ENCONTROS DA AMP/EBP

O site do Encontro do Campo Freudiano de 2020 já está no ar, veja o argumento em:




O TEMA | Textos de orientação

O ser, é o desejo *

Jacques-Alain Miller

BRA_Afiche_A3_BRA_Afiche_A3_BRA_baixa



Faça sua inscrição

Veja mais no site:  https://ix.enapol.org/





Eventos satélites

Atenção!!!
Está chegando a VI Manhã de Trabalhos do CIEN Brasil que acontecerá no dia 23 de novembro, de 8h00 às 13h00, Hotel Windsor Barra, no Rio de Janeiro


Inscrições: https://bit.ly/2CQUUlA

Mais informações no vídeo abaixo






Publicado em 22/05/2018



Argumento

A queda do falocentrismo

Consequências para a psicanálise

XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano

Argumento A queda do falocentrismo Consequências para a psicanálise XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano





publicado em 04/05/2017

ENTREVISTA COM MARIE HÉLÈNE BROUSSE
















publicado em 13/03/2018
AQUELE ABRAÇO
Boas vindas do XXII Encontro do campo Freudiano









INSCRIÇÕES VIII ENAPOL - Informe

Foi ampliado o prazo para as inscrições com preço promocional para o VIII Enapol  - "Assuntos de família - seus enredos na prática". 
Valor especial até o dia 09 de agosto. 









FAMULUS
Miquel Bassols 

O próximo VIII ENAPOL nos convida a trabalhar com o tema: “Assuntos de família – seus enredos na prática”. A novela familiar está presente, de fato, desde o início da prática da psicanálise e também no discurso do sujeito contemporâneo; porém, o “assunto” se modificou substancialmente. É que a atualidade das transformações da família propõe novas questões que só podem ser abordadas além da estrutura clássica do Édipo e das suas formas patriarcais.
Entretanto, o sujeito continua sendo igualmente servo da família e do seu discurso: “Pensamos que decidimos o que queremos, mas na verdade é o que os outros quiseram; mais especificamente, a nossa família é quem nos fala (1)”. E este “nos”, destaca Lacan, deve ser entendido como um complemento direto, no sentido de que somos falados pela nossa família nesta trama de discursos que chamamos de destino.
Veja, então, a seguinte referência etimológica que caracteriza as ressonâncias que o termo “família” abarca desde as suas origens. Em latim, famulus significa escravo, servo, servente, submetido. Originalmente, a família era equivalente ao âmbito da posse y da ordem do conjunto do patrimônio, o que englobava tanto os parentes como os servos que se alimentavam na casa do senhor. Assim, a marca do significante amo se faz presente na origem da organização simbólica que conhecemos como família em todas as estruturas do parentesco.
A família: sistema simbólico e aparato de gozo
Os estudos da história e a antropologia da família mostram há tempo que sua estrutura não pode ser definida como uma unidade natural baseada na finalidade da reprodução. A família humana, instituição que registrou sucessivas mudanças ao longo da sua história, é uma estrutura de relações simbólicas que nem sempre se sobrepõe ou coincide com a unidade biológica – unidade com a qual a confundem, às vezes. Quando se sobrepõe a esta, a estrutura simbólica das relações que regem o parentesco e a descendência modifica de forma tão radical a suposta unidade natural da família que se pode dizer perfeitamente que a desnaturalizou por completo. De fato, não há nada natural na família. A semelhança que se observava entre seus membros habituais no Ocidente desde o século XIX – pai, mãe e filhos – com a família biológica é, como logo identificou Lacan (2), uma semelhança absolutamente contingente que o pensamento se vê tentado a considerar como uma comunidade, cuja estrutura está fundamentada diretamente na constância dos instintos.
Assim, em primeiro lugar, devemos entender a família como um sistema simbólico de relações organizadas por um significante mestre que somente de modo contingente se identifica com os seus fins naturais de reprodução e descendência. Atualmente, estas contingências se mostram ainda mais evidentes e variadas pelas incidências que a técnica tem sobre o real do corpo, a ponto de haver modificado a própria organização que o significante mestre comandava sobre a economia do gozo. Hoje em dia é possível encomendar uma família feita sob medida do fantasma de cada um. Seja por meio das novas técnicas de reprodução; através da adoção; pelas novas famílias monoparentais ou com o reconhecimento dos casais homoafetivos: se faz mais evidente se há espaço para a natureza perdida da família biológica.
Assim, em muitos países, mais da metade das famílias não correspondem à estrutura clássica do casamento com filhos. Nas sociedades patriarcais, sustentadas na prevalência do Nome do Pai, o falo como significante amo ordena o intercambio das mulheres entre clãs de acordo com a lei da exogamia. Segundo destacou Lévi-Strauss, os homens eram os que intercambiam as mulheres, não o contrário. A polêmica sobre a universalidade desta lei modifica o sentido ao considerar o que Lacan formalizou sobre a estrutura do Édipo freudiano com a conhecida fórmula da metáfora paterna(3).
Se os homens trocam mulheres entre eles segundo a lei fálica, as mulheres trocam o falo pelo filho introduzindo na lógica das leis do parentesco um elemento singular que não pode ser reduzido agora à pura ação do significante.
O gozo feminino – implícito de múltiplas formas nas siglas DM, que significam naquela fórmula o Desejo da Mãe – finca as raízes desse desejo materno em um campo que está sempre além, ou mais próximo, do gozo fálico. É o campo do gozo feminino, o gozo do Outro, que habita em toda unidade familiar. Dito de outra forma: toda família é um aparato de gozo, um modo de resguardar o segredo do gozo como inominável, inclusive abjeto.
Da família-sintoma à família-sinthome
Digamos então que é neste Outro campo do gozo, mais além ou mais aquém do falo, onde reside o segredo de toda família, seu principal assunto, esteja ele mais ou menos organizado pelas leis clássicas do parentesco. É o segredo do casal seja homossexual ou heterossexual em sua forma manifesta, monoparental ou não, mas velando sempre o Héteros do gozo feminino.
Hoje em dia, nos deparamos com novas formações familiares que se organizam ao redor deste segredo do gozo como Héteros, como heterogêneo a qualquer organização governada pelo significante do Nome do Pai. Por isso há dificuldades para promover a partir da política clássica um “planejamento familiar” que seja harmônica e de acordo com as novas formas de gozo. O verdadeiro servo da família, seu famulus, é, na verdade, o sujeito do gozo, termo que Lacan utilizou uma só vez para marcar o passo que vai desde o sujeito do significante até ao futuro parlêtre que surgirá em primeiro plano na cena final do seu ensino (4). Mas, este “sujeito do gozo” é a antecipação do ser falante que será correlato à noção de sinthome.
Neste sentido, cada ser falante é servo do segredo do gozo familiar – por fim, estranhamente familiar –, o que uma análise ajuda a decifrar. Aos enredos atuais das novas formas de parentesco que configuram o grupo familiar é preciso acrescentar os enredos que as novas formas de gozo introduzem para fazer deste segredo o umbigo do real, ao redor do qual giram as novas formações familiares e todas as suas variações. Hoje, os vínculos familiares se formam e se desfazem segundo as formas cada vez mais singulares do gozo sintomático.
Já aos sintomas clássicos que se organizavam de acordo com o discurso da novela familiar patriarcal faz-se necessário agregar, agora, a dimensão do sinthome, na qual a psicanálise localiza o mais singular e opaco do gozo do sintoma, aquilo que o torna absolutamente incomparável ao outro.
Trata-se então, no nosso estudo dos novos assuntos e enredos da família, de passar de uma clínica do sintoma – como articulação significante do segredo familiar – a uma clínica do sinthome – como forma singular do gozo no ser falante. Cada um é, de fato, fruto do mal-entendido do gozo familiar; mal-entendido do qual Lacan se declarava traumatizado pelo fato de ser falado por ele antes mesmo de chegar a falar dele.
Família e estruturas clínicas
Quando Jacques-Alain Miller apresentou um tema muito similar ao deste VIII ENAPOL (5) o fez tomando como referência o breve texto de Lacan intitulado “Nota sobre a criança (6)”. Trata-se dos dois sucintos e muito conhecidos comentários enviados a Jenny Aubry nos quais Lacan localiza o lugar da criança em relação ao segredo do gozo no casal parental, para além do “fracasso das utopias comunitárias” em que se continua emaranhando o ideal que moldaria o bom grupo familiar.
O segredo do gozo familiar se encarna de modo eminente na criança, cujo sintoma representa muitas vezes o retorno da verdade deste segredo. E isso ocorre sob as três formas assinaladas por Lacan e destacadas por Jacques-Alain Miller, segundo as quais a criança encarna este segredo para “testemunhar a culpa, servir de fetiche ou encarnar uma recusa primordial; estas três versões refletem, a meu ver, a neurose, a perversão e a psicose (7)”. E assim se organizam as três estruturas da nossa clínica clássica: a criança que faz retornar na neurose a culpa reprimida dos pais; a que encarna na perversão a recusa de um gozo fetichista; e a que na psicose devolve a partir do real a recusa primordial de um gozo impossível de simbolizar. Hoje, podemos encontrar múltiplas referencias clínicas para esta divisão de estruturas.
Que esta clínica estrutural fique hoje subsumida na nova clínica do parlêtre, na qual tratamos o corpo falante afetado pelo gozo de lalíngua, não deveria deixar de lado a investigação sobre a atualidade da lógica dos Nomes do Pai na sua pluralização. A referência ao Complexo de Édipo freudiano continua sendo necessária, aqui, para que se possa entender boa parte dos enredos familiares: “Retirem o Édipo e a psicanálise em extensão (…) se torna totalmente jurisdição do delírio do presidente Schreber” (8). O mapa da clínica estrutural que distingue neurose, psicose e perversão pode ser lido atualmente à luz da clínica do parlêtre para distinguir, em cada estrutura clínica, duas vertentes diferentes: a das identificações familiares e a dos acontecimentos do corpo que funcionam fora da identificação com o Pai. Eric Laurent destacou recentemente as importantes conseqüências desta perspectiva clínica “altamente política” (9). Ainda que o analista não receba nem trate a família como tal, existe, na verdade, uma política do sintoma da família que devemos estudar neste sentido para saber tratá-lo em cada sujeito.
A economia do gozo reorganiza a família
A partir da nova perspectiva da clínica do parlêtre, as relações familiares podem ser consideradas, então, como um vínculo social que existe no lugar da inexistência da relação entre os sexos. É por isso que a família sempre tentou organizar a relação sexual com as identificações masculina e feminina, mais ou menos padronizadas. As identificações familiares dizem ao sujeito o que fazer com um gozo autista que, para começar, não tem um objeto fora do próprio corpo. Sua função simbólica era articular um saber para regular o real do gozo, inclusive para impô-lo. Mas para a psicanálise trata-se exatamente, por assim dizer, de “des-familiarizar” o sujeito na sua relação com o gozo e introduzir-se por essa via em uma clínica além do Édipo. Assim como indicava Jacques-Alain Miller: “Quando a ordem simbólica era concebida como um saber que regula o real e impõe sua lei, a clínica estava dominada pela oposição entre neurose e psicose. Agora, a ordem simbólica é reconhecida como um sistema de semblantes que não impera sobre o real, mas que está subordinado a ele. Um sistema que responde ao real da relação sexual que não existe” (10).
Do mesmo modo, a família como sistema de semblantes, de significantes que tentam ordenar o gozo, se revela atualmente como um artifício subordinado ao real da inexistência da relação entre os sexos. Mais do que nunca, as famílias se reorganizam hoje seguindo as derivas do real, da não relação sexual e de uma economia do gozo que não se subordina a um significante em particular, seja ao do Nome do Pai ou a qualquer outro que quisesse substituí-lo. Porque “na economia do gozo, um significante mestre vale o mesmo que qualquer outro” (11). A instabilidade dos vínculos familiares não segue, hoje, a lógica dos intercâmbios simbólicos, mas a desta equivalência entre significantes mestres que se intercambiam de acordo com as condições do gozo.
Dito de outro modo, os termos se inverteram: se a família tentava ordenar o real do gozo, o real do gozo reordena hoje a família, e isso em formas tão díspares como equivalentes entre si.
A família e seu pai congelado
As políticas atuais de “planejamento familiar” respondem ao legítimo direito ao gozo que o sujeito contemporâneo também define como o direito de ter e formar uma família de acordo com as suas condições de gozo. Mas as propostas possíveis seguem inevitavelmente a estrela de um fenômeno que Lacan já havia antecipado no final dos anos 1950 no seu comentário da figura do “pai refrigerado”, ou congelado, tanto no seu sentido figurado como literal (12). Então, a possibilidade introduzida pela tecnociência da gravidez pela inseminação artificial já realizava de modo direto a separação radical entre a função simbólica do “pater” e a função real do “genitor”. Hoje é uma realização – no sentido de torná-lo real – que está na ordem do dia, o que deixa ainda mais espaço para a proliferação das figuras imaginárias do pai que, por outra parte, sempre existiu nos fantasmas mais familiares de cada sujeito. Tratava-se, então, de “uma pequena notícia que [vinha] do mais profundo da América. Após a morte do seu marido, uma mulher, comprometida com ele pelo pacto de um amor eterno, se faz fazer um filho seu a cada dez meses […]. É a ilustração mais acolhedora que podemos dar do que chamo do “x” da paternidade” (13). O comentário de Lacan continua sendo atual. Não só o pai simbólico é o pai morto, como novelava o mito freudiano do pai morto da horda primitiva, o pai assassinado pelos filhos para ter acesso ao gozo. A partir desta possibilidade introduzida pela tecnociência também o pai real é o pai morto, o pai de quem, neste caso, se havia extraído e congelado os espermatozóides. Mas, precisamente, a noção do pai real, assim como já destacava Lacan naquele momento, não se confunde em nenhum caso com a fecundidade.
O real do pai continua sendo até hoje um enigma; um “x” que cada sujeito resolve a seu modo com seu sintoma em primeiro lugar. E para este sintoma não há planejamento possível.
Lacan já antecipava naquele momento a necessidade da reorganização da clínica que concluiu duas décadas depois com a noção de sinthome. “A distinção do imaginário, do simbólico e do real não bastará talvez para traçar os termos deste problema, cuja solução não me parece próxima” (14). De fato, as novas transformações familiares não se resolvem seguindo esta distinção que permitia definir seus lugares a partir do simbólico de modo mais ou menos nítido. As demandas de formar uma “família sob encomenda” e as possibilidades reais de responder a elas continuam hoje inevitavelmente à deriva do sintoma que, para cada sujeito, surge da inexistência da relação sexual.
E é a estas novas derivas, e as suas novas serventias, que a psicanálise de hoje e este próximo VIII ENAPOL deverão saber responder.
Agosto de 2016
Tradução Lenita Bentes



([1]) Jacques Lacan, Seminario 23, “El sinthome”, Paidós Buenos Aires 2006, p. 160.
(2) Jacques Lacan, La familia, Barcelona 1978, Editorial Argonauta, p 17.
(3) Jacques Lacan, Escritos, Ed. Siglo XXI, México 1984, p. 539.
(4) Jacques Lacan, “Presentación de la traducción francesa de las Memorias del Presidente Schreber”, en Intervenciones y Textos, Manantial, Buenos Aires, p. 30.
(5) El tema de las XXXV Jornadas de la ECF, “El reverso de las familias. El vínculo familiar en la experiencia analítica”.
(6) Jacques Lacan, “Nota sobre el niño”, en Otros escritos, Paidós, Buenos Aires 2012.
(7) Jacques-Alain Miller, “El revés de la familia”, en Revista Consecuencias nº 8, Abril 2012.
(8) Jaques Lacan, “Proposición del 9 de octubre de 1967. Sobre el psicoanalista de la Escuela”, en Momentos cruciales de la experiencia psicoanalítica, Manantial, Buenos Aires, 1992, p. 21.
(9)Éric Laurent, L’envers de la biopolitique. Une écriturepour la jouissance. Navarin / Le champfreudien, Paris 2016, p. 238.
(10) Jacques-Alain Miller, “El inconsciente y el cuerpo hablante”, en www.wapol.org.
(11) Ibídem.
(12) Jacques Lacan, Seminario 4, “La relación de objeto”, Paidós, Buenos Aires, p. 376-378.
(13) Jacques Lacan, opus cit, p. 376.
(14) Jacques Lacan, ibidem.

Extraído de: http://www.lacan21.com/sitio/2016/10/25/famulus/?lang=pt-br









NOTÍCIAS DE BUENOS AIRES

A política do passe (Por Cristiano Alves Pimenta)

Gostaria de responder à convocação de nossa Coordenadora no sentido de expressar alguma impressão a respeito do VIII Congresso da AMP (A ORDEM SIMBÓLICA NO SÉCULO XXI) adotando uma perspectiva mais pessoal, a qual eu assumo por conta e risco. Uma das coisas que mais me chamaram a atenção no VIII CONGRESSO foi a política, mais especificamente, a política do passe. Basta ver o Programa do Congresso para se dar conta de que o que guia tal política não é o que normalmente se vê em algumas associações, onde prevalece os interesses, as amizades, os favorecimentos à alguns em detrimento de outros. Não. O que guia essa política é a valorização daquele, seja quem for dentre os membros, que atingiu o final de sua análise e se dispôs a transmitir sua experiência enquanto paciente. Este recebeu prioridade e reconhecimento nas mesas do VIII Congresso da AMP. Será que o próprio Freud um dia imaginou que os casos clínicos – tão difíceis de serem publicados dada a necessidade do sigilo – seriam apresentados publicamente por um número comparativamente tão grande de sujeitos, e ainda mais, pelos mesmos que se submeteram á experiência analítica? Estar neste Congresso me permitiu confirmar a escolha que fiz pela Orientação Lacaniana, uma vez que a política do passe é o traço mesmo que distingue essa Orientação.
Para se ter uma ideia mais precisa disso lembremo-nos que já no primeiro dia do Congresso houve, pela manhã, quatro testemunhos do passe pronunciados por AEs recém nomeados. Todos estes testemunhos foram comentados por Jaques-Alain Miller, dentre eles o de Ana Lídia Santiago. Mas eu não poderia deixar de mencionar o quanto fiquei impressionado com o testemunho, muito comentado por Miller, de Paola Bolgiani (SLP). Se não me falha a memória, sua frase inicial foi “passei a vida sustentando meu pai”, frase que se ancora numa fantasia cuja imagem está inspirada na Pietá (em português Piedade) de Michelangelo, a famosa escultura que representa Jesus Cristo morto nos braços da Virgem Maria. Que imagem do pai morto! A qual, como sublinhou Miller, instalou o sujeito na neurose, mas também lhe serviu como o lastro da sua escolha heterossexual de objeto. Impossível dizer o quanto um testemunho do passe pode ser valioso para nós praticantes! Mas, o mesmo pode ser dito para nós analisantes. O testemunho de Paola se sobressai pela riqueza nos dados clínicos. O relato da história do sujeito nos permite ter uma visão clara do real que esses mesmos elementos históricos contornaram. Ou seja, a dimensão do objeto a e da travessia da fantasia, essencial ao final de análise, ficou ali muito evidente para mim. Aguardemos ansiosos pela sua publicação, para que possamos retomá-lo com mais detalhes.
No dia seguinte, pela manhã, tivemos mais quatro testemunhos, desta vez comentados por Éric Laurent. Dentre eles o de Graciela Brodsky, muito aplaudido por, talvez, mais de duas mil pessoas (houve mais de dois mil inscritos). O fato de que a maior parte desses inscritos não fossem membros das Escolas da AMP indica a importância deste Congresso para os praticantes que ainda não possuem o reconhecimento institucional.
Eu poderia comentar ainda muito do que vi, como as mesas simultâneas, a esclarecedora Conferência final de Miller que estabeleceu o tema do Real no Século XXI para o próximo Congresso da AMP e tantos outros trabalhos interessantíssimos (como o de Hugo Freda “Hacer” amor), mas meu objetivo aqui é apenas marcar uma conclusão que me pareceu mais essencial: a experiência do passe, transmitida pelos AEs, deve orientar nossa clínica em toda sua extensão. Não se trata somente de saber como se dá um final de análise, mas também do fato de que uma “análise que dura” – desde a entrada, passando por todos os seus momentos tão singulares, até o seus impasses finais – só estará bem orientada se o horizonte da travessia da fantasia, da construção do objeto a e da identificação ao sinthome já se insinuar nos cálculos do psicanalista desde o começo. E não é em vão lembrar que só há passe, no sentido do testemunho de uma experiência, se houver Escola. É isso. 


Um ressoar da Argentina (Por Denizye Aleksandra Zacharias)

Este pequeno relato nasce da contingência entre uma solicitação da coordenação da DG com o ressoar que vem me instigando a escrever desde que retornei da Argentina.
É a primeira vez que participo de um Congresso Internacional da AMP em que foi aberto para não membros, e devo ressaltar foi uma experiência muito significativa em dois aspectos:
Um primeiro aspecto, nós aqui na DG/ Goiás-DF estamos atualizados nos estudos da psicanálise do Campo Freudiano mediante o cartel de Orientação Lacaniana, de modo que posso afirmar que nossos estudos têm como objetivo produzir efeitos na formação do analista para a obtenção de alguns saberes.
Num segundo aspecto que é sempre mais sutil, tem haver com as minhas impressões subjetivas, pois são conduzidas por meu percurso.
Lacan sempre primou pela política da Escola e para que esta não se oponha ao discurso analítico, ou seja, às dimensões clínicas e epistêmicas, ele instituiu o passe como controle da Causa Freudiana, como afirma Miller “para por a profissão à prova da verdade....e não há adequação da palavra ao real” (1ª lição, Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan, p. 25).
Desse modo, cada AE pode testemunhar sua relação com o Real, ou seja, sua identificação com o sinthoma e o saber-fazer com Isso em sua hytória com y, porém o que gostaria de destacar, em breves palavras, é que no final de uma longa experiência de análise o que vem causar o sujeito é um “desejo inédito e impuro”.
O conceito de desejo do analista é uma noção que aparece pela primeira vez no texto de Lacan de 1958 “A direção da cura e princípios do seu poder” e ele aponta que este desejo deve ser questionado acerca da relação entre trabalho analítico e sua dimensão ética, de modo que este desejo opõe à identificação ao Ideal, está mais além do desejo de curar.
El deseo del analista de dirige a S(A barrado ), al significante de la falta em el Outro, es um deseo de descompletar, es um operador que orienta el psicoanálisis hacia lo real, esto es, más lejos que el inconsciente. Apunta a lo imposible de realizar del inconsciente como saber, apunta al real de la falta de proporción sexual. ...Se trata ahora del sintoma en su puro valor de uso, um uso que va más allá de su valor significante.... Se trata ahora de un síntoma desabonado del aparato semántico que es el inconsciente, y ésta es la manera más singular de hacer com lo real que cada parlêtre tiene. Del sinthome uno no se desprende puesto que sirve para anudar real, simbólico, e imaginário”. (Como se forman los analistas? Xavier Esqué, p.62) 
Desse modo, através dos relatos dos AES foi possível entender o propósito fundamental do passe instituído por Lacan, é para manter aberta a pergunta acerca de:
 O que é a psicanálise? Como é sua prática? 
    E para ressoar, finalizo com o poema do poeta argentino Borges:

Não és os Outros
(Jorge Luis Borges, in "A Moeda de Ferro")

Não há- de te salvar o que te salvaram
Escrito aqueles que o teu medo implora;
Não és os outros e encontras-te agora
No meio do labirinto que tramaram
Teus passos. Não te salva a agonia
De Jesus ou de Sócrates ou o forte
Siddharta de ouro que aceitou a morte
Naquele jardim, ao declinar o dia.
Também é pó cada palavra escrita
Por tua mão ou o verbo pronunciado
Pela boca. Não há pena no Fado
E a noite de Deus é infinita.
Tua matéria é o tempo, o incessante
Tempo. E és cada solitário instante.


AUTISMO
Reunião em 25/04/2012 – Buenos Aires – VIII Congresso da AMP.
COORDENAÇÃO: Leonardo Gorostiza - Presidente da AMP. Presença/Participação de         Judith Miller e Éric Laurent.
Por Ordália Alves Junqueira*

Judith Miller inicia o encontro falando das flexões políticas a partir dos ataques ao acompanhamento dos autistas. Pontua a necessidade de boas práticas e políticas no que se refere a como tratar os autistas. A importância de ter uma resposta frente ao futuro deles. Judith lembra a necessidade de se ter cuidado com os ecos de ataque, de agressividade. “Podemos ter respostas não tão rápidas mais” diz. Enfatiza a importância da opinião pública sobre o autismo. “O que podemos fazer em outros países?” pergunta a psicanalista.  Judith continua dizendo que “é importante os analistas aprenderem a falar ao público”, propor casos clínicos para entender e dizer em qual estado estava a criança autista, mostrando “a diferença entre o antes e o depois do trabalho analítico”. Fazer o público entender, não é um “mal estar” que os analistas tem que entender. Finaliza dizendo que deseja agora, conhecer a situação dos outros países (além da França).
Eric Laurent: Inicia sua fala trazendo a psicanálise como sendo interrogativa e podendo ser até ofensiva quando se confronta com o comportamentalismo, por exemplo. Traz três posições, a saber: o cientificismo, o comportamentalismo e o psicanalítico frisando a importância de evitar o pior com posição clara para este último (o psicanalítico). Fala do Texto do Instituto das crianças, no sentido de atualização do autismo.
Laurent lembra o “Lacan Cotidiano” da semana passada, onde traz que hoje, uma criança em 50 (cinquenta) é autista, sendo que, há pouco tempo atrás, esses números eram outros: uma em cada 250 (duzentos e cinquenta) era autista. Isso é absolutamente terrível, pois, exige boas soluções e rápidas com uma pressão forte das associações de pais; acarretando conjunção de dispositivos legais e um grande movimento de políticas sanitárias. Um crescimento enorme como um “fenômeno” que há muito tempo não era visto. O efeito disto tem sido, por exemplo, a criação de educadores comportamentalistas treinados em um mês para atender as crianças autistas que crescem assustadoramente nas escolas. Há uma luta contra os desgastes dos efeitos do tratamento comportamentalistas. Segundo Laurent, nós analistas necessitamos efetivar a doutrina, pois, o que se tem divulgado são doutrinas “pobres” como, por exemplo: “depressão maternal” constatada nas mães das crianças autistas que não estimulam muito os seus filhos, coisas que se proliferam de forma absurda  e muitas outras.
Laurent enfatiza algumas coisas que são essenciais hoje: a necessidade de aprofundar a diferença entre autismo e psicose; o impacto da língua no corpo do sujeito autista; o fato que teremos que incluir os pais das crianças autistas; uma responsabilidade em atualizar os procedimentos que não produzem classificações segregativas. Elaboração, no campo da Saúde Mental, quem vai se beneficiar ou não dessas classificações. Laurent repete a importância dos pais dos autistas serem chamados para a psicanálise; fazer reuniões com os pais e encontrar maneiras de dirigirem as associações de pais de autistas. As classificações em aberto e com pessoas que tem condições de participar de associações de pais, de reconhecimento da importância deles no processo de condução hoje do destino que se dará aos procedimentos de acompanhamento dos autistas no mundo no século XXI.
Os analistas, segundo Laurent, deverão elaborar formas de se dirigir ao público de forma aberta, utilizando-se, inclusive, da internet (estamos no sec. XXI), com os devidos cuidados, é claro. Lembrando sempre, do que disse Lacan: “...o que eu disse a mensagem vem de forma invertida, imediatamente”. É importante incluir o público, inclusive a opinião administrativa, e os que podem dar parecer sobre o assunto.  Laurent lembra que estamos frente a um Problema de Saúde Pública, a médio prazo (5 anos) e a longo prazo poderá piorar se nada for feito. Trabalhar muito para considerar uma forma de modernizar nossa maneira de pensar. Um movimento analítico de forma geral, analistas que tem filhos autistas, por exemplo, eles existem e podem ser muitos.
Algumas questões deverão ser levantadas: O que significa o castigo, por exemplo, na criança autista? (procedimento dos comportamentalistas). A escola inclusiva: os professores encontram os comportamentalistas que querem fazer programas individualizados; abandono da educação especial e inclusão, as crianças em salas “normais”? Dentro de uma escola pública normal: a educação que convém a uma criança autista? Alguns autistas de alto nível, por exemplo, sendo educados de maneira brutal e segregativa. Laurent faz referência ao  texto em francês: “Escutar os autistas”, que fala da crueldade inútil utilizada pelos comportamentalistas.
Neste momento Laurent chama os analistas à algumas responsabilidades, a saber: dirigirem-se a representantes de setores para juntos construírem inovações de doutrinas; ocuparem uma “posição central” não estando nos ministérios mas estarem do lado de fora para impedir leis aversivas. Enfim, manter-se na posição contrária e pontualmente ajudar: posição do mais-um (fora) e posição de facilitador (dentro).

PERGUNTAS DO PÚBLICO:

Elisa Alvarenga,  traz uma lei que está tramitando no Paraná (...) onde se coloca os autistas dentro da classificação de portadores de necessidades especiais para que os mesmo possam se beneficiar disso, como por exemplo: atendimento médico, passe livre, dentre outros.
Laurent faz um chiste: “Mais vale um bom deficiente que um psicótico abandonado, sem nenhum direito...”, dizendo que esta situação está à mostra no mundo todo, complementando  ser impossível reduzir a patologia de deficiente, é impossível, pois “sufre” e implica a psiquiatria. A educação, por natureza, é comportamentalista e produz fatalmente a segregação. A educação cruel, tomar contato com os autistas não é fácil, as medicações para crianças pequenas, à partir de dois anos, implicando a neurologia e a psiquiatria. Então, a Educação, a Neurologia e a Psiquiatria juntas. A Psicanálise pode ser o maquinário antisegregativo.
Necessitamos também, segundo Laurent, fazer uma “publicidade negativa” como, por exemplo: não é só a psicanálise que está mal, cuidados que se deve ter, “caso não utilizar da psicanálise pode se dar mal...”. (Importância de fazer a parceria com os pais de autistas que estão sendo acompanhados pela psicanálise, como Judith Miller pontuou no início: existe um antes e um depois do encontro do autista com o analista.)
Em resposta a outra pergunta (...) sobre uma lei na Argentina onde  rege sobre o tratamento dos autistas, uma parte está assim escrito:  Como tratamento a TCC “dentre outras”, e Laurent diz imediatamente: nessa “brecha” podemos entrar,  sendo  enfático: “isso nos interessa”.  Lembra que existe uma diferença grande entre “Condicionamentos e castigos das TCC” e a “Insistência psicanalítica”, finalizando assim sua brilhante palestra.

*Coordenadora de Biblioteca da Delegação Geral GO-DF-Brasil, presente na reunião.
 

Nenhum comentário: