5 de jun. de 2012

O autismo na psicanálise

                                  
COMUNICAÇÃO NA MESA DE LANÇAMENTO DO LIVRO:
AUTISMO (S) E ATUALIDADE: UMA LEITURA LACANIANA (ORG.: ALBERTO MURTA ; ANALICEA CALMON; MÁRCIA ROSA)

                                                           Por Ceres Lêda Félix de Freitas Rubio

            Como coordenadora do Núcleo de Pesquisa de Psicanálise com criança – Biloquê, representando todos aqueles que participam desse lugar de estudo, compartilho minha alegria agora, com todos aqueles que se interessam pela criança, seja na clínica psicanalítica ou pela prática com a criança na escola ou em instituição de ensino especial. Compartilho, também, com os profissionais da saúde e incluo aqui os psiquiatras, os neurologistas que recebem em seus consultórios crianças autistas, principalmente aqueles que eu conheço e divido discussões, e queixam-se do pouco material teórico publicado sobre esta clínica. Nós todos nos gratificamos com essa especial publicação psicanalítica.
            Com certeza, temos muito o que aprender e discutir com os teóricos que nesse livro expõe sua prática clínica e a teoria psicanalítica que desenvolvem, nos ensinando como lidar com a criança autista e desde já agradecemos. E em especial por nos apontar fundamentalmente que o autista é um Sujeito. Maria do Rosário Collier do Rego, em recente vinda a Goiânia,  ao se referir sobre a importância desta publicação psicanalítica, apontou que os temas ali desenvolvidos nos indicam a existência de um Sujeito e que desconsiderar  a existência de um Sujeito no autismo é tratá-lo só com a educação.  O livro pode nos dizer sobre a razão do sofrimento da criança autista e pode esclarecer a respeito da clínica psicanalítica; até onde o psicanalista pode ir com a criança autista, sem provocar um traumatismo, como apontou Rosário.
 Gustavo Dersal, em Lacan Quotidiano, nos diz que “A psicanálise não promete a cura do autismo, mas ela oferece um contexto respeitoso à fala daquele que sofre, inclusive daquele que sofre por não ter a palavra”.
           O texto que Rosário desenvolve, “A questão do Autismo”, no qual traz para tanto referências de Eric Laurent, Jacques-Alain Miller e Lacan,  nos diz que ao lidar com as crianças autistas é  preciso saber ler a construção da singularidade que cada autista pode dar como solução a sua não entrada no discurso, apesar de estar inserido na linguagem. A autora vai tratar de nos esclarecer sobre o que preocupa as crianças autistas e nos informa, por Lacan, que elas se defendem do verbo, ao tampar os ouvidos para não ouvir a fala do outro. A fala, quando não interpretada, é reduzida a um ruído insuportável.  A não inserção no simbólico, na cadeia de significantes, faz o autista experimentar a dureza do real, sem intérprete do Outro. O gozo não pode ser representado no simbólico; assim, é vivido no corpo. Por isso a criança autista se defende encapsulando-se, formando uma barreira protetora que mantém o Outro à distância.  A autora conclui, a partir de sua prática clínica, que a saída do autismo não está na psicose, mas numa construção que funciona como sintoma, ao introduzir um menos que torna suportável o laço social.
           Rosane Padilla/Louise Lhullier nos ensina ainda mais sobre o autismo com seu texto: Autismo – uma leitura para além dos limites do simbólico. Neste nos ensina sobre as diferentes possibilidades de resposta do sujeito ao encontro com o lugar na estrutura das relações sociais e mais especificamente, através de Laurent, sobre as respostas da criança ao significar o desejo materno. Na criança autista, a resposta é como objeto a, como na psicose (foraclusão), mas com uma especificidade que a diferencia da esquizofrenia e da paranoia: não há gozo localizado nem no Outro, nem em um órgão do corpo, mas antes um corpo que goza por inteiro, indiferenciado, tomado por uma excitação mortífera. A concepção estrutural do primeiro ensino de Lacan permite pensar o sujeito autista em sua relação com a linguagem e com o campo simbólico naquilo que caracteriza a psicose, a foraclusão.
            Diferente do neurótico, no autismo o sujeito está imerso no real, ele não passa pela operação de alienação que constituiria o imaginário e muito menos pela castração que permitiria o acesso ao registro simbólico. Mas, segundo a autora (ao citar Laurent), isto não significa que não haja Outro, mas sim que não haja Outro barrado. O Outro opera como pura exterioridade da lei, Outro da linguagem, sem inscrição da falta, apresenta-se como todo, completo e, portanto, não desejante. A criança autista, consequentemente, não encontra um lugar para situar-se no desejo do Outro, isto é, não se aliena ao desejo do Outro, não encontra uma posição no Outro simbólico.
            Esses sujeitos, por estarem inseridos na linguagem, podem falar, mas sua fala não os apazigua, não servem para fazer laço, para comunicar-se, a linguagem os ameaça. O exercício verbal, a voz, não é endereçada ao outro, pode ser simples repetição rotineira. Na ausência da divisão subjetiva, o sujeito não escuta o dito de sua fala, nem o dito da fala do Outro. Há uma separação radical entre o dizer e o gozo (não há gozo vinculado ao significante), ou o dizer aparece como puro gozo, sem delimitações.  Por isso, a ecolalia ou o mutismo.
            Para o psicanalista, na sua prática, cabe usar a ética da psicanálise na sua clínica e apostar no sujeito capaz de produzir soluções singulares para lidar com o gozo. Promovendo, favorecendo a constituição de um espaço vazio, de uma falta, de uma distância entre o sujeito e o outro. Ou ainda, segundo a autora edificar túneis de ligação entre o mundo do sujeito e o mundo social. Logo, temos muito a aprender com todos esses autores que se implicaram na tarefa de escrever sobre a clínica do Autismo.

Nenhum comentário: