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O TEMA | Textos de orientação
O ser, é o desejo *
Jacques-Alain Miller
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Publicado em 22/05/2018
Argumento
A queda do falocentrismo
Consequências para a psicanálise
XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano
Argumento A queda do falocentrismo Consequências para a psicanálise XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano
publicado em 04/05/2017
ENTREVISTA COM MARIE HÉLÈNE BROUSSE
publicado em 13/03/2018
AQUELE ABRAÇO
Boas vindas do XXII Encontro do campo Freudiano
INSCRIÇÕES VIII ENAPOL - Informe
Foi ampliado o prazo para as inscrições com preço promocional para o VIII Enapol - "Assuntos de família - seus enredos na prática".
Valor especial até o dia 09 de agosto.
FAMULUS
Miquel Bassols
O próximo
VIII ENAPOL nos convida a trabalhar com o tema: “Assuntos de família – seus
enredos na prática”. A novela familiar está presente, de fato, desde o início
da prática da psicanálise e também no discurso do sujeito contemporâneo; porém,
o “assunto” se modificou substancialmente. É que a atualidade das
transformações da família propõe novas questões que só podem ser abordadas além
da estrutura clássica do Édipo e das suas formas patriarcais.
Entretanto,
o sujeito continua sendo igualmente servo da família e do seu discurso:
“Pensamos que decidimos o que queremos, mas na verdade é o que os outros
quiseram; mais especificamente, a nossa família é quem nos fala (1)”. E este
“nos”, destaca Lacan, deve ser entendido como um complemento direto, no sentido
de que somos falados pela nossa família nesta trama de discursos que chamamos
de destino.
Veja, então,
a seguinte referência etimológica que caracteriza as ressonâncias que o termo
“família” abarca desde as suas origens. Em latim, famulus significa
escravo, servo, servente, submetido. Originalmente, a família era equivalente
ao âmbito da posse y da ordem do conjunto do patrimônio, o que englobava tanto
os parentes como os servos que se alimentavam na casa do senhor. Assim, a marca
do significante amo se faz presente na origem da organização simbólica que
conhecemos como família em todas as estruturas do parentesco.
A família:
sistema simbólico e aparato de gozo
Os estudos
da história e a antropologia da família mostram há tempo que sua estrutura não
pode ser definida como uma unidade natural baseada na finalidade da reprodução.
A família humana, instituição que registrou sucessivas mudanças ao longo da sua
história, é uma estrutura de relações simbólicas que nem sempre se sobrepõe ou
coincide com a unidade biológica – unidade com a qual a confundem, às vezes.
Quando se sobrepõe a esta, a estrutura simbólica das relações que regem o
parentesco e a descendência modifica de forma tão radical a suposta unidade
natural da família que se pode dizer perfeitamente que a desnaturalizou por
completo. De fato, não há nada natural na família. A semelhança que se
observava entre seus membros habituais no Ocidente desde o século XIX – pai,
mãe e filhos – com a família biológica é, como logo identificou Lacan (2), uma
semelhança absolutamente contingente que o pensamento se vê tentado a
considerar como uma comunidade, cuja estrutura está fundamentada diretamente na
constância dos instintos.
Assim, em
primeiro lugar, devemos entender a família como um sistema simbólico de relações
organizadas por um significante mestre que somente de modo contingente se
identifica com os seus fins naturais de reprodução e descendência. Atualmente,
estas contingências se mostram ainda mais evidentes e variadas pelas
incidências que a técnica tem sobre o real do corpo, a ponto de haver
modificado a própria organização que o significante mestre comandava sobre a
economia do gozo. Hoje em dia é possível encomendar uma família feita sob
medida do fantasma de cada um. Seja por meio das novas técnicas de reprodução;
através da adoção; pelas novas famílias monoparentais ou com o reconhecimento
dos casais homoafetivos: se faz mais evidente se há espaço para a natureza
perdida da família biológica.
Assim, em
muitos países, mais da metade das famílias não correspondem à estrutura
clássica do casamento com filhos. Nas sociedades patriarcais, sustentadas na
prevalência do Nome do Pai, o falo como significante amo ordena o intercambio
das mulheres entre clãs de acordo com a lei da exogamia. Segundo destacou Lévi-Strauss,
os homens eram os que intercambiam as mulheres, não o contrário. A polêmica
sobre a universalidade desta lei modifica o sentido ao considerar o que Lacan
formalizou sobre a estrutura do Édipo freudiano com a conhecida fórmula da
metáfora paterna(3).
Se os homens
trocam mulheres entre eles segundo a lei fálica, as mulheres trocam o falo pelo
filho introduzindo na lógica das leis do parentesco um elemento singular que
não pode ser reduzido agora à pura ação do significante.
O gozo
feminino – implícito de múltiplas formas nas siglas DM, que significam naquela
fórmula o Desejo da Mãe – finca as raízes desse desejo materno
em um campo que está sempre além, ou mais próximo, do gozo fálico. É o campo do
gozo feminino, o gozo do Outro, que habita em toda unidade familiar. Dito de
outra forma: toda família é um aparato de gozo, um modo de resguardar o segredo
do gozo como inominável, inclusive abjeto.
Da
família-sintoma à família-sinthome
Digamos
então que é neste Outro campo do gozo, mais além ou mais aquém do falo, onde
reside o segredo de toda família, seu principal assunto, esteja ele mais ou
menos organizado pelas leis clássicas do parentesco. É o segredo do casal seja
homossexual ou heterossexual em sua forma manifesta, monoparental ou não, mas
velando sempre o Héteros do gozo feminino.
Hoje em dia,
nos deparamos com novas formações familiares que se organizam ao redor deste
segredo do gozo como Héteros, como heterogêneo a qualquer
organização governada pelo significante do Nome do Pai. Por isso há dificuldades
para promover a partir da política clássica um “planejamento familiar” que seja
harmônica e de acordo com as novas formas de gozo. O verdadeiro servo da
família, seu famulus, é, na verdade, o sujeito do gozo, termo que
Lacan utilizou uma só vez para marcar o passo que vai desde o sujeito do
significante até ao futuro parlêtre que surgirá em primeiro
plano na cena final do seu ensino (4). Mas, este “sujeito do gozo” é a
antecipação do ser falante que será correlato à noção de sinthome.
Neste
sentido, cada ser falante é servo do segredo do gozo familiar – por fim,
estranhamente familiar –, o que uma análise ajuda a decifrar. Aos enredos
atuais das novas formas de parentesco que configuram o grupo familiar é preciso
acrescentar os enredos que as novas formas de gozo introduzem para fazer deste
segredo o umbigo do real, ao redor do qual giram as novas formações familiares
e todas as suas variações. Hoje, os vínculos familiares se formam e se desfazem
segundo as formas cada vez mais singulares do gozo sintomático.
Já aos
sintomas clássicos que se organizavam de acordo com o discurso da novela
familiar patriarcal faz-se necessário agregar, agora, a dimensão do sinthome,
na qual a psicanálise localiza o mais singular e opaco do gozo do sintoma,
aquilo que o torna absolutamente incomparável ao outro.
Trata-se
então, no nosso estudo dos novos assuntos e enredos da família, de passar de
uma clínica do sintoma – como articulação significante do segredo familiar – a
uma clínica do sinthome – como forma singular do gozo no ser
falante. Cada um é, de fato, fruto do mal-entendido do gozo familiar;
mal-entendido do qual Lacan se declarava traumatizado pelo fato de ser falado
por ele antes mesmo de chegar a falar dele.
Família e
estruturas clínicas
Quando
Jacques-Alain Miller apresentou um tema muito similar ao deste VIII ENAPOL (5)
o fez tomando como referência o breve texto de Lacan intitulado “Nota sobre a
criança (6)”. Trata-se dos dois sucintos e muito conhecidos comentários
enviados a Jenny Aubry nos quais Lacan localiza o lugar da criança em relação
ao segredo do gozo no casal parental, para além do “fracasso das utopias
comunitárias” em que se continua emaranhando o ideal que moldaria o bom grupo
familiar.
O segredo do
gozo familiar se encarna de modo eminente na criança, cujo sintoma representa
muitas vezes o retorno da verdade deste segredo. E isso ocorre sob as três
formas assinaladas por Lacan e destacadas por Jacques-Alain Miller, segundo as
quais a criança encarna este segredo para “testemunhar a culpa, servir de
fetiche ou encarnar uma recusa primordial; estas três versões refletem, a meu
ver, a neurose, a perversão e a psicose (7)”. E assim se organizam as três
estruturas da nossa clínica clássica: a criança que faz retornar na neurose a
culpa reprimida dos pais; a que encarna na perversão a recusa de um gozo
fetichista; e a que na psicose devolve a partir do real a recusa primordial de
um gozo impossível de simbolizar. Hoje, podemos encontrar múltiplas referencias
clínicas para esta divisão de estruturas.
Que esta
clínica estrutural fique hoje subsumida na nova clínica do parlêtre,
na qual tratamos o corpo falante afetado pelo gozo de lalíngua, não
deveria deixar de lado a investigação sobre a atualidade da lógica dos Nomes do
Pai na sua pluralização. A referência ao Complexo de Édipo freudiano continua
sendo necessária, aqui, para que se possa entender boa parte dos enredos
familiares: “Retirem o Édipo e a psicanálise em extensão (…) se torna
totalmente jurisdição do delírio do presidente Schreber” (8). O mapa da clínica
estrutural que distingue neurose, psicose e perversão pode ser lido atualmente
à luz da clínica do parlêtre para distinguir, em cada
estrutura clínica, duas vertentes diferentes: a das identificações familiares e
a dos acontecimentos do corpo que funcionam fora da identificação com o Pai.
Eric Laurent destacou recentemente as importantes conseqüências desta
perspectiva clínica “altamente política” (9). Ainda que o analista não receba
nem trate a família como tal, existe, na verdade, uma política do sintoma da
família que devemos estudar neste sentido para saber tratá-lo em cada sujeito.
A economia
do gozo reorganiza a família
A partir da
nova perspectiva da clínica do parlêtre, as relações familiares
podem ser consideradas, então, como um vínculo social que existe no lugar da
inexistência da relação entre os sexos. É por isso que a família sempre tentou
organizar a relação sexual com as identificações masculina e feminina, mais ou
menos padronizadas. As identificações familiares dizem ao sujeito o que fazer
com um gozo autista que, para começar, não tem um objeto fora do próprio corpo.
Sua função simbólica era articular um saber para regular o real do gozo,
inclusive para impô-lo. Mas para a psicanálise trata-se exatamente, por assim
dizer, de “des-familiarizar” o sujeito na sua relação com o gozo e
introduzir-se por essa via em uma clínica além do Édipo. Assim como indicava
Jacques-Alain Miller: “Quando a ordem simbólica era concebida como um saber que
regula o real e impõe sua lei, a clínica estava dominada pela oposição entre
neurose e psicose. Agora, a ordem simbólica é reconhecida como um sistema de
semblantes que não impera sobre o real, mas que está subordinado a ele. Um sistema
que responde ao real da relação sexual que não existe” (10).
Do mesmo
modo, a família como sistema de semblantes, de significantes que tentam ordenar
o gozo, se revela atualmente como um artifício subordinado ao real da
inexistência da relação entre os sexos. Mais do que nunca, as famílias se
reorganizam hoje seguindo as derivas do real, da não relação sexual e de uma
economia do gozo que não se subordina a um significante em particular, seja ao
do Nome do Pai ou a qualquer outro que quisesse substituí-lo. Porque “na
economia do gozo, um significante mestre vale o mesmo que qualquer outro” (11).
A instabilidade dos vínculos familiares não segue, hoje, a lógica dos
intercâmbios simbólicos, mas a desta equivalência entre significantes mestres
que se intercambiam de acordo com as condições do gozo.
Dito de
outro modo, os termos se inverteram: se a família tentava ordenar o real do
gozo, o real do gozo reordena hoje a família, e isso em formas tão díspares
como equivalentes entre si.
A família e
seu pai congelado
As políticas
atuais de “planejamento familiar” respondem ao legítimo direito ao gozo que o
sujeito contemporâneo também define como o direito de ter e formar uma família
de acordo com as suas condições de gozo. Mas as propostas possíveis seguem
inevitavelmente a estrela de um fenômeno que Lacan já havia antecipado no final
dos anos 1950 no seu comentário da figura do “pai refrigerado”, ou congelado,
tanto no seu sentido figurado como literal (12). Então, a possibilidade introduzida
pela tecnociência da gravidez pela inseminação artificial já realizava de modo
direto a separação radical entre a função simbólica do “pater” e a função real
do “genitor”. Hoje é uma realização – no sentido de torná-lo real – que está na
ordem do dia, o que deixa ainda mais espaço para a proliferação das figuras
imaginárias do pai que, por outra parte, sempre existiu nos fantasmas mais
familiares de cada sujeito. Tratava-se, então, de “uma pequena notícia que
[vinha] do mais profundo da América. Após a morte do seu marido, uma mulher,
comprometida com ele pelo pacto de um amor eterno, se faz fazer um filho seu a
cada dez meses […]. É a ilustração mais acolhedora que podemos dar do que chamo
do “x” da paternidade” (13). O comentário de Lacan continua sendo atual. Não só
o pai simbólico é o pai morto, como novelava o mito freudiano do pai morto da
horda primitiva, o pai assassinado pelos filhos para ter acesso ao gozo. A
partir desta possibilidade introduzida pela tecnociência também o pai real é o
pai morto, o pai de quem, neste caso, se havia extraído e congelado os
espermatozóides. Mas, precisamente, a noção do pai real, assim como já
destacava Lacan naquele momento, não se confunde em nenhum caso com a
fecundidade.
O real do
pai continua sendo até hoje um enigma; um “x” que cada sujeito resolve a seu
modo com seu sintoma em primeiro lugar. E para este sintoma não há planejamento
possível.
Lacan já
antecipava naquele momento a necessidade da reorganização da clínica que
concluiu duas décadas depois com a noção de sinthome. “A distinção
do imaginário, do simbólico e do real não bastará talvez para traçar os termos
deste problema, cuja solução não me parece próxima” (14). De fato, as novas
transformações familiares não se resolvem seguindo esta distinção que permitia
definir seus lugares a partir do simbólico de modo mais ou menos nítido. As
demandas de formar uma “família sob encomenda” e as possibilidades reais de
responder a elas continuam hoje inevitavelmente à deriva do sintoma que, para
cada sujeito, surge da inexistência da relação sexual.
E é a estas
novas derivas, e as suas novas serventias, que a psicanálise de hoje e este
próximo VIII ENAPOL deverão saber responder.
Agosto de 2016
Tradução Lenita Bentes
([1]) Jacques Lacan, Seminario 23, “El sinthome”, Paidós Buenos Aires
2006, p. 160.
(2) Jacques Lacan, La familia, Barcelona 1978, Editorial Argonauta, p 17.
(3) Jacques Lacan, Escritos, Ed. Siglo XXI, México 1984, p. 539.
(4) Jacques Lacan, “Presentación de la traducción francesa de las
Memorias del Presidente Schreber”, en Intervenciones y Textos, Manantial,
Buenos Aires, p. 30.
(5) El tema de las XXXV Jornadas de la ECF, “El reverso de las familias.
El vínculo familiar en la experiencia analítica”.
(6) Jacques Lacan, “Nota sobre el niño”, en Otros escritos, Paidós,
Buenos Aires 2012.
(7) Jacques-Alain Miller, “El revés de la familia”, en Revista
Consecuencias nº 8, Abril 2012.
(8) Jaques Lacan, “Proposición del 9 de octubre de 1967. Sobre el
psicoanalista de la Escuela”, en Momentos cruciales de la experiencia
psicoanalítica, Manantial, Buenos Aires, 1992, p. 21.
(9)Éric Laurent, L’envers de la biopolitique. Une écriturepour la
jouissance. Navarin / Le champfreudien, Paris 2016, p. 238.
(10) Jacques-Alain Miller, “El inconsciente y el cuerpo hablante”, en
www.wapol.org.
(11) Ibídem.
(12) Jacques Lacan, Seminario 4, “La relación de objeto”, Paidós, Buenos
Aires, p. 376-378.
(13) Jacques Lacan, opus cit, p. 376.
(14) Jacques Lacan, ibidem.
Extraído de: http://www.lacan21.com/sitio/2016/10/25/famulus/?lang=pt-br
NOTÍCIAS DE BUENOS AIRES
A política do passe (Por
Cristiano Alves Pimenta)
Gostaria
de responder à convocação de nossa Coordenadora no sentido de expressar alguma
impressão a respeito do VIII Congresso da AMP (A ORDEM SIMBÓLICA NO SÉCULO XXI)
adotando uma perspectiva mais pessoal, a qual eu assumo por conta e risco. Uma
das coisas que mais me chamaram a atenção no VIII CONGRESSO foi a política,
mais especificamente, a política do passe. Basta ver o Programa do Congresso
para se dar conta de que o que guia tal política não é o que normalmente se vê
em algumas associações, onde prevalece os interesses, as amizades, os
favorecimentos à alguns em detrimento de outros. Não. O que guia essa política
é a valorização daquele, seja quem for dentre os membros, que atingiu o final
de sua análise e se dispôs a transmitir sua experiência enquanto paciente. Este
recebeu prioridade e reconhecimento nas mesas do VIII Congresso da AMP. Será
que o próprio Freud um dia imaginou que os casos clínicos – tão difíceis de
serem publicados dada a necessidade do sigilo – seriam apresentados
publicamente por um número comparativamente tão grande de sujeitos, e ainda
mais, pelos mesmos que se submeteram á experiência analítica? Estar neste Congresso
me permitiu confirmar a escolha que fiz pela Orientação Lacaniana, uma vez que
a política do passe é o traço mesmo que distingue essa Orientação.
Para
se ter uma ideia mais precisa disso lembremo-nos que já no primeiro dia do
Congresso houve, pela manhã, quatro testemunhos do passe pronunciados por AEs
recém nomeados. Todos estes testemunhos foram comentados por Jaques-Alain
Miller, dentre eles o de Ana Lídia Santiago. Mas eu não poderia deixar de
mencionar o quanto fiquei impressionado com o testemunho, muito comentado por
Miller, de Paola Bolgiani (SLP). Se não me falha a memória, sua frase inicial foi
“passei a vida sustentando meu pai”, frase que se ancora numa fantasia cuja
imagem está inspirada na Pietá (em português Piedade) de Michelangelo,
a famosa escultura que representa Jesus Cristo morto nos braços da Virgem
Maria. Que imagem do pai morto! A qual, como sublinhou Miller, instalou o
sujeito na neurose, mas também lhe serviu como o lastro da sua escolha heterossexual
de objeto. Impossível dizer o quanto um testemunho do passe pode ser valioso
para nós praticantes! Mas, o mesmo pode ser dito para nós analisantes. O
testemunho de Paola se sobressai pela riqueza nos dados clínicos. O relato da
história do sujeito nos permite ter uma visão clara do real que esses mesmos
elementos históricos contornaram. Ou seja, a dimensão do objeto a e da travessia da fantasia, essencial
ao final de análise, ficou ali muito evidente para mim. Aguardemos ansiosos
pela sua publicação, para que possamos retomá-lo com mais detalhes.
No
dia seguinte, pela manhã, tivemos mais quatro testemunhos, desta vez comentados
por Éric Laurent. Dentre eles o de Graciela Brodsky, muito aplaudido por,
talvez, mais de duas mil pessoas (houve mais de dois mil inscritos). O fato de
que a maior parte desses inscritos não fossem membros das Escolas da AMP indica
a importância deste Congresso para os praticantes que ainda não possuem o
reconhecimento institucional.
Eu poderia comentar ainda
muito do que vi, como as mesas simultâneas, a esclarecedora Conferência final
de Miller que estabeleceu o tema do Real
no Século XXI para o próximo Congresso da AMP e tantos outros trabalhos
interessantíssimos (como o de Hugo Freda “Hacer”
amor), mas meu objetivo aqui é apenas marcar uma conclusão que me pareceu mais
essencial: a experiência do passe, transmitida pelos AEs, deve orientar nossa
clínica em toda sua extensão. Não se trata somente de saber como se dá um final
de análise, mas também do fato de que uma “análise que dura” – desde a entrada,
passando por todos os seus momentos tão singulares, até o seus impasses finais
– só estará bem orientada se o horizonte da travessia da fantasia, da
construção do objeto a e da
identificação ao sinthome já se
insinuar nos cálculos do psicanalista desde o começo. E não é em vão lembrar
que só há passe, no sentido do testemunho
de uma experiência, se houver Escola. É isso.
Um
ressoar da Argentina (Por Denizye Aleksandra Zacharias)
Este pequeno relato
nasce da contingência entre uma solicitação da coordenação da DG com o ressoar
que vem me instigando a escrever desde que retornei da Argentina.
É a primeira vez que
participo de um Congresso Internacional da AMP em que foi aberto para não
membros, e devo ressaltar foi uma experiência muito significativa em dois
aspectos:
Um primeiro aspecto,
nós aqui na DG/ Goiás-DF estamos atualizados nos estudos da psicanálise do
Campo Freudiano mediante o cartel de Orientação Lacaniana, de modo que posso
afirmar que nossos estudos têm como objetivo produzir efeitos na formação do
analista para a obtenção de alguns saberes.
Num segundo aspecto
que é sempre mais sutil, tem haver com as minhas impressões subjetivas, pois
são conduzidas por meu percurso.
Lacan sempre primou
pela política da Escola e para que esta não se oponha ao discurso analítico, ou
seja, às dimensões clínicas e epistêmicas, ele instituiu o passe como controle
da Causa Freudiana, como afirma Miller “para
por a profissão à prova da verdade....e não há adequação da palavra ao real”
(1ª lição, Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan, p. 25).
Desse modo, cada AE
pode testemunhar sua relação com o Real, ou seja, sua identificação com o sinthoma e o saber-fazer com Isso em sua
hytória com y, porém o que gostaria de destacar, em breves palavras, é que
no final de uma longa experiência de análise o que vem causar o sujeito é um “desejo inédito e impuro”.
O conceito de desejo
do analista é uma noção que aparece pela primeira vez no texto de Lacan de 1958
“A direção da cura e princípios do seu
poder” e ele aponta que este desejo deve ser questionado acerca da relação
entre trabalho analítico e sua dimensão ética, de modo que este desejo opõe à
identificação ao Ideal, está mais além do desejo de curar.
“El deseo del analista de dirige a S(A barrado ), al significante de la falta em
el Outro,
es um deseo de descompletar, es um operador que orienta el psicoanálisis hacia lo real, esto es, más
lejos que el inconsciente. Apunta a lo imposible de
realizar del inconsciente como saber, apunta al real de la falta de proporción sexual. ...Se trata ahora del sintoma en su
puro valor de uso, um uso que va más allá de su valor significante.... Se trata
ahora de un síntoma desabonado del aparato semántico que es
el inconsciente, y ésta es la manera más singular de
hacer com lo real que cada parlêtre tiene. Del sinthome uno no se desprende
puesto que sirve para anudar real, simbólico, e imaginário”. (Como se forman
los analistas? Xavier Esqué,
p.62)
Desse modo, através dos
relatos dos AES foi possível entender o propósito fundamental do passe
instituído por Lacan, é para manter aberta a pergunta acerca de:
O que é a psicanálise? Como é sua prática?
E para ressoar, finalizo com o poema do
poeta argentino Borges:
Não és os Outros
(Jorge Luis Borges,
in "A Moeda de Ferro")
Não há- de te salvar
o que te salvaram
Escrito aqueles que o
teu medo implora;
Não és os outros e
encontras-te agora
No meio do labirinto
que tramaram
Teus passos. Não te
salva a agonia
De Jesus ou de
Sócrates ou o forte
Siddharta de ouro que
aceitou a morte
Naquele jardim, ao
declinar o dia.
Também é pó cada
palavra escrita
Por tua mão ou o
verbo pronunciado
Pela boca. Não há
pena no Fado
E a noite de Deus é
infinita.
Tua matéria é o
tempo, o incessante
Tempo. E és cada
solitário instante.
AUTISMO
Reunião em 25/04/2012 – Buenos Aires –
VIII Congresso da AMP.
COORDENAÇÃO:
Leonardo Gorostiza - Presidente
da AMP. Presença/Participação de Judith Miller e Éric Laurent.
Por
Ordália Alves Junqueira*
Judith
Miller
inicia o encontro falando das flexões políticas a partir dos ataques ao
acompanhamento dos autistas. Pontua a necessidade de boas práticas e políticas
no que se refere a como tratar os autistas. A importância de ter uma resposta
frente ao futuro deles. Judith lembra a necessidade de se ter cuidado com os
ecos de ataque, de agressividade. “Podemos ter respostas não tão rápidas mais”
diz. Enfatiza a importância da opinião pública sobre o autismo. “O que podemos
fazer em outros países?” pergunta a psicanalista. Judith continua dizendo que “é importante os
analistas aprenderem a falar ao público”, propor casos clínicos para
entender e dizer em qual estado estava a criança autista, mostrando “a
diferença entre o antes e o depois do trabalho analítico”. Fazer
o público entender, não é um “mal estar” que os analistas tem que entender.
Finaliza dizendo que deseja agora, conhecer a situação dos outros países (além
da França).
Eric
Laurent:
Inicia sua fala trazendo a psicanálise como sendo interrogativa e podendo ser
até ofensiva quando se confronta com o comportamentalismo, por exemplo. Traz
três posições, a saber: o cientificismo, o comportamentalismo e o psicanalítico
frisando a importância de evitar o pior com posição clara para este
último (o psicanalítico). Fala do Texto do Instituto das crianças, no sentido
de atualização do autismo.
Laurent lembra o “Lacan
Cotidiano” da semana passada, onde traz que hoje, uma criança em 50
(cinquenta) é autista, sendo que, há pouco tempo atrás, esses números eram outros:
uma em cada 250 (duzentos e cinquenta) era autista. Isso é
absolutamente terrível, pois, exige boas soluções e rápidas com uma pressão
forte das associações de pais; acarretando conjunção de dispositivos legais e
um grande movimento de políticas sanitárias. Um crescimento enorme como um
“fenômeno” que há muito tempo não era visto. O efeito disto tem sido, por
exemplo, a criação de educadores comportamentalistas treinados em um mês para
atender as crianças autistas que crescem assustadoramente nas escolas. Há uma
luta contra os desgastes dos efeitos do tratamento comportamentalistas. Segundo
Laurent, nós analistas necessitamos efetivar a doutrina, pois, o que se tem
divulgado são doutrinas “pobres” como, por exemplo: “depressão maternal”
constatada nas mães das crianças autistas que não estimulam muito os seus
filhos, coisas que se proliferam de forma absurda e muitas outras.
Laurent enfatiza algumas
coisas que são essenciais hoje: a necessidade de aprofundar a diferença entre
autismo e psicose; o impacto da língua no corpo do sujeito autista; o fato que
teremos que incluir os pais das crianças autistas; uma responsabilidade em
atualizar os procedimentos que não produzem classificações segregativas.
Elaboração, no campo da Saúde Mental, quem vai se beneficiar ou não dessas
classificações. Laurent repete a importância dos pais dos autistas serem
chamados para a psicanálise; fazer reuniões com os pais e encontrar maneiras de
dirigirem as associações de pais de autistas. As classificações em aberto e com
pessoas que tem condições de participar de associações de pais, de
reconhecimento da importância deles no processo de condução hoje do destino que
se dará aos procedimentos de acompanhamento dos autistas no mundo no século XXI.
Os
analistas, segundo Laurent, deverão elaborar formas de se dirigir ao
público de forma aberta, utilizando-se, inclusive, da internet (estamos
no sec. XXI), com os devidos cuidados, é claro. Lembrando sempre, do que disse
Lacan: “...o que eu disse a mensagem vem de forma invertida, imediatamente”. É
importante incluir o público, inclusive a opinião administrativa, e os que
podem dar parecer sobre o assunto.
Laurent lembra que estamos frente a um Problema de Saúde Pública, a
médio prazo (5 anos) e a longo prazo poderá piorar se nada for feito. Trabalhar
muito para considerar uma forma de modernizar nossa maneira de pensar. Um
movimento analítico de forma geral, analistas que tem filhos autistas, por
exemplo, eles existem e podem ser muitos.
Algumas
questões deverão ser levantadas: O que significa o castigo, por
exemplo, na criança autista? (procedimento dos comportamentalistas). A escola
inclusiva: os professores encontram os comportamentalistas que querem fazer
programas individualizados; abandono da educação especial e inclusão, as
crianças em salas “normais”? Dentro de uma escola pública normal: a educação
que convém a uma criança autista? Alguns autistas de alto nível, por exemplo,
sendo educados de maneira brutal e segregativa. Laurent faz referência ao texto em francês: “Escutar os autistas”, que
fala da crueldade inútil utilizada pelos comportamentalistas.
Neste
momento Laurent chama os analistas à algumas responsabilidades, a saber:
dirigirem-se a representantes de setores para juntos construírem inovações
de doutrinas; ocuparem uma “posição central” não estando nos ministérios
mas estarem do lado de fora para impedir leis aversivas. Enfim, manter-se na posição contrária e pontualmente ajudar: posição do
mais-um (fora) e posição de facilitador (dentro).
PERGUNTAS DO PÚBLICO:
Elisa Alvarenga, traz uma
lei que está tramitando no Paraná (...) onde se coloca os autistas dentro da
classificação de portadores de necessidades especiais para que os mesmo possam
se beneficiar disso, como por exemplo: atendimento médico, passe livre, dentre
outros.
Laurent
faz um chiste: “Mais
vale um bom deficiente que um psicótico abandonado, sem nenhum direito...”,
dizendo que esta situação está à mostra no mundo todo, complementando ser impossível reduzir a patologia de
deficiente, é impossível, pois “sufre” e implica a psiquiatria. A educação,
por natureza, é comportamentalista e produz fatalmente a segregação. A educação
cruel, tomar contato com os autistas não é fácil, as medicações para crianças
pequenas, à partir de dois anos, implicando a neurologia e a psiquiatria.
Então, a Educação, a Neurologia e a Psiquiatria juntas. A Psicanálise pode ser o maquinário antisegregativo.
Necessitamos
também, segundo Laurent, fazer uma “publicidade negativa” como, por exemplo:
não é só a psicanálise que está mal, cuidados que se deve ter, “caso não
utilizar da psicanálise pode se dar mal...”. (Importância de fazer a parceria
com os pais de autistas que estão sendo acompanhados pela psicanálise, como
Judith Miller pontuou no início: existe um antes e um depois do
encontro do autista com o analista.)
Em
resposta a outra pergunta (...) sobre uma lei na Argentina onde rege sobre o tratamento dos autistas, uma
parte está assim escrito: Como
tratamento a TCC “dentre outras”, e Laurent diz imediatamente: nessa
“brecha” podemos entrar, sendo enfático: “isso nos interessa”. Lembra que existe uma diferença grande entre
“Condicionamentos e castigos das TCC” e a “Insistência psicanalítica”, finalizando
assim sua brilhante palestra.
*Coordenadora
de Biblioteca da Delegação Geral GO-DF-Brasil, presente na reunião.





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