo que revela uma dissimetria de classe social, econômica e cultural”[5].
O racismo no Brasil, como apartheid social, se expressa contra negros, mulatos e índios, de forma que o preconceito resiste na sociedade, camuflado, resultando numa menor remuneração aos negros em relação aos brancos.Darcy Ribeiro, em O povo brasileiro, ressalta que as classes dominantes “guardam, diante do negro, a mesma atitude de desprezo vil” que seus antepassados escravocratas. “Os pobres e os negros em geral são vistos como culpados de sua própria miséria, em razão de suas características raciais e não devido à escravidão e à opressão” [6]. Darcy Ribeiro afirma que não é só o branco que discrimina o negro no Brasil, mas, o preconceito é assimilado pelos próprios negros que ascendem socialmente, “os quais se somam ao contingente branco para discriminar o negro incluído na massa”[7]. Assim, a miscigenação não chega a se configurar como uma democracia racial, como conjecturou Freyre, mas, em um racismo, na medida em que no fundo, existe uma expectativa de que o negro desapareça pela apuração da mestiçagem.
Nos últimos anos, foram aprovadas leis com a finalidade de atenuar o racismo, a segregação e a discriminação social no Brasil. Entretanto, a psicanálise não visa recusar as leis, mas, inscrever e acolher o real no não-todo que escapa à lei simbólica. Lacan assinala que a psicanálise tem a tarefa de indagar a segregação e as leis na modernidade, com a finalidade de fazer vacilar as defesas contra o real para alcançar a singularidade de cada um - seja negro, pardo, índio, ou branco - em sua “diferença absoluta” [8]. Enfim, não há raças, mas um imaginário designado como racismo no que concerne à fratura do íntimo/êxtimo e à intolerância experimentada como o ódio e o insuportável, diante do gozo do Outro, cuja saída é aniquilá-lo, sob o viés da segregação[9]. Portanto, a psicanálise ao favorecer o bem-dizer, visa esvaziar a consistência imaginária, “des-massificar” o sujeito e desconstruir a lógica do racismo[10].
[1] ZUBAIDA, S., Racismo, In: Dicionário do pensamento social do século XX, Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1996, p. p. 643.
[2] LACAN, J., Os conceitos fundamentais da psicanálise, O Seminário, Livro XI, Rio de Janeiro: Zahar, 1988, p. 265-266.
[3] ONU, ed. (dezembro de 2012). «Grupo da ONU reconhece o racismo como problema estrutural do Brasil». Consultado em 10 de fevereiro de 2018.
[4] ZUBAIDA, S., Racismo, In: Dicionário do pensamento social do século XX, Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1996, p. 644.
[5] FREYRE, G., prefácio, Casa-grande & senzala, Rio de Janeiro: José Olímpio, 1987, p. 12.
[6] RIBEIRO, D., O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1995, p. 225.
[7] Idem, p. 226.
[8] LACAN, J., Aturdito, Outros escritos, Rio de janeiro: Jorge Zahar editor, 2003, p. 462.
[9] MILLER, J.-A., Extimidade, Buenos Aires: Paidós, 2010, Racismo, p. 55.
[10] NAVEAU, L. O real, um anti-racismo inédito, Um real para o século XXI, Lacan cotidiano, n. 357.
__._,_.___
Enviado por: Veredas
Publicado em 07/11/2017
Este é um texto a ser estudado nesta quarta feira, ás 19:30, no "Estudo da Clínica", que vem desenvolvendo um excelente trabalho no estudo das psicoses ordinárias. Venha participar e se envolver um pouco mais com o tema.
A
psicose ordinária 1
Transcrição de uma
entrevista realizada por Jacques Munier
a Eric Laurent. J. Munier, um
interlocutor informado e advertido da encruzilhada em que se encontra a
psicanálise diante da reconfiguração atual do campo clínico, permite a E.
Laurent expor as linhas de força que estruturam o referido campo e, a partir
daí delinear com clareza os desafios com os quais deve se confrontar a
psicanálise. Um tom reflexivo e com conhecimento do caminho percorrido pela
psicanálise no século passado em pontos cruciais da clínica com a psicose,
acompanha a análise de E. Laurent dos efeitos na clínica do declínio da
autoridade e o que pode esperar da psicanálise sujeitos que não contam com os
recursos do Nome-do-Pai para dar
um sentido a sua experiência
subjetiva. Enfatizando os que se localizariam a partir da psicose ordinária, com suas pequenas
extravagâncias e invenções singulares. Por outro lado, suas ideias, por
exemplo, sobre o lugar do avanço no conhecimento biológico e na química do
medicamento, assim como sobre a
relação da teoria psicanalítica com categorias de pragmática da linguagem,
podem servir de orientação para trabalhar sobre esses temas, já que incidem de diversos modos na prática
hoje.
(Jacques
Munier começa a transmissão lendo
ao público umas palavras proferidas
por Jacques Lacan em maio de
1976)
“Precisamente é na
leitura de Freud que fica atualmente suspensa a questão de saber se a
psicanálise é uma ciência, ou sejamos
modestos, pode oferecer para a ciência uma contribuição ou melhor, se sua práxis não tem nenhum
dos privilégios do rigor do qual se
orgulha para pretender elevar a nota ruim do empirismo que sempre desconsiderou
os dados como os resultados das
psicoterapias, para justificar também o
pesado aparato que emprega, apesar de algumas vezes, e por sua própria
confissão de desempenho mensurável”.
Jacques Munier: É
então sob o signo do empirismo e da clínica que vamos a recorrer aos novos campos abertos pela psicanálise ou
ainda mais a evolução da prática analítica e da teoria, nos domínios mais tradicionais como na
psicose. Se trata por esta via de chegar a uma visão de conjunto da investigação clínica em psicanálise, a fim de ver aparecer o que
surge do consultório do analista nestes
tempos transtornados, e que fala
muito sobre o sobre estado atual da nossa sociedade. Você trabalhou sobre o tema da psicose a partir do
texto canônico de Freud nas Cinco psicanálises consagrado as “Memórias del
Presidente Schreber” e a sua grave
psicose paranóica. Depois houve um
longo caminho percorrido pelos psicanalistas, particularmente nos anos 50.
Eric Laurent: Este
texto que você elegeu define nosso tempo. O campo das psicoterapias é com
efeito percorrido e renovado por uma nova tensão entre os defensores do mensurável e
aqueles que criticam o aparato conceitual da psicanálise e tentam demonstrar que este aparato conceitual não se sustenta, diante da medicina baseada em provas de
extensas séries estatísticas. No
entanto, o campo da psicose ordinária se
justifica pela abordagem qualitativa que a psicanálise pode fazer, já que não é objetivável em
comportamentos avaliáveis e mensuráveis, e que dificilmente se integra nas
séries estatísticas.
É interessante observar o caminho percorrido pela psicanálise a partir da segunda guerra
mundial. No movimento psicanalítico
a situação era estranha. Em suas
últimas obras (1939), Freud advertia aos psicanalistas contra um entusiasmo
terapêutico a propósito da psicose e lhes aconselhava
a se concentrarem no núcleo da prática das chamadas neuroses. No
mesmo momento, na Inglaterra, uma psicanalista originária de Europa central,
Melanie Klein desenvolvia com força a possibilidade de abordar e de tratar as
psicoses, não somente a de criança com a qual ela desenvolvia uma técnica particular aumentando a
esperança de prevenção, mas
também nas de adultos. Formava
também alunos como Wilfried Bion, por exemplo, que adaptava para o adulto um novo modo de tratamento das
psicoses. Tudo isto criou uma atmosfera muito efervescente nos anos depois da guerra, com uma grande abundância dos métodos propostos, ou melhor, do
desenvolvimento dos aparatos necessários para a psicanálise para poder captar a
originalidade do fenômeno psicótico.
Estamos aí antes do
encontro dos neurolépticos, dos quais podemos dizer que é um pouco obra do
acaso, antes da introdução de
drogas no tratamento da psicose. Sabe-se que, por extensão das aplicações de um
anestésico, a clorpromazina, ia se ter o primeiro modelo de psicotrópico
generalizado. É verdade que, a partir dos anos 60, a prescrição de medicamentos
permitiu manter o diálogo com sujeitos psicóticos muito mais do que era
possível anteriormente.
Jacques Munier:
Tradicionalmente, a psicanálise recomendava não escutar muito o psicótico e
fazer falar o neurótico.
Éric
Laurent: A psicanálise aconselhava não se deixar levar pelo delírio.
O primeiro tratamento psicanalítico de um caso de psicose extraordinária foi
historicamente realizado por Jung. Ele encontrou muito cedo, em 1911, um
psiquiatra psicótico que tratou. No princípio fascinado com o desempenho do
tratamento, que se esgota rapidamente termina escrevendo para Freud: “Eu não
posso mais detê-lo”. Já não tem mais o poder de colocar um limite para a
produção hiperbólica imposta ao paciente.
Jacques
Munier: A própria concepção de psicose evoluiu bastante.
Tradicionalmente, este termo refere-se a graves condições psíquicas, como
paranóia, delírio paranóico, bouffées delirantes e esquizofrenia
Éric
Laurent: São doenças muito graves. Vemos neste âmbito uma grande expansão da prática
psicanalítica, das consultas psiquiátricas e da clínica na cidade. As pessoas,
eventualmente, vão ver o psiquiatra depois de falar sobre os sentimentos que
experimentam com o clínico. A noção de depressão encontrou grande sucesso. O
senso comum do termo depressão tornou-se parte da linguagem de hoje. Agora é
uma espécie de continuum que vai de uma grande tristeza a depressão
severa, melancolia, etc. Um novo acento é colocado na bipolaridade, denominado
maníaco ou melancólico, ou ambos ao mesmo tempo. Então, também encontramos uma
espécie de continuum ao lado da psicose. Não há psicose extraordinária
como na clínica psiquiátrica clássica, que se destacou antes da entrada do
medicamento; há também todo tipo de
fenômenos nesse continuum. Na sua prática, os psicanalistas vêem
mais pessoas que estão mais do lado da psicose
ordinária. Então, entre a neurose clássica, de um lado, e a psicose extraordinária,
de outro, encontramos fenômenos cruzados, mistos
que não são facilmente classificáveis. Existe um campo da clínica que deve
ser explorado qualitativamente. Mas, é preciso fazer distinção entre neurose e
psicose, como dois pólos
completamente fundamentais.
Jacques
Munier: É um fenômeno
ligado ao estado atual de nossas sociedades ou à sua evolução? É um interesse
progressivo dos psicanalistas por
este campo, é uma pesquisa que
abriu perspectivas, ou ambas, ao mesmo tempo?
Éric
Laurent: Os psicanalistas não deixaram de manter um programa de
pesquisa.
Jacques Munier:
O próprio Lacan, em 1958, dirigiu um seminário sobre os psicóticos.
Éric Laurent: Lacan
não abandonou a apresentação de pacientes com os quais ele formou gerações de
psicanalistas na disciplina da entrevista com o sujeito psicótico.
Jacques Munier:
Com a questão da interpretação…
Éric Laurent: Sim,
e a questão de como se aproximar da
singularidade do sujeito que se entrevistava. Como ajudar este sujeito, como nesta entrevista, obter efeitos sobre a
construção em andamento, seu eventual delírio, ou como afastá-lo de uma passagem ao
ato, e intervir da melhor
maneira? Após o seminário do qual você falou, Lacan produziu seu escrito
intitulado “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”.
Depois disso, ele não parou de buscar
compreender o inconsciente mais além de sua estrutura e a disposição que recebe
na neurose. O programa de trabalho de
Lacan consistiu então em fazer um inconsciente a partir do campo da psicose,
que é um campo mais amplo.
Jacques Munier:
Interpretar a psicose, é ter um olhar sobre
o inconsciente a céu aberto…
Eric Laurent:
Sim, é um inconsciente cujo céu não está coberto pelo que Freud chamou de o
complexo de Édipo. O essencial já não é a tragédia de Sófocles, onde o menino
quer matar seu pai para ter sua mãe para ele sozinho e dormir com ela… É, além
disso. O complexo de Édipo responde mais à pergunta que o filósofo colocou para
a sua irmã em análise com Freud: “Quando Freud sabe que ele deve parar? Por que
ele para na questão do pai? “
Wittgenstein se
interrogava sobre a interpretação na
linguagem. E mais que isso, o complexo de Édipo. Na neurose, há um ponto que é nec
plus ultra: não se vai mais longe. Isto quer
dizer que existe um personagem central que define a vida psíquica, o drama
psíquico de cada um. É o pai, suas falhas, seus limites, tudo o que ele tem
para censurar.
Jacques Munier:
O Nome-do-Pai?
Éric Laurent:
Sim, este Nome-do-Pai faz um ponto de amarração, um ponto de capitón, diz Lacan. Mas é precisamente esse ponto que não
existe na psicose. Então, como é que
isso para? Como funciona a certeza que existe na psicose? É assim que se faz a
passagem da psicose extraordinária para a psicose ordinária.
Jacques-Alain Miller
apresentou o termo “psicose ordinária” há
dez anos. Esta proposição mantém o termo de psicose que data do século XIX, que
a psiquiatria de hoje questiona. Mas esse termo, nós preservamos porque é o
legado da clínica psiquiátrica clássica, a de antes da medicação,
aquela cujos praticantes – os alunos, e também os professores – se interessavam pelos ditos do sujeito.
Jacques Munier:
Se prestava uma atenção cuidadosa, se fazia interpretação….
Éric Laurent:
Claro, se escutava para poder se
orientar. Se pretendia alcançar certo real da doença, com base nas
palavras do paciente, enquanto a psiquiatria atual se dedica a uma
investigação biológica que permita a separação das afecções. É por esse outro
viés que se busca hoje o real em jogo, que por outro lado, até o momento não se
tem encontrado.
Jacques Munier: Se
fala então de “Psicose compensada”, “psicose suplementada”, “desencadeada” ou
“medicada”, ou ainda de “psicose em
terapia”, “psicose em análise” ou de “psicose
sinthomatizada “… Encontrei esta lista de termos técnicos no livro A Psicose
Ordinária. A convenção de Antibes,
publicado em 1999.
Eric Laurent: É
verdade que os psicanalistas encontram em sua prática todos os tipos de
sujeitos psicóticos neste continuum que evolui. Com a ação dos
medicamentos psicotrópicos, há pessoas que poderão utilizar terapia
medicamentosa em dado momento formular uma questão, mas é desejável que possam prescindir
dela o quanto antes. Isso só justifica continuar ou formular uma questão sobre
experiência que tem atravessado o sentido e como se situa em relação a isso. O
sujeito muitas vezes se encontra bastante afetado, para se contentar com
conselhos piedosos, tais como
“Esqueça tudo isso”, “Está tudo bem”, “ Sua vida vai voltar ao que era”. Há
fenômenos tais que o sujeito que teve que viver, encontrará na psicanálise, na
conversa singular com o psicanalista, a propósito do que ele tem atravessado, recursos para se orientar em sua
existência.
Jacques Munier: Hoje
há um aumento dessas psicoses, dessas afecções?
Éric Laurent:
Sim, há um consenso geral. Existe
um aumento quantitativo. Existem menos
neuroses clássicas.
Jacques Munier:
Menos histerias, menos neurose obsessiva?
Éric Laurent: Sim, ou melhor, com outras máscaras. É um debate. Há
um deslizamento da clínica. A clínica não é constituída por espécies biológicas
darwinianas que existiriam em um mundo conforme Linné com a classificação das espécies. Os próprios
biólogos criticam a noção justamente para situar a ênfase nos processos. A
clínica se move por razões que são as do saber, as da técnica. É claro que o
impacto das medicações, dos psicotrópicos deslocou os antigos paradigmas e
criou um novo.
Jacques Munier: Você
eventualmente os utiliza nos tratamentos?
Eric Laurent:
Claro. A prática psicanalítica contemporânea está em um mundo onde a medicina é
onipresente. Cada um de nós toma medicamentos para muitas coisas. Os sujeitos
que sofrem podem recorrer a estes medicamentos. Existe esse ponto no saber, mas
há também deslizamentos socioculturais. Em nossa sociedade, a questão do pai se
modificou de cima a baixo. Podemos deduzir disso que, se esse horizonte do
complexo de Édipo é fundamental, a noção de pai é, no entanto, trabalhada em
nossas sociedades de uma maneira particular. A questão do declínio da
autoridade tem destaque, etc. Cada vez mais, os sujeitos não têm confiança na
tradição, nas formas de fazer, nos costumes. Isso dá um certo número de fenômenos
que os sociólogos isolaram como a auto-fadiga, o crepúsculo do dever, que evoca
os títulos dos livros de Alain Ehrenberg e Gilles Lipovetsky. Este tipo de
fenômeno que os sociólogos demonstram, enfatizam o peso de reinvenção que cada
um deve suportar.
Jacques Munier:
Seria como se nesta sociedade de individualistas cada um criasse seu próprio
modelo…
Éric Laurent: Porque
ela se situa de outra maneira trabalha com entrevistas, com questionário, etc.,
a sociologia é levada a subestimar o que poderíamos chamar de loucura ou
incompletude do outro e os efeitos a que isso induz. Não é apenas um efeito
de fadiga e de depressão, mas também um efeito da loucura ordinária. É o que a
psicanálise traz para esse campo.
Jacques Munier: Entre
a psicose ordinária e a loucura ordinária, há apenas um passo no nível da
expressão. Em todo caso, isso coloca a questão de finalmente saber: “Quem é
louco? O que é um louco? “Para responder a isso, Lacan preconizou o tornar-se
“secretário do alienado”.
(Jacques Munier lê um
fragmento do Seminário O Sinthoma ao público)
A partir de que momento
se está louco? Vale a pena colocar esta questão, mas no momento, a pergunta que
faço é esta, Joyce estava louco? Louco, por que, depois de tudo, Joyce não
teria sido? Isto é pela razão de que não é um privilégio, se é verdade que, na
maioria, o simbólico, o imaginário e o real são embolados até o ponto de
continuar uns nos outros, na ausência da operação que os distinga […] Por esta
razão, não é um privilégio ser louco. […] Por que não conceber o caso de Joyce
nos seguintes termos? Seu desejo de ser um artista que ocupará todo o mundo, o
maior número possível de pessoas em todo caso, não é exatamente o que compensa
o fato de seu pai nunca ter sido pai dele? […] Não há algo como uma compensação
por essa renúncia paterna, desta verwerfung de fato, no fato de que Joyce
se sentia imperiosamente interpelado?
Lacan faz alusão verwerfung,
a foraclusão do Nome-do-Pai. É um trecho do seminário, Livro XXIII, O Sinthoma,
(1975-1976)
Eric Laurent:
Estamos no cerne deste problema. Lacan diz: “Não é mais um privilégio ser
louco”. Certamente, que privilégio estranho! É um desejo de não abordar a
questão da loucura como um déficit, mas a partir da forma original de
linguagem. Sabe-se que Joyce não apresentou na sua vida sintomas que tenham
tornado necessário recorrer à psiquiatria (infelizmente, este não foi o caso de
sua filha que passou anos internada no hospital). É em um continuum que
a questão pode ser colocada adequadamente. É o desejo de Lacan de manter o
inconsciente e seus modos de distribuição nas categorias do real, do simbólico
e do imaginário. Resumindo: o
imaginário é o corpo; o simbólico, são as palavras que se diz; O
real, são os efeitos que tem o gozo no corpo, os acontecimentos que
atravessam este corpo que é tomado pela substância gozante. Trata-se de
compreender esta distribuição a partir de um modo de generalização
suficientemente poderoso, que permita prescindir qualitativamente da partição
muito simples entre as categorias de psicose extraordinária e neurose clássica.
Jacques Munier:
O tratamento é muito mais uma questão de escuta e interpretação, o que coloca
também toda a questão da linguagem. Lacan insistiu nisso. Você recordou que uma
série de avanços no campo da biologia, da química dos medicamentos fizeram
evoluir nosso olhar sobre a psicose, mas igualmente também tivemos teorias da
linguagem e, particularmente hoje, a pragmática, a análise dos discursos. Esta
evolução científica nos permite levar outro olhar sobre a psicose.
Éric Laurent: Há
também na obra de Lacan um giro pragmático. Ênfase nos discursos, que são a
maneira de fazer, que define o significado das palavras, seu uso em determinada
sociedade para além da tradição. No início dos anos setenta, ele propôs quatro
discursos, que ele definiu como discursos que sustentam, modos normatizados, para além da questão das tradições, de
estabelecimento da ligação entre palavras e o que estas querem dizer. Este giro pragmático é crucial para o
programa de pesquisa da psicose ordinária. Trata-se de ver como os
sujeitos tentam manter juntos os efeitos do parasitismo
da linguagem que atravessa seu corpo, e os acontecimentos extraordinários que
eventualmente ocorrem. Como manter isso junto sem o apoio de um discurso
estabelecido? Na psicose ordinária,
a pragmática está em primeiro plano. É também o que nos permite separar-nos
da abordagem da psicose por comportamento ou behaviorismo psicótico. Com
efeito, se as psicoses extraordinárias foram reveladas por distúrbios
comportamentais maciços, os comportamentos com os quais temos de lidar na psicose ordinária muitas vezes não
apresentam nada disso. Eles são raros: estilo de vida particular, invenções.
Querer tratar a partir do
comportamento pode produzir fenômenos estranhos, a partir do momento em que se
deixa de lado o modo próprio
como o sujeito se define, no que fala de si, e falando se constrói como sujeito
num mundo totalmente banhado pela linguagem.
Jacques Munier:
estudos recentes sobre a pragmática da linguagem se juntam, especialmente em
certos linguistas pós Chomsky, para dizer que, no fundo, você nunca sabe o que
diz. Pode-se apenas sabê-lo por meio da conversação, do intercâmbio
linguístico. A pragmática, esse foi o caso de Lacan, traz à teoria
psicanalítica para a abordagem da psicose uma luz importante.
Eric Laurent:
essa abordagem é linguística e lógica. A formulação que você sugeriu que alguns
propõem resumir, a problemática da leitura cética de Wittgenstien que o
filósofo americano Saul Kripke desenvolveu bastante (estamos falando do
paradoxo de Kripke), é que não se sabe o significado de uma palavra,
finalmente, mais do que em uma estabilização dos usos e que é em vão querer
definir isso fora de um espaço de conversação.
É o que a psicose ordinária justamente
convida; sem acompanhar o sujeito em grandes desconstruções, eventualmente
delirantes, que permanecem singulares, se trata de manter uma conversação sobre
os acontecimentos de corpo que poderiam encontrar em grau de certeza, e sem
reduzir isso aos comportamentos ou ao estilo de vida do sujeito em sua
particularidade, eventualmente bizarra.
Jacques Munier:
evocamos a foraclusão do Nome-do-Pai. Lacan enfatiza que essa foraclusão
desnuda a relação com a língua. Daí a importância do intercâmbio entre o
psicanalista e o paciente…
Éric Laurent:
porque a relação com a linguagem é nua, na verdade. É uma variante do “a
céu aberto” que Freud instalou. Não há mais proteção. Não há mais cobertura,
não há mais garantias de que as palavras querem dizer alguma uma coisa, porque,
em última análise, foi dito pelo pai, com a declinação do Nome-do-Pai e da
tradição. Há uma conversação que não
deve encerrar-se no fechamento delirante, mas sim permitir uma abertura, um
percurso sobre o significado da experiência.
Tradução:
Jussara Jovita Souza da Rosa
SITE:
Site:
http://www.lacan21.com/sitio/publicacao-atual/?lang=pt-br
publicado em 31/08/2017
A corrupção da palavra [i]
“A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar
como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”. Graciliano Ramos - Memórias
do Cárcere (1953/2011).[2]
Vossa excelência, data vênia, é ladrão! Eis um xingamento que, precedido
da expressão protocolar de cerimônia do jargão parlamentar, bem ilustra o que
Zuenir Ventura (2010), citando Otavio Paz, se refere: “...a corrupção dos
costumes vem sempre acompanhada da degradação do idioma. ” E acrescenta:
...“Quando uma sociedade se corrompe, a primeira coisa que se decompõe é a
linguagem. A degeneração de uma é também da outra”. [3]
A acusação aludida acima foi enunciada no ambiente do Congresso
brasileiro, que ultimamente tem sido palco de encenações que beiram a
pornografia e é uma clara alusão a um caso de contravenção semântica – “o
idioma foi reduzido a um nível quase animal ...no bate-boca eles perdem
totalmente o sentido” – conclui Zuenir Ventura.[4]
A esta observação se alinha também o escritor israelita, Amós Oz (2017),
ao testemunhar que em suas obras o que lhe move é principalmente uma
responsabilidade para com a linguagem e afirma: "Muitos dos maiores
males deste mundo começam com a corrupção da linguagem". [5]
Diz Amós (2017) “Em minhas obras, o que me move é principalmente uma
responsabilidade para com a linguagem. Eu sou um escritor, trabalho com
palavras todos os dias, do mesmo modo que um carpinteiro trabalha com a madeira
ou um pedreiro com tijolos. Assim, eu sinto uma responsabilidade para com a
linguagem...é meu dever gritar a cada vez que vejo alguém usando uma linguagem
contaminada. Quando algumas pessoas chamam outras de ‘estrangeiros
indesejáveis’, ‘elementos negativos’, ‘câncer social’ ou ‘parasitas’, sei que é
sempre aí que começa a violência, a perseguição e a crueldade. Daí meu senso de
dever de trabalhar como o corpo de bombeiros do idioma, ou como um detector de
fumaça... eu preciso gritar fogo! – sempre que leio ou ouço essas
palavras que, mais cedo ou mais tarde, vão gerar violência.” [6]:
Estas posições são compatíveis com a predição de Italo Calvino (1998) [7]: “A literatura pode criar os anticorpos que coíbam a
expansão da peste da linguagem”.
Mas, é a invenção técnica de Freud, a “associação livre”, que coloca a
psicanálise no âmbito da linguagem rompendo com as convenções e infringindo as
regras do raciocínio.
São, portanto, duas abordagens distintas: há uma corrupção dos costumes
que degrada a linguagem e há uma corrupção estrutural da linguagem.
Para a psicanálise é mais apropriado o uso do sintagma “corrupção da
linguagem”, que não passa desapercebido aos nossos ouvidos. Ele bem diz sobre o
que está no cerne do trabalho analítico – a impossibilidade de ser
incorruptível quanto à própria fala. Há entre o dito e o dizer uma ruptura
estrutural que não se apaga e que pode ser lida. A corrupção da linguagem é no
dispositivo analítico a condição para um falasser se reconhecer onde se
desconhece e tomar partido daquilo que lhe ultrapassa e ao mesmo tempo lhe
atravessa. O sujeito em análise se responsabiliza quanto ao dizer e em relação
ao seu modo de gozo. É uma posição diferente de quem se considera incorruptível
que, necessariamente se coloca como exceção da regra, pregador do retorno à
purificação e à virtude, como aquele que sabe sobre o bem dos outros. [8].
Lacan [9], em 1955, faz uma afirmação que toca o nosso tema: “A
maior corrupção de todas as corrupções é a corrupção intelectual”. O
contexto da frase era sua proposta de um retorno a Freud face aos desvios que
os posfreudianos estavam perpetrando. A importância de retornar à obra de Freud
estava alicerçada pela lógica e a ética e ele se posiciona contra a corrupção
intelectual. E isso teve consequências! – E como!
Um pouco antes, em 1953[10], Lacan dizia que "deve renunciar à prática da
psicanálise todo analista que não conseguir alcançar em seu horizonte a
subjetividade de sua época". Foi a reiteração a Freud, que associava a
psicologia individual como inseparável da psicologia social e concebia a
neurose como uma resposta do sujeito à renúncia pulsional devido às exigências
da cultura na modernidade.
Este é o mote que nos une na atualidade. Não há como retroceder frente a
avalanche de eventos sociais que elencam fatos constrangedores de corrupção que
comprometem os laços sociais e podem ameaçar o estado de direito. A
psicanálise, cuja prática é do um a um e que implica a liberdade de expressão,
a palavra livre e o pluralismo, portanto tem uma mão no social, não deve se
manter às margens das mudanças impostas pelo programa de gozo da civilização.
Se impõe então, responder ao discurso universal que submete o cidadão à lei da
norma para todos.
A Psicanálise é um laço social[11], portanto um tratamento do gozo e, neste sentido,
está relacionada a política. A experiência analítica propõe elucidar a relação
do gozo e o laço social. Trata-se de modificar a relação que o sujeito tem com
a linguagem – mais especificamente, com o significante-mestre – que
determina as modalidades dos laços sociais e tem relação com o gozo”. É isso
que dá ao analista o dever político de devolver ao sujeito a escolha decidida
dessa relação com o significante-mestre”.
Pensar a corrupção da linguagem desde essa perspectiva é um caminho de,
em última instância, fomentar uma relação com a linguagem que incite o
bem-dizer. É uma forma diferente de abordar a corrupção.
Este é o nosso desafio: enquanto clínicos tratar a linguagem,
isto é, tratar o império do S1 e o gozo e, por outro lado, em
relação ao Outro social, recusar os modos estabelecidos de gozar. É o viés
político: é primeiramente querer as condições materiais para o exercício da
psicanálise e também por em questão os ideais da cidade e da política
dominante.
O movimento Doces & Bárbaros contempla esta política. Nós
temos responsabilidade para com a linguagem e o social e nos posicionamos
contra o comando único do político, do social, do econômico e do religioso.
Queremos ter voz na política e estar atentos para gritar, a qualquer momento: fogo!
[1]
Texto estabelecido por Ordália A. Junqueira.
Revisado pelo autor.
_____________________________
[1] Participação de Luiz Felipe
Monteiro, Bernardino Horne, Marcela Antelo e Nora Gonçalves, do grupo impulsor
do movimento Doces & Bárbaros na Bahia.
[2] RAMOS, Graciliano [1953/2011]
Memórias do cárcere. Linhas tortas. Encontrado no site: http://graciliano.com.br/site/obra/memorias-do-carcere-1953/
[3] VENTURA, Zuenir [2010] Mau
sinal: a corrupção chegou à linguagem No Senado, um caso claro de contravenção
semântica. 03/08/2010. Encontrado no site: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,ERT160210-15230-160210-3934,00.html.
[4] Ibid.
[5] Amós Oz [2017] Escritor
israelense, em entrevista para o jornal Zero Hora. Encontrada no Site: http://www.fronteiras.com/entrevistas/amos-oz-lmuitos-dos-maiores-males-deste-mundo-comecam-com-a-corrupcao-da-linguagemr
[6] Ibid.
[7] CALVINO, Italo [1998]. Seis
propostas para o próximo milênio. SP: Companhia Das Letras, 1998.
[8] A psicanalista francesa,
Marie-Laure Susini, em seu livro “Elogio da Corrupção”, traz importantes
questões sobre esta abordagem.
[9] LACAN, Jacques [1955]. A
coisa freudiana ou Sentido do retorno a Freud em psicanálise; Conferencia
em 07/11/1955 – Viena.
[10] LACAN, Jacques [1998]. Função
e campo da fala e da linguagem. in Escritos, 1998, p. 321
[11] BROUSSE, M.H., O inconsciente
é a politica, Seminário realizado em SP. 2014
NOTAS:
[i] Texto inédito, apresentado no Fórum Estado de direito e
corrupção. O real da psicanálise é a nossa moeda - LA MOVIDA ZADIG (Brasil) - Movimento
Doces & Bárbaros; em São Paulo,
18/08/17 – na 3a Mesa, com: Luiz Fernando Carrijo e as
convidadas: Patricia Zaidan, Marta Arretche e Larissa Palermo.
[ii] IORDAN GURGEL é psicanalista
e psiquiatra. Analista Membro (AME) da Escola Brasileira de Psicanálise e da
Associação Mundial de Psicanálise.
publicado em 30/08/2017
EBP – DELEGAÇÃO GOIÁS/DF
PREPARATÓRIA PARA O VIII ENAPOL - 12/08/2017
FAMÍLIA E SEXUALIDADE NA CONTEMPORANEIDADE
Eliane Costa Dias[1]
Com o tema Assuntos de família: seus enredos na prática, o VIII Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana (ENAPOL) ocorrerá em setembro, em Buenos Aires.
As conversações constituem uma das principais modalidades de trabalho e de laço associativo durante o ENAPOL. Nesta versão do Encontro são 16 temas (articulados ao tema central) trabalhados em dois tempos: num primeiro momento, cada tema é desenvolvido por um integrante da EOL, um da EBP e um da NEL. Os relatórios deste trabalho de pesquisa e articulação teórico/clínica são disponibilizados previamente e discutidos, num segundo tempo, no espaço do ENAPOL, sob a forma de uma ampla conversação.
Tive o privilégio de coordenar pela EBP a pesquisa sobre o 12º tema – Leis de identidade de gênero e matrimônio igualitário. Contando com a parceira de trabalho dos colegas: Blanca Musachi, Carmen Cervelatti, Camila Popadiuk, Milena Crastelo, Niraldo Santos, Paola Salinas, Patrícia Badari, Perpétua Medrado.
O que gostaria de transmitir é parte do trabalho de pesquisa que fundamentou o que será apresentado em Buenos Aires.
Tomamos como eixo central de nossa pesquisa duas marcações fundamentais extraídas do argumento ao VIII Encontro:
Toda família é um aparato de gozo e é nesse campo que se jogam os assuntos de família. Trata-se, então, de retomar esses assuntos buscando iluminar e recortar a forma singular de gozo de cada um.
Quando falamos de novas configurações familiares, nos referimos às mudanças que se produziram na estrutura clássica da família tradicional de matrimônio: pai e mãe com seus filhos.[2]
A sexualidade hoje: o novo
A contemporaneidade vem sendo marcada pela multiplicidade e a diversidade nas formas de vivenciar a sexualidade. Vivemos a época em que se multiplicam as nomeações e o leque de identidades em relação à questão de gênero e à orientação sexual - masculino, feminino, gay, lésbica, bissexual, andrógino, travesti, transexual, transgênero, queer, intersex, andrógeno, sexo neutro, pansexual etc.
Tempos da “liberdade de gênero” e, talvez, do “transtorno generalizado de gênero”.
Em 1998, nos desenvolvimentos sobre a teoria do parceiro-sintoma, Jacques-Alain Miller já destacava uma extraordinária diversidade nas formas de vivenciar a relação entre os sexos:
(...) há uma mutação que vai no sentido de uma igualdade, uma igualdade em nome do significante, na medida em que, tanto o homem quanto a mulher, são sujeitos de direito, e que vem interpor na relação entre os sexos, o discurso jurídico.[3]
Do ponto de vista do Outro social, constatamos que a diversidade no debate sobre as questões de gênero é acompanhada de um duplo movimento: uma busca por visibilidade e uma demanda por legalização.
Em nossa pesquisa nos deparamos com uma enorme produção a respeito circulando na cultura – dos “estudos de gênero” a documentários, capas da National Geographic, produções artísticas, debates acadêmicos, passando pela presença maciça no cotidiano da mídia e das redes sociais.
À medida que ganha os espaços públicos e institucionais, esse acalorado debate vem se fazendo acompanhar por uma persistente demanda por reconhecimento legal das uniões do mesmo sexo. Nesse ponto, levantamos duas questões iniciais:
§ Numa época do Outro que não existe, de declínio da ordem simbólica e suas instituições, como entender esse pedido por legalização?
§ Da perspectiva da psicanálise, o que podemos dizer em relação a estas novas configurações de parcerias e de famílias? Há algo de novo na sexualidade do ponto de vista do inconsciente?
1. As respostas do Outro social
Não há como negar que o movimento feminista, os estudos de gênero e o movimento gay contribuíram na direção de distanciar cada vez mais a sexualidade, e também a família, da natureza, ao apontarem a sobredeterminação cultural e histórica dos significantes ‘Homem’ e ‘Mulher’. Nesse contexto, observamos por um lado um movimento de desconstrução da noção de gênero. E, por outro lado, a tentativa do Direito de forjar legislações que acolham e ordenem tal movimento.
Essa proliferação de nomeações pode levar a uma série infinita de identidades, mas não necessariamente contribui para o desafio de cada ser-falante de “fazer-se um corpo” que lhe permita situar-se frente à radical alteridade que existe entre um sujeito e o gozo que habita seu corpo.
Do ponto de vista da psicanálise, modificar a relação com o sexual no plano do significante, modificar as nomeações, as classificações, as normas e legislações, não possibilita escapar à inexistência de um programa prévio que diga ao humano como fazer com o sexo, o desejo e o gozo.
No campo do Direito, uma lei que estabelece o casamento igualitário é fato em diversos países do mundo, gerando a criação ou reformulação da legislação sobre vários aspectos das relações humanas: reconhecimento de múltiplas entidades familiares, adoções, reprodução assistida, transmissão de bens, identidades de gênero e possibilidade de mudança do nome social.
O casamento entre pessoas do mesmo sexo no Brasil como entidade familiar, por analogia à união estável, foi declarado possível pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em maio de 2011[4]. Essa decisão do STF reconheceu às uniões estáveis homoafetivas todos os direitos conferidos às uniões estáveis entre um homem e uma mulher e abriu uma base jurídica para futura legislação sobre os direitos matrimoniais das uniões do mesmo sexo.
Atualmente, o Código Civil brasileiro reconhece como entidade familiar “a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família”. Um projeto de lei visando a regulamentação do casamento igualitário foi apresentado em 1995, propondo alteração na lei para estabelecer como família “a união estável entre duas pessoas”. Tal projeto não obteve aprovação na Câmara dos Deputados. Um projeto substitutivo com mesmo teor foi apresentado em 2001 e só foi aprovado no Senado em março de 2017. Apesar de ter sido aprovado em caráter terminativo no colegiado, o texto depende ainda da aprovação na Câmara dos Deputados onde vem encontrando resistência de partidos conservadores.[5]
Enquanto a lei não é aprovada, as decisões ficam no âmbito da jurisprudência, ou seja, do entendimento (subjetivo) do judiciário. E fica claro que a concepção de família e a presença de uma criança são elementos fundamentais na discussão.
No campo do Direito vemos surgir, então, uma nova “ficção jurídica” - a noção de parentalidade - termo que tende a substituir o de família e implica reunir indiferentemente sob o mesmo significante as funções materna e paterna, pois para o direito qualquer um daqueles que esteja nessa função é capaz de oferecer e executar os cuidados aos quais a criança tem direito. Implica, portanto, na disjunção entre a identidade sexual e ditas funções, e vem sendo assentada sobre a noção de vínculo afetivo.
Uma vinheta extraída da literatura jurídica:
Em 2001, a carismática cantora Cássia Eller, mãe de Chicão, à época com 8 anos, morre em função de uma overdose. Cássia vivia em conjugalidade com sua companheira Maria Eugênia, que também tinha assumido publicamente o exercício da maternidade de Chicão. O pai do menino tinha falecido antes dele nascer, situação que Cássia descrevia como Chicão tendo “um pai simbólico e duas mães reais”. Alguns meses depois do episódio, em disputa judicial com o avô materno, Maria Eugênia ganhou a guarda do menino até sua maioridade.[6]
Esse caso inaugurou de forma ampliada a discussão sobre parentalidade e homossexualidade, marcando a prevalência do conceito de família baseada no afeto.
Nos termos de Marie-Hélène Brousse, a noção de parentalidade apaga as diferenças e instaura uma similitude ou uma equivalência ali onde se colocava um semblante de relação, ancorado na diferença das funções do pai e da mãe.[7]
Pensamos que a demanda por regulação legal pode ser lida como uma busca de reconhecimento pelo Outro social: de direitos, de nomeação, de inclusão. Mas também como uma forma de aparelhamento do gozo.
Para Lacan, toda comunidade humana comporta um limite ao gozo. Segundo Laurent[8], nos tempos atuais, esse limite pode tomar a forma de uma demanda de reconhecimento da regra sexual seguida por cada um. As invenções mais radicais, que mais rompem com a tradição, querem ser reconhecidas em sua particularidade. Esse reconhecimento pode equivaler, simultaneamente, uma autorização e uma barreira.
Todo casamento, hetero ou homo, é semblante, na medida em que vela o real da não relação sexual pela via de uma escritura simbólica, de um contrato. Legalizar os casamentos homoafetivos corresponde a tirá-los do campo da clandestinidade para inseri-los nos semblantes disponíveis no campo do Outro.
Sabemos que o Direito não pode ordenar a desordem no real no século XXI, mas como observa Vicente Palomera[9], essas reformulações no discurso jurídico podem produzir uma “particularização dos contratos” que abra espaço para a particularidade dos sujeitos e suas invenções. O que não deixa de configurar uma transformação no Discurso do Mestre.
No entanto, se com a psicanálise, sabemos que a família é uma resposta simbólica ao real da não relação sexual, ficam as questões:
§ De que forma essas novas nomeações, incluindo a possibilidade de não definição de um gênero, afetam as parcerias amorosas e as famílias hoje?
§ O que se transmite aos filhos no que tange à sexuação quando o discurso dos estudos de gênero e a ficção jurídica da parentalidade propõem apagar a diferença entre as funções do pai e da mãe e no extremo, a própria diferença sexual?
2. Gênero e sexuação: as novas parcerias e as
novas configurações familiares a partir do ensino de Lacan
Como afirma Clotilde Leguil em seu ensaio O ser e o gênero: homem/mulher depois de Lacan (2016), no diálogo com os estudos de gênero reconhecemos a importância da obra de feministas como Simone de Beauvoir, Monique Wittig e, especialmente, Judith Butler. A desnaturalização da noção de gênero abre uma multiplicidade de possibilidades de construção da identidade de gênero – entendida como socioculturalmente determinada e como um ato intencional e performático. O que elas não levam em conta é o fato de que a escolha do sexo é, também, forçada por determinações do inconsciente e pela montagem pulsional própria de cada sujeito.
A psicanálise afirma a impossibilidade de se abolir a diferença entre os sexos, na medida em que nenhuma revolução sexual pode liberar o sujeito de sua relação com o desejo e o gozo. A diferença entre os sexos remete à relação com a sexuação. Na perspectiva do inconsciente, a assunção de um gênero (seja qual for) é uma invenção do sujeito, na sua forma singular de dar um sentido ao ser e de posicionar-se frente ao real da não-relação sexual e ao enigma do desejo do Outro.
O gênero que se tem, no que diz respeito ao Outro, se assenta numa interpretação ligada a uma história íntima constituída de bons e maus encontros (...). Pautados nessa relação íntima com o Outro, com aquele ou aquela que encarnava uma certa versão do homem e da mulher, é que nos situamos, no começo, como sujeitos sexuados. O paradigma da diferença dos sexos em psicanálise não conduz a nenhum determinismo anatômico ou social, mas, sim, a uma lógica inconsciente que faz com que o sujeito seja marcado pela maneira como ele se viu desejado ou rejeitado, amado ou odiado, deixado cair ou acarinhado pelo Outro. (...) O próprio corpo é novamente recortado em função da maneira como o sujeito é tocado por aquilo que viu e ouviu. Não se trata de uma anatomia objetiva, mas de uma anatomia reinventada pelo sujeito.[10]
Apesar de toda a multiplicidade de arranjos e nomeações, as pessoas continuam se angustiando com as parcerias amorosas e demandando constituição de famílias. Não mais necessariamente fundadas no mito edipiano, tampouco em torno da união entre um homem e uma mulher, independente das identidades de gênero de cada um e de suas orientações sexuais, as famílias continuam se formando.
Tomamos como vinheta um episódio da série “Liberdade de gênero” do canal aberto de TV GNT. Nesse episódio assistimos à história de Letícia Lanz, que se nomeia uma mulher trans lésbica. Seu depoimento é entremeado pela fala dos filhos, que a tomam inicialmente como Geraldo e como seu pai. “Meu pai é o Geraldo”, diz um deles. A filha descreve a dificuldade em aceitar a mudança, mas localiza no “contar com ele como sempre” o ponto imutável onde reconhece seu pai: “Eu sinto falta daquele cara, mas é só olhar por baixo daquelas roupas que ele tá ali”. Nas palavras da própria Letícia: “Sou mulher e sou pai”. Embora não possamos tomar tal programa como dado clínico, chama a atenção que ela destaque sua problemática no campo do ser mulher, na busca por um nome que possa melhor localizar a insondável marca no corpo da presença do Outro. Ela nos fala de uma presença paterna, confidente e fundamental, que se manteve como um ideal. É na relação com esse Outro, que não é qualquer um, que sustentou sua decisão de se colocar como homem até os 50 anos. Seu pai, embora soubesse do gosto do filho em se vestir de mulher, via ali um futuro sombrio. É quando a falha paterna aparece (a descoberta de que o pai tem outra família) que Geraldo se decide por assumir seu gosto, inicialmente como cross dress. Já tinha uma esposa, um casamento e filhos. O amor por sua mulher e pelos filhos parece ser o ponto fundamental que assegura uma continuidade. Ao falar com os filhos, Letícia diz: “O Geraldo não morreu, evoluiu”. Completando em outro momento: “Ou eu integro o passado e passo a viver numa continuidade de tempo e de espaço, ou então enlouqueço”. Em relação à família, ela, sua mulher e os filhos nos dizem, cada um à sua maneira, que não houve mudança. Continua sendo o pai, agora avô, ao mesmo tempo em que é mulher.
Jean-Pierre Deffieux afirma que, tradicional ou contemporânea, há um núcleo estrutural em torno do qual a família se funda. E acrescenta: “Quanto mais a família se diversifica, mas a questão do que constitui esta invariante se coloca”.[11]
O que funda um casal? Qual o caroço onde as famílias se constituem se não for mais o Édipo?
Sexualidade e o inconsciente: o irredutível
Com o último ensino de Lacan, a noção de foraclusão generalizada remete ao fato de que o humano se constitui a partir do encontro entre o vivo e a linguagem, encontro sempre contingente e traumático. A entrada do significante recorta o corpo vivo e o esvazia do gozo, abrindo um furo no simbólico impossível de recobrir ou de significantizar.
O sinthoma é a marca desse acontecimento, o ponto onde o corpo da criança é marcado pelos significantes que vêm do Outro ou, em outros termos, é o ponto que marca a incidência sobre o falasser do discurso do Outro. Desde então, todo sujeito tem que encontrar uma saída para lidar com o gozo, que é sempre excessivo, que ex-siste e insiste. Todo sujeito tem que se haver com o desafio de articular o campo da pulsão (real) e o campo do Outro (simbólico), numa criação singular que lhe permita ocupar posição na realidade e na existência.
No que diz respeito ao sexual, a diferença de que se ocupa a psicanálise remete à alteridade radical entre o sujeito e o corpo enquanto substância que se goza. O encontro com a língua do Outro marca o corpo do vivente que virá, então, a contar-se como sujeito. Tal marca não engendra um sexo, mas uma “satisfação no corpo”, que diferente do discurso da cultura, é sem sentido, inominável e, desde então, imperativo e inevitável.
Se o gozo não é possível sem o corpo, também não é possível sem o Outro, na medida em que o gozo se produz no corpo do Um através do corpo do Outro. O aforismo “não há relação sexual” implica que o falasser, como ser sexuado, não pode prescindir da parceria com o Outro. Como nos diz Miller, “parceiro-sintoma” quer dizer um modo de gozar, que passa pelo Outro. Essa definição do Outro como parceiro, porque meio de gozo, significa que o falasser faz parceria, não no nível do significante, mas no nível do gozo, e essa ligação é sempre sintomática.
O desenvolvimento do conceito de Pai no ensino de Lacan nos ajuda a apreender o enodamento entre gozo, parceiro-sintoma e família.
Lembremos que Lacan aborda o Nome-do-Pai como uma função. “A verdadeira função do Pai é unir (e não opor) um desejo à lei”. Essa afirmação em Subversão do sujeito e a dialética do desejo[12] condensa a noção de pai no primeiro ensino: o pai edípico, freudiano, como significante, portador da lei simbólica. A partir do Seminário 10: Angústia (1962-63) Lacan pluralizou o Nome-do-Pai, reconhecendo o NP como um artifício para dar coesão à ordem simbólica, como semblante à inconsistência do Outro. No último Lacan, o pai é um sinthoma, ou seja, uma função que cada um inventa para tentar dar conta de estabelecer o laço enigmático do imaginário, do simbólico e do real, para encontrar um modo de se virar com a conjunção/disjunção entre gozo, desejo e objeto.
Como assinala Laurent, o que separa um homem e uma mulher não é a diferença anatômica, mas a dissimetria entre dois modos de gozo (fálico e gozo Outro), dois modos de satisfação pulsional que não fazem relação.[13] É esse o ponto de transmissão em jogo na função do pai – transmitir seu modo de se virar com essa separação dos modos de gozo; transmitir o modo de responder à vertigem do encontro com o objeto a. A noção de père-version no seminário RSI, parece vir condensar esse deslocamento – de uma abordagem do pai a partir do nome a uma definição do pai a partir do objeto a:
Um pai só tem direito ao respeito e ao amor, se o suposto respeito está per-versamente (pai-versamente) orientado, quer dizer, se faz de uma mulher, objeto a, causa de desejo, se lhe há dado filhos e a estes, querendo ou não, lhes dá um cuidado paternal.[14]
Um pai que transmite sua versão de como se virar com as dificuldades do encontro com o Outro sexo, dada a inexorável condição da não-relação.
Função do pai que, segundo Lacan, se enlaça com a da família. Em seu texto Nota sobre a criança (1969), ele afirma que a família conjugal exerce uma função primordial na evolução das sociedades humanas – a transmissão de um resíduo “irredutível”. Trata-se da transmissão do que sustenta a constituição de um sujeito, a saber, o real entre a pulsão e a palavra que se impõe como mal-entendido nos laços entre os seres humanos.
A função de resíduo exercida (e, ao mesmo tempo, mantida) pela família conjugal na evolução das sociedades destaca a irredutibilidade de uma transmissão – que é de outra ordem que não a da vida segundo as satisfações das necessidades, mas é de uma constituição subjetiva, implicando a relação com um desejo que não seja anônimo.[15]
Num texto do final de seu ensino – O mal-entendido (aula de 08 de junho de 1980, do seminário “Dissolução”, publicada em Opção Lacaniana nº 72) – Lacan afirma que o homem já nasce mal-entendido porque é fruto de uma linhagem, ela mesma imersa no mal-entendido. A família conjugal aparece definida nos seguintes termos: “dois falantes que não falam a mesma língua [...] dois que não se escutam falar [...] dois que se conjuram pela reprodução, mas de um mal-entendido realizado e veiculado pelos corpos de sua prole”. [16]
Em sua interpretação dessa passagem do texto de Lacan, Sergio Laia deduz a função irredutível de um casal: reproduzir mal-entendidos como um modo de responder ao real que invade os que são tomados pela palavra e pelo gozo que impulsiona seus corpos a encontros e desencontros.
Desde crianças somos, então, atos falhos corporificados nos encontros e desencontros entre aqueles por quem somos gerados. (...) Assim, a causa de desejo faz existir casais, mas as crianças por eles reproduzidas são “abortos espontâneos” que, ao contrário do que ocorre nos abortos espontâneos propriamente ditos, são corpos vivos onde se reproduzem os mal-entendidos de seus genitores e de outros acidentes.[17]
Constituída de modo tradicional ou segundo a diversidade sexual presente em nossos tempos, o irredutível que está implicado na constituição subjetiva e que é função residual da família transmitir é “a relação com um desejo que não seja anônimo”.
Se ‘Homem’ e ‘Mulher’ são fatos de discurso, o que importa para a criança não é o sexo biológico dos pais, mas o discurso deles. “Os pais, a partir de sua posição na linguagem, introduzem a criança no que se diz sobre homens e mulheres. O que se transmite é o modo que têm juntos de fazer suplência à ausência de relação sexual, amando-se as vezes, falando sem necessariamente se ouvirem, chocando-se sempre com esse impossível de remediar”.[18]
Portanto, segundo Laia, “um modo de verificar se há uma família é buscar o que pode indicar, em um grupo que se declara ser uma família, a transmissão de um desejo capaz de dizer seu nome”.[19]
Casos como o de Letícia Lanz nos dizem que um pai ou uma mãe, independente de serem homo, hetero, trans etc., podem ou não sustentar a posição de um desejo vivo e de invenção em sua relação com o Outro sexo. A assunção de um gênero remete ambos os sexos à inquietante estranheza do que é uma Mulher, ao enigma de um modo de gozo que toca o corpo fora do sentido. No entanto, como alerta Clotilde Leguil, “essa exclusão da natureza das coisas, ou seja, da natureza das palavras, pode conduzir um sujeito a experimentar sua feminilidade como o que o faz desaparecer do mundo do Outro”.[20]
Retomando nossa questão inicial, concluímos que frente às “novas parcerias e famílias”, constituídas sob a égide da diversidade, a abordagem da psicanálise só pode se pautar pela lógica do caso único. Trata-se de verificar como cada um coloca na parceria sua pai-versão; ou seja, como um sujeito, a partir de sua pai-versão, se posiciona no laço social e no leque das identidades, como sustenta uma parceria e uma configuração familiar.
Indo além do caso a caso, podemos reconhecer que as transformações no discurso sobre gênero e no discurso jurídico são tentativas de resposta do Outro social ao mal estar. Tentativas de lidar com o mal-entendido entre o pulsar do corpo e as palavras para nomeá-lo. Uma resposta que traz, sem dúvida, conquista de direitos e cidadania, mas também, a possibilidade de nomear sua identidade sexual, independente da anatomia, sem que seja necessário recorrer a tratamentos ou intervenções no corpo.
Mas, para estar à altura de sua época, a psicanálise persiste em levar em conta o ponto opaco que escapa à produção de sentido da cultura, às novas ficções jurídicas e aos avanços da ciência – o real da pulsão que insiste no sintoma. Persiste em fazer advir o sujeito a quem cabe, no percurso de uma análise, como ressalta Miller, “livrar-se das escórias herdadas do discurso do Outro, depois de tê-las percorrido”.[21]
[1] Psicanalista, membro da EBP (seção SP) e AMP.
[2] Kruger, Flory – Apresentação do VIII ENAPOL, Buenos Aires, 25/outubro/2016 (grifos meus).
[3] Miller, J-A – O osso de uma análise. EBP-Bahia. Salvador, julho/1998, p. 116.
[4] CCJ do Senado aprova união estável entre pessoas do mesmo sexo. Acesso em 08/03/2017. https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2017/03/08/ccj-do-senado-aprova-uniao-estavel-entre-pessoas-do-mesmo-sexo.htm
[5]CCJ aprova projeto que reconhece união estável de pessoas do mesmo sexo... – Acesso em 11 de maio de 2017. https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2017/05/03/senado-ccj-aprova-projeto-que-reconhece-uniao-estavel-de-pessoas-do-mesmo-sexo.htm
[6] Uziel, A. Lesboparentalidade e as novas tecnologias reprodutivas: entre o gen, o jurídico, o sangue e o afeto, In: Diversidade sexual e direito homoafetivo. São Paulo: EERT, 2014, p. 360.
[7] Brousse, M-H. Un neologismo de actualidad: la parentalidad. In: Torres, M. (org.) Uniones del mismo sexo. Diferencia, invención y sexuación. Buenos Aires: Grama, 2010, p. 143.
[8] Laurent, E. Um novo amor pelo pai. In: __ A sociedade do sintoma: a psicanálise hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007, p. 71-88.
[9] Palomera, V. Nuevas configuraciones de la paternidade. In: Torres, M. (org.) Transformaciones: ley, diversidade, sexuación. Buenos Aires: Grama, 2013.
[10] Leguil, C. O ser e o gênero: homem/mulher depois de Lacan. Belo Horizonte: EBP editora, 2016, p. 112-113.
[11]Deffieux, J-P. La famille este-elle nécessairement oedipienne? Disponível em: http://www.causefreudienne.net/la-famille-est-elle-necessairement-oedipienne/
[12] Lacan, J. A subversão do sujeito e a dialética do desejo (1960). In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 839.
[14] Lacan, J. Seminário livro 22: RSI (1974-75). Aula de 21 de janeiro de 1975. Inédito.
[15] Lacan, J. Nota sobre a criança. In: Outros escritos. Rio O de Janeiro: Zahar, 2003, p.369.
[16] Lacan, J. O mal-entendido (aula de 08 de junho de 1980, do seminário “Dissolução”). In: Opção Lacaniana nº 72, março/2016, p. 11.
[17] Laia, S. Identidad, diversidad y diferencia de los sexos. In: Torres, M. (org.) Transformaciones: ley, diversidade, sexuación. Buenos Aires: Grama, 2013, p. 318.
[18] Leguil, C. Matrimonio para todos. Nuevo campo de batalla para el psicoanálisis. In: Torres, M. (org.) Transformaciones: ley, diversidade, sexuación. Buenos Aires: Grama, 2013, p. 151.
[19] Laia, S. La adopción en matrimonios homoafetivos. In: Torres, M. (org.) Uniones del mismo sexo. Diferencia, invención y sexuación. Buenos Aires: Grama, 2010, p. 197.
[20] Leguil, C. O ser e o gênero: homem/mulher depois de Lacan. Belo Horizonte: EBP editora, 2016, p. 129.
[21] Miller, J-A. El Ultimíssimo Lacan. Curso de La Orientación Lacaniana. Buenos Aires: Paidós, p. 140.
publicado em 30/08/2017
PAI-VERSÃO E SINTHOMA[1]
Eliane Costa Dias[2]
O argumento das VII Jornadas da EBP-SP nos convida a investigar em que medida a noção de père-version nos auxilia a abordar na clínica contemporânea os sujeitos que nos chegam atravessados por um gozo à deriva e por uma crescente fragilidade dos laços sociais. O que nos leva a buscar extrair subsídios da evolução da noção de Pai no ensino de Lacan.
Nesse percurso, transitamos da tácita condição de “servir-se do pai” no Seminário 5: As formações do inconsciente (1957-58):
Em outras palavras, é preciso ter o Nome-do-Pai, mas é também preciso que saibamos servir-nos dele. É disso que o destino e o resultado de toda a história podem depender muito.[3]
Para a inquietante proposição de “prescindir do pai, sabendo servir-se dele” enunciada no Seminário 23: O sinthoma (1975-76):
Por isso a psicanálise, ao ser bem-sucedida, prova que podemos prescindir do Nome-do-Pai. Podemos prescindir com a condição de nos servirmos dele.[4]
Modalidades do pai
Como fio condutor nesse trajeto lembremos que em sua releitura de Freud Lacan abordou o pai, desde o início, como uma função. Na matemática, uma função corresponde a um modelo que expressa leis de correspondência (relação) entre elementos de diferentes campos (conjuntos). A partir do último Lacan, num après-coup, podemos entender que a função paterna expressa a “função gozo”, as modalidades de relação ao gozo. A função paterna - fP(x) - é, portanto, um lugar vazio e se cumpre sempre e quando alguém concreto, de carne e osso, se inscreve no (x) da função.
O pai no primeiro ensino de Lacan é o pai freudiano tomado a partir da tese da primazia do simbólico – o pai como significante que opera enquanto pai ideal e morto, ligado ao discurso materno. É o pai como universal, como portador de uma lei simbólica que pode circunscrever e ordenar o caos das relações imaginárias e, por esta operação, dar sustentação ao desejo. “Mediante o que fica ainda mais acentuada do que revelada a verdadeira função do Pai, que é, essencialmente, unir (e não por) um desejo à Lei”.[5]
A partir do Seminário 10: Angústia (1962-63) verifica-se um movimento de deslocamento na abordagem do pai – do significante em direção à relação com o objeto a. Lacan destaca a função de semblante do pai, pluralizando o Nome-do-Pai. O que significa reconhecer que o Nome-do-Pai funciona como artifício para dar coesão à ordem simbólica, velando a inconsistência do Outro. Portanto, assume tantas formas quanto forem os nomes que possam fazer esta função.
Nesse deslocamento o que é enfatizado na função do pai não é tanto seu papel como agente de interdição do gozo, mas como aquele que transmite algo sobre a causa de desejo. No decorrer do ensino de Lacan o pai real passa a ser abordado não a partir das relações hierárquicas de parentesco, mas a partir da relação com o real em jogo na relação homem-mulher. O pai é aquele que na constituição subjetiva de uma criança, transmite um fazer possível com o traumático da não relação sexual.
Essa concepção do pai como função de transmissão da causa de desejo toma forma no último ensino de Lacan na famosa passagem do Seminário 22: RSI (1974-75):
Um pai só tem direito ao respeito e ao amor, se o suposto respeito está per-versamente (pai-versamente) orientado, que dizer, se faz de uma mulher, objeto a, causa de desejo, se lhe há dado filhos e a estes, querendo ou não, lhes dá um cuidado paternal. (...) Ser pai, então, é ter tido a perversão particular de se ligar aos objetos a de uma mulher.[6]
Forjada no momento em que Lacan recorre à topologia dos nós para formalizar as relações entre real, simbólico e imaginário, a noção de pai-versão implica a função paterna enquanto multiplicidade e diversidade de versões do pai. Versões do pai como aquele que transmite um desejo vivo e singular.
Se em seu primeiro ensino Lacan nos apresenta o pai do gozo como impossível, a pai-versão nos diz de um pai que não é o ideal (que gozava de todas as mulheres) e morto (que, portanto, já não goza mais), mas um pai humanizado, de carne e osso, que encontrou um gozo limitado no corpo de uma mulher. Um pai que pode transmitir ao filho uma versão de como se virar com as dificuldades do encontro com o Outro sexo, dada a inexorável condição da não-relação. Um modo de gozo circunscrito e singular que o pai transmite ao se posicionar como exemplo da função.
No primeiro Lacan, com Freud, a função é necessariamente a do pai morto. O Nome-do-Pai, o pai como nome, remete ao lugar da exceção ao qual nenhum sujeito pode aceder. Em seu último ensino, a função é a do encontro contingente com o real, um lugar vazio que qualquer um pode ocupar – os pais, um a um, são versões de gozo dessa função. “Temos então o modelo e a exceção singular que cada um faz, um por um, à função.”[7] “Não se trata aqui somente de um pai com um gozo singular, porém de um gozo que vivifica o desejo.”[8]
Retomando a hipótese proposta no argumento de nossas Jornadas, no Seminário 23: O sinthoma Lacan reúne essas duas dimensões do pai – o pai portador da castração e o pai como função de suplência, de solução possível e sempre sintomática para o enlaçamento de real, simbólico e imaginário. A ideia de “para cada um sua singular pai-versão” permite colocar o termo no plural – pai-versões.
Como afirma Tudanca[9] em texto preparatório às Jornadas, a função paterna pensada assim implica passar de uma lógica do pai edipiano como universal para a lógica das invenções singulares, do pai tomado um a um. E na direção do tratamento analítico, verificar esse funcionamento caso a caso.
Conclui-se, portanto, que com a noção de pai-versão, o pai como função de suplência, de solução possível para o enodamento de RSI, equivale ao sinthoma.
Mas, se não questionamos os termos desta equivalência, não corremos o risco de uma sobreposição de conceitos ou de uma ampliação excessiva do termo pai-versão?
Perversão, pai-versão e sinthoma
No Seminário 23 Lacan afirma:
A perversão não é definida porque o simbólico, o imaginário e o real estão rompidos, mas, sim, porque eles já são distintos, de modo que é preciso supor um quarto que, nessa ocasião, é o sinthoma.
Digo que é preciso supor tetrádico o que faz o laço borromeano – perversão quer dizer apenas versão em direção ao pai -, em suma, o pai é um sintoma, ou um sinthoma, se quiserem. Estabelecer o laço enigmático do imaginário, do simbólico e do real implica ou supõe a ex-sistência do sintoma.[10]
Na p. 68 deste mesmo seminário Lacan nos diz que “o sintoma central, claro, é o sintoma feito da carência própria da relação sexual”.[11] A inexistência de proporção entre os sexos inviabiliza o nó borromeano clássico, o nó de três onde os aros encontram-se enlaçados de tal forma que se soltando um soltam-se todos. Segundo Lacan, o sinthoma é “o que permite ao nó de três não só se manter nó de três, como se conservar em uma posição tal que ele tenha o aspecto de constituir nó de três”.[12]
Como aponta Mauricio Tarrab, sintoma e Nome-do-Pai mais que evoluir, são “reduzidos” pelo ensino de Lacan.[13]
No último ensino a lógica do não-todo, a equivalência dos três registros e a noção de não-relação levam a uma reformulação da noção de sintoma. O sinthoma é situado como o núcleo opaco do sintoma, a marca de gozo inscrita a partir da forma absolutamente particular com que o discurso do Outro incide sobre o falasser, deixando marcas de um modo singular de gozo que não cessa de se repetir. Frente ao real da não relação sexual, da não completude entre Um e o Outro, o sintoma é a invenção absolutamente particular que o sujeito produz sobre essa fenda que lhe é inerente em sua constituição e o que permite uma via de estabelecer “o laço enigmático” dos três registros. O sintoma é correlato do gozo, ainda que mantendo seu laço com o inconsciente. “O sintoma como modo de gozar do inconsciente é o complemento do sintoma-significante (histérico) que aponta para a verdade”.[14] O Nome-do-Pai vem em suplência a essa inexistência. Mas sua pluralização desde o Seminário: A angústia deixa claro que o Nome-do-Pai não é o único que pode cumprir essa função.
Mas para além da homofonia, por que em seu último ensino Lacan ressignifica o pai a partir do termo perversão?
Ainda no Seminário 23 Lacan nos diz que seu nó é uma forma de articular o seguinte: “toda sexualidade humana é perversa, se acompanhamos bem o que diz Freud. Ele nunca conseguiu conceber a tal sexualidade sem ser perversa, e é justamente nesse aspecto que interrogo a fecundidade da psicanálise”.[15]
Alain Merlet destaca que em Santo Agostinho o termo perversio remete a uma vontade que gira sobre ela mesma em lugar de virar em direção a Deus, uma vontade de gozo que desvia-se de Deus para se transpor em direção às coisas sensíveis. Com Freud, na psicanálise, a perversão é característica da pulsão – a sexualidade humana é perversa e polimorfa.
Segundo Merlet, o conceito de sinthoma permite retomar a noção de perversão:
Correlacionar perversão e Nome-do-Pai, destacando a perversão da vontade de gozo que a anima, é designar a perversão como comum ou generalizada tal como ela se exercita pela pulsão parcial constante, acéfala e sempre em operação no sinthoma, no qual ela é acontecimento do corpo.
(...) O sinthoma, que é aquele do falasser, ou seja, de um sujeito que goza de um corpo com a obstinação da não relação sexual, propõe uma realidade psíquica diferente da religiosa ou perversa, uma realidade inédita que não provém nem do ideal nem da obscenidade, mas que permite um gozo compatível com o vivente.[16]
No trabalho de pesquisa sobre o tema do VIII ENAPOL - Assuntos de família - constatamos que em Lacan a função do pai se enlaça com a das parcerias e da família. Em seu texto Nota sobre a criança (1969), ele afirma que a família conjugal exerce uma função primordial de transmissão de um resíduo “irredutível” que sustenta a constituição de todo sujeito, a saber, o real entre a pulsão e a palavra, que se impõe como mal-estar e mal-entendido nos laços entre os seres humanos.
Se o sinthoma é esse resíduo irredutível, o modo de haver-se com ele, ainda que absolutamente singular, só pode ser forjado a partir de uma transmissão, de uma pai-versão.
O trabalho de uma análise implicaria, portanto, em chegar a um tipo de resposta ao vazio e ao impossível que possa prescindir da repetição religiosa do inconsciente sustentada por uma crença perversa na fantasia. Nos termos de Miller, identificar-se ao sinthoma implicaria “livrar-se das escórias herdadas do discurso do Outro, depois de tê-las percorrido”.[17]
[1] Texto preparatório para as VII Jornadas da EBP-SP, publicado no Boletim Di#versos, n° 05, agosto/2017.
[2] Psicanalista, membro da AMP e da EBP (Seção SP).
[3] Lacan, J. Seminário, livro 5: As formações do inconsciente [1957-58]. Rio de Janeiro: Zahar, 1999, p. 163.
[4] Lacan, J. Seminário, livro 23: O sinthoma [1975-76]. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 132.
[5] Lacan, J. A subversão do sujeito e a dialética do desejo [1960]. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 839.
[6] Lacan, J. Seminário livro 22: RSI (1974-75). Aula de 21 de janeiro de 1975. Inédito.
[7]Smith, F. G. – Pai. In: Machado, O. e Ribeiro, V. L. (orgs) – Scilicet: Um real para o século XXI. Belo Horizonte: Scriptum, 2014, p. 274.
[8] Idem, p. 273.
[9] Tudanca, L. Pluralização. Boletim Di#versos, ano I, nº 02, maio/2017.
[10] Lacan, J. – Seminário 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 20-21.
[11] Idem, p. 68.
[12] Idem, p. 91.
[13] Tarrab, M. – Sintoma e Nome-do-Pai. In: Opção Lacaniana, n° 50, edição especial: Scilicet dos Nomes do Pai, dezembro/2007, p. 362-365.
[14] Idem, p. 364.
[15] Lacan, J. – Seminário 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 149.
[16] Merlet, A. Perversão e Nome-do-Pai. In: Opção Lacaniana, n° 50, edição especial: Scilicet dos Nomes do Pai, dezembro/2007, p. 304-306.
[17] Miller, J-A. El Ultimíssimo Lacan. Curso de La Orientación Lacaniana. Buenos Aires: Paidós, p. 140.
Denizye Aleksandra Zacharias
Giovanna Quaglia





Em agosto de 2018, a convite do diretor geral da EBP, nos reunimos em São Paulo para uma conversação sobre a “Escola sujeito”, conceito extraído do texto de Jacques-Alain Miller; “A teoria de Turim”. Como diretora de tesouraria e secretaria da Seção RJ, me interessei em falar sobre a tensão entre a burocracia e o desejo, sustentando que o funcionamento de uma Escola de psicanálise não deve oferecer a seus membros o descanso engessado da burocracia, num funcionamento automático que tende ao adormecimento da vida da Escola.






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