Por Ruskaya Maia – Coordenadora de Cursos da DG GO/DF
A última
reunião da primeira turma do curso de extensão da DG GO/DF foi marcada de boas
surpresas. Planejada para ser, além de uma confraternização para a entrega dos
certificados, uma atividade epistêmica, teve os alunos como protagonistas,
ocupando o lugar de transmissão. Ao todo, foram apresentados cinco trabalhos,
feitos por eles a partir de questões propostas pelos professores, que apenas
serviram como mote para suas elaborações.
Edna
Peixoto escolheu trabalhar a questão das entrevistas preliminares, tema do
último módulo do curso, que teve como objetivo abordar a clínica psicanalítica
diretamente. Edna destacou com muita acuidade a importância dessas entrevistas
para a condução de uma análise, abordando-as em relação às vertentes da
transferência, do diagnóstico e da abertura ao inconsciente, enfatizando,
ainda, que elas são um instrumento necessário e ético na direção do tratamento
para o analista que atua na abordagem psicanalítica lacaniana.
Luísa
Carvalho elegeu trabalhar um conceito privilegiado por Lacan em seu retorno a
Freud com sua tese do inconsciente estruturado como linguagem: o sujeito
dividido. A pertinência dessa escolha sempre se confirma, não só porque
esse é um conceito fundamental nessa elaboração, mas também porque seu entendimento
sempre se mostra difícil para aqueles que se iniciam nos estudos lacanianos.
Luísa, em seu texto, soube marcar com simplicidade a diferença entre o eu e o
sujeito do inconsciente, definido por ela como o senhor da dúvida e da
incerteza, sem substância e impalpável, atravessado pela linguagem, sendo, por
isso, dividido, faltoso e desejante.
Com o
título ‘O Édipo em três tempos – a função paterna’, Mário Batista Neto
discorreu sobre o lugar do pai, tema central na chamada ‘primeira clínica
lacaniana’. O autor se dedicou em demonstrar como a metáfora paterna é uma
etapa fundamental que organiza para o sujeito uma cadeia simbólica, uma vez que
o desejo da mãe, não regulado pela lei, faz uma incógnita para a criança e o
nome-do-pai vem como o significante que porta a lei organizadora, fundando
assim o simbólico. Mário marca, assim, com propriedade, que a elaboração
lacaniana permite a passagem do mito ao matema, ou seja, da tragédia grega à
história individual de cada um.
O pai,
como conceito, permanece sendo tema no trabalho apresentado por Juliana Melo,
que se ocupou do texto freudiano ‘Totem e Tabu’ para destacar a função do mito
(no plano coletivo) e da fantasia (no individual) de forjar sentido e resposta
para as questões que permanecem insolúveis, como por exemplo, as questões sobre
a origem e a morte. Mais que se preocupar com a veracidade do mito e com a
legitimidade de sua suposição, trata-se de entender que tanto o mito quanto a
fantasia, por si mesmos, estruturam a realidade. Juliana destaca ainda que, quando
Lacan propõe seu retorno a Freud, o faz devolvendo ao pai sua majestade,
deixando claro que para a psicanálise há uma distinção entre pessoa e função,
ou seja, uma distância entre a função paterna e o pai propriamente dito, sendo
que a função paterna é operadora e reguladora.
A partir
dessa teorização, Thaís Foizer trouxe para a discussão um exemplo clínico,
inaugurando, em sua formação, a sistematização de sua prática clínica a partir
da construção de um caso. Mais que tecer o necessário fio entre a prática e a
teoria, Thaís realiza o que foi muitas vezes apontado por Lacan: a vinculação
entre a técnica, a ética e a política na clínica psicanalítica.
Depois
das apresentações, a palavra circulou entre todos, professores e alunos, que
puderam dar testemunho de que o curso cumpriu muito bem seus objetivos: além de
iniciar os alunos no saber que se produz no campo freudiano, o fez a partir da
letra viva de Freud e Lacan, o que possibilitou a cada um, a seu modo,
apropriar-se do saber ali construído e dar um passo importante em sua formação.
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