28 de jun. de 2012

REVISTA LACAN COTIDIANO

TRECHO DE LACAN COTIDIANO Nº 211 PORTUGUÊS


 VAMOS! 
DEBATE BOLOGNA

No Congresso, com a doutrina do passe
Céline Menghi

Freud captou a potência da pulsão, aspecto de resíduo insistente que contrasta com o princípio do prazer.
A psicanálise nos tempos de Freud apresentava-se, já, com seu caráter de peste.
Com Lacan, a psicanálise se coloca transversalmente à sociedade, pondo a nu o que foge do ideal e o fato de que as identificações dão cobertura de maneira ilusória. JAM, em uma de suas conferências espanholas, diz que “é o caráter asocial da psicanálise – não me apresso em difiní-la como antisocial – que nos faz pouco aceitos nos espaços oficiais”.
Hoje, na época da correria às identificações, da bulimia de gozos para todos, a psicanálise, para fazer frente à ingovernabilidade e irredutibilidade do gozo problemático para cada um, opta, com o discurso analítico, pela singularidade das soluções do sujeito e não pelo remédio universal que liquida o resíduo do sintoma, quando mesmo não o oblitera.
Como confirmam os ataques à psicanálise – refiro-me às infâmias dirigidas a quem trabalha com o autismo sem etiquetá-lo simplesmente como patologia orgânica ou comportamento a ser corrigido –, como confirma a posição da OMS frente à assim chamada saúde mental, com a oficialização de protocolos detalhados que avalizam terapias para todos os distúrbios que começam com dis…, hoje é cada vez mais evidente que a psicanálise com o discurso do analista, não compartilha com tais modalidades de abordagem que sustentam o programa da civilização.
A clínica demonstra cotidianamente, como poderemos escutar nas apresentações de casos clínicos durante o Congresso, que é através do levar em conta os traços da língua de cada um deixados no corpo, que se pode abrir o acesso aos recursos do um por um dos falasseres, a fim de que se produzam soluções únicas e singulares, que não têm relação com o comportamento ou a adaptação. A resposta ao sofrimento do ser humano não reside no sentido, no número, na cifra da identificação, e tampouco na bela forma, mas no defeito, no resto, no disfuncionamento, naquilo que de opaco pertence ao ser humano e lhe faz a diferença.
O discurso analítico se interessa pelo que não funciona, por isso, como sublinha JAM com frequência, ele é antieconômico, se confrontado com as leis que regem a economia do mundo – economia que hoje faz água por todas as partes -, mas, é econômico do ponto de vista do sujeito – e talvez seja isso que nós analistas devamos conseguir contrabandear. Trata-se de uma “outra economia”, uma economia, então, que não se funda somente no Um completamente só, mas leva em conta o Outro, O Outro do feminino, o Outro separado do Um, o Outro livre das identificações rígidas ou postiças, aquele Outro de uma outra solidão: o Outro do corpo.
>> Ler a continuação: www.lacanquotidien.fr

26 de jun. de 2012

NOTÍCIAS DE BRASÍLIA

Contingências e Encontros


Por Jaqueline Coelho


O dia 22 de junho era aguardado ansiosamente, já que um importante evento seria empreendido pela Delegação Geral GO/DF em Brasília. A programação contava com uma mesa preparatória para o XIX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano e uma mesa de lançamento do livro Autismo(s) e atualidade: uma leitura lacaniana. A presença de nossa Conselheira prestigiaria uma tarde de intenso trabalho.

Às 8:30h da manhã, antes mesmo de sair de Goiânia, recebi uma mensagem de Rosário informando que seu vôo atrasaria porque o Santos Dumont estava fechado em razão do mau tempo. Começou, então, uma torcida para que a situação se revertesse, já que o início das atividades estava previsto para 14 horas.

Ainda na estrada, já as 10:20h, chegou a notícia de que o vôo continuava sem previsão de saída. Às 11h, a única novidade era que o vôo, que deveria ter saído às 8:38h, havia sido cancelado e a passageira seria transferida para outro, ainda sem previsão. Toda uma programação, que incluía, confortavelmente, possibilidades de descanso e almoço fora atropelada pela contingência do mau tempo. A torcida, nesse momento, era para que o deslocamento de Rosário ainda se mostrasse vantajoso para ela própria quando o vôo fosse liberado.

Eis que, apesar de toda a complicação, a conselheira chegou ao local do evento às 14:30h, ainda a tempo de assistir a mesa de abertura. A essa mesa, seguiu a discussão sobre o feminino, com os trabalhos teóricos de Ruskaya e Simone e o caso clínico de Raquel. As discussões foram interessantes e mobilizaram a participação dos ouvintes.

A mesa sobre o Autismo revelou-se uma grata surpresa. Ela contou com a presença de Silvana Modesto, de Valdelice França, coordenadora do CAPSi e Maria do Rosário. A contribuição de Silvana Modesto, que é mãe de um autista, já era marcada por grande expectativa de minha parte. Entretanto, o que se produziu a partir de seu depoimento superou todas as apostas. Com muita sensibilidade e generosidade, Silvana compartilhou com os presentes suas experiências como mãe, passando pela demora no diagnóstico, que só foi fechado quando a criança contava com 8 anos, pela recusa em aceitar o rótulo de retardo mental e pelos diversos tratamentos empreendidos.

Silvana compartilhou as fases pelas quais teve de passar antes de compreender a realidade do filho e a dificuldade ocasionada pelo sentimento de culpa que a assolava. A decisão de ser feliz veio com o tempo. O diagnóstico possibilitou alívio porque, enfim, norteava um caminho a ser trilhado. Junto à experiência com o filho, fez-se possível a aprendizagem quanto ao respeito devido a ele e à consideração de que ele tem suas próprias vontades/desejos. Para finalizar, Silvana, a partir da vivência diária com o filho, discordou das considerações de que o autista não faz contato visual, não tem sentimentos e não sente dor. Ela também fez considerações críticas acerca do uso do medicamento e das escalas de avaliação.

O depoimento da mãe convidada revelou-se um grande encontro. Antes mesmo de sua fala, ela justificou-se que não falaria como profissional, sem saber que sua experiência é o que nos proporcionaria de mais valioso.

Outra grata surpresa foi o comparecimento da maior parte dos integrantes da DG, que deixaram seus afazeres em plena sexta-feira à tarde para dividir conosco esse momento, o qual só foi tão bem sucedido em razão da colaboração de várias pessoas.

Nesse sentido, a equipe de coordenação agradece a todos os presentes, em especial a Giovanna Quaglia e Christielle — pelo apoio na organização —, a Ruskaya, Simone e Raquel — pela disponibilidade na feitura e apresentação dos trabalhos —, bem como Waléria e Antônio — pelo material de divulgação —, além de Cristiano — pelo contato com Silvana — e Maria do Rosário — por não ter desistido frente a contingência imposta pela natureza e ter demonstrado um desejo decidido em contribuir com a psicanálise nesse espaço aberto pela DG GO/DF.




8 de jun. de 2012

Trecho da revista eletrônica LACAN COTIDIANO


28 de maio de 2012٠ 21h30 [GMT+ 1]
NÚMERO 216
Eu não teria perdido um Seminário por nada nesse mundo— Philippe Sollers
Ganharemos porque não temos outra escolha — AgnÈs Aflalo


O REAL NO SÉCULO XXI

APRESENTAÇÃO DO TEMA
DO IX CONGRESSO DA AMP

CONFERÊNCIA DE JACQUES-ALAIN MILLER
27 de abril de 2012 – Buenos Aires



N
ão os farei esperar mais pelo tema do próximo Congresso. Uma nova série de três temas começou com este Congresso : « A ordem simbólica no século XXI ». Será uma série especialmente dedicada ao aggiornamento, como se diz em italiano, à atualização de nossa prática analítica, de seu contexto, de suas condições, de suas coordenadas inéditas no século XXIno momento em que se desenvolve o que Freud chama: «O mal-estar na cultura», que Lacan lerá como os impasses da civilização.
Trata-se de deixar para trás de nós o século XX, para renovar nossa prática no mundo, ele mesmo bastante reestruturado por dois fatores históricos, dois discursos: o discurso da ciência e o discurso do capitalismo. Estes discursos dominantes da modernidade começaram, desde seu aparecimento, a destruir a estrutura tradicional da experiência humana. O domínio combinado desses dois discursos, cada um se apoiando no outro, tomou tal amplitude que conseguiu destruir, e talvez estraçalhar, os fundamentos mais profundos da tradição.
Vimos isso, durante este Congresso, com o transtorno advindo na ordem simbólica, cuja pedra angular o Nome-do-Pai está fissurada. E, como diz Lacan com extrema precisão, o Nome-do-Pai segundo a tradição foi tocado, desvalorizado, pela combinação dos dois discursos, o da ciência e o do capitalismo. O Nome-do-Pai é uma função chave do primeiro ensino de Lacan ; pode-se dizer que ela é reconhecida através de todo o campo analítico, quer seja lacaniano ou não.
Esse Nome-do-Pai, essa função chave o próprio Lacan a rebaixou, depreciou ao longo de seu ensino, acabando por fazer do Nome-do-Pai nada mais que um sinthoma, ou seja, uma suplência ao furo. Podemos acrescentar aqui, nesta assembleia – fazendo um curto-circuito – que esse furo preenchido pelo sintoma Nome-do-Pai reenvia ao impossível da relação sexual na espécie humana, a espécie dos seres vivos que falam. O declínio do Nome-do-Pai na clínica introduz uma perspectiva inédita apreendida por Lacan sob a fórmula: «Todo mundo é louco, quer dizer, delirante». Isso não é um chiste, estende-se a categoria da loucura a todos os seres falantes: aqueles que sofrem por não ter nenhum saber sobre o sexo. Esta frase, este aforismo, diz respeito ao que está dividido nas diversas estruturas clínicas: neurose, psicose e perversão. Isso bascula, balança, a diferença feita até então entre neurose e psicose, base para o diagnóstico psicanalítico e tema inesgotável dos ensinos.
Para o próximo Congresso, eu proponho que examinemos as consequências dessa perspectiva, estudando o real no século XXI
Lacan faz desta palavra: «o real», um uso que lhe é próprio, que não foi sempre o mesmo e que teremos de esclarecer. Contudo, creio que haja uma maneira de dizê-lo que apresenta um tipo de evidência para cada um, para todos aqueles que vivem no século XXI, além dos lacanianos. É, pelo menos, um tipo de evidência para aqueles que foram formados no século XX, e que hoje e por algum tempo são do século XXI.
Há uma grande desordem no real.
Este é o título que proponho para o Congresso de Paris 2014: «Uma grande desordem no real no século XXI»
Gostaria de comunicar-lhes agora minhas primeiras reflexões sobre este tema, sobre este título, cuja formulação encontrei há dois dias. São reflexões arriscadas, para dar início à nossa conversação sobre a Escola Una, que vai durar dois anos, e não para encerrá-la.
A primeira reflexão que me ocorreu, eu a tomei como ela se apresentava, é a seguinte: antes, o real se chamava a natureza. A natureza era o nome do real, quando não havia desordem no real. Quando a natureza era o nome do real, podia-se dizer, como o fez Lacan, que o real volta sempre ao mesmo lugar. Somente  nessa época, naquela em que o real se disfarçava de natureza, o real parecia ser a manifestação mais evidente e mais elevada do conceito de ordem. Ao real que volta sempre ao mesmo lugar, Lacan opunha o significante, que se caracteriza por estar sempre se deslocando, a Enstellung –como dizia Freud. O significante se conecta, se substitui de forma metafórica ou metonímica e retorna ali onde não se espera, de surpresa. Ao contrário, o real – na época em que ela se confundia com a natureza – se caracterizava por não surpreender. Podia-se esperá-lo tranquilamente no mesmo lugar e na mesma data. Os exemplos de Lacan ilustram isto,  como o retorno anual das estações, o espetáculo do céu e dos astros. Toda a antiguidade está apoiada nisso, com os rituais chineses, os cálculos matemáticos baseados na medida dos astros, etc. Pode-se dizer que,  nessa época, o real enquanto natureza tinha a função de Outro do Outro. O real era a própria garantia da ordem simbólica.
Assim, a agitação retórica do significante no dizer humano estava enquadrada por uma trama de significantes fixos como os astros. A natureza – esta é sua definição - se define por ser ordenada, quer dizer, por ser a conjunção do simbólico e do real. De tal maneira que, segundo a tradição mais antiga, toda ordem humana devia imitar a ordem natural. Sabe-se bem, por exemplo, que a família como formação natural servia de modelo para o ordenamento dos grupos humanos e que o Nome-do-Pai era a chave do real simbolizado.
Os exemplos desse papel da natureza não faltam na história das ideias. Eles são abundantes e não tenho tempo para me estender acerca disso hoje. Esses serão pontos a ser explorados. Explorar a história da ideia de natureza, com a fórmula posta de que a natureza era o real, a ordem. Por exemplo, o mundo com a física de Aristóteles se ordena segundo duas dimensões invariáveis: o mundo de cima, separado do mundo sublunar, e cada ser buscando seu próprio lugar. É assim que funciona essa física, que é uma tópica, quer dizer, um conjunto de lugares bem fixados.
Com a chegada do Deus da criação, o Deus dos cristãos, a ordem permanece vigente, na medida em que a natureza criada por Deus responde à sua vontade. É a ordem divina, mesmo que não exista mais a separação dos dois mundos aristotélicos. A ordem divina é como uma lei promulgada por Deus e encarnada pela natureza. A partir daí se impõe a lei natural.
O conceito da lei natural emana deste ponto. São Tomás de Aquino dá a esta lei uma dimensão imperativa. Noli tangere natura: «Não tocar a natureza». Tinha-se realmente o sentimento de que se podia tocá-la, face aos atos humanos que iam contra a lei natural, por exemplo, os atos de barbárie, que se opunham ao imperativo de não tocar a natureza.
Devo dizer, mesmo que essa não seja a opinião de todos aqui, que considero admirável a maneira como a igreja católica, ainda hoje, luta para proteger o real, sua ordem natural, nas questões da reprodução, da sexualidade ou da família. São elementos anacrônicos, mas que testemunham a duração e a solidez desse discurso antigo. Aí está um discurso admirável como causa perdida, pois todo mundo se dá conta que o real não está mais na natureza. Desde o início, a Igreja tinha entendido que o discurso da ciência ia tocar o real enquanto natureza, que ela protegia. Mas não bastava encarcerar Galileu para deter a irresistível dinâmica científica. Não bastava qualificá-la de turpitudo – em latim – a avidez pelo ganho, a ganância, para deter a dinâmica do capitalismo. São Tomás utiliza a palavra latina turpitudo para falar do progresso. Causa perdida? Lacan dizia, no entanto, que a causa da igreja anunciava, talvez, um triunfo. Por que? Por que o real, destacado da natureza é pior e se torna cada vez mais insuportável. Nostalgia de uma ordem perdida que, ainda que impossível de recuperar, segue vigente como uma ilusão.
Antes do aparecimento do discurso da ciência, se desenhava um desejo de tocar o real, agindo sobre a natureza : domesticá-la, mobilizar e se servir de sua potência. Como ? Antes da ciência, um século antes do aparecimento do discurso científico, esse desejo se manifestava na magia. A magia é outra coisa que o truque do mágico para distrair as crianças. Lacan lhe confere tão grande importância que, em seu último texto dos Escritos: «A ciência e a verdade», ele inscreve a magia como uma das condições fundamentais da verdade: magia, religião, ciência e psicanálise. Quatro termos que já antecipam os famosos «quatro discursos».
A magia é o apelo direto ao significante da natureza pelo encantamento. O mágico fala para fazer falar a natureza, para perturbá-la, para infringir a ordem divina do real. Os mágicos foram perseguidos, pois a magia era da ordem da bruxaria. Contudo, a moda da magia já era um desejo de discurso científico. É a tese da erudita Frances Yates, que considera que o hermetismo preparara o discurso científico. É um fato histórico que o próprio Newton foi um distinto alquimista. Ela escreveu sobre Keynes, o economista, que dizia que Newton tinha passado mais tempo se ocupando da alquimia que das leis da gravitação. Esse ramo da história da ciência será um ponto a ser estudado. Mas seguiremos, principalmente, a Alexandre Koyré que ressalta a diferença entre a magia, que faz falar a natureza, e a ciência, que a faz se calar. A magia é encantamento, ocultação, retórica. Com a ciência se passa da fala à escritura, conforme o dizer de Galileu: «a natureza está escrita em linguagem matemática».
Lacan, no fim de seu ensino, não hesitava em se perguntar se a psicanálise – quando já não pensava mais em transformar a psicanálise em ciência – não estaria mais do lado da magia. Ele disse isto apenas uma vez, mas é preciso levar em conta. Assiste-se a uma mutação da natureza, que se pode apreender pelo aforismo de Lacan: «Há um saber no real». Eis aí o novo: alguma coisa que se escreve no próprio coração da natureza. Continuou-se a falar de Deus e da natureza, mas Deus é apenas um sujeito suposto saber no real. A metafísica do século XVII descreve um Deus do saber que calcula, como diz Leibniz, ele mesmo é o cálculo, precisa Espinoza. É um Deus matematizado.
A referência a Deus permitiu, velando a antiga face de Deus, a passagem do cosmos finito ao universo infinito. Com o universo infinito da física matemática, a natureza desaparece e os filósofos do século XVIII fazem dela apenas uma instância moral. O universo infinito faz a natureza desaparecer e desvela o real.
Eu me perguntei sobre a fórmula: «Há um saber no real». Seria tentador dizer que o inconsciente se situa nesse nível. Mas, ao contrário, a suposição de um saber no real parece ser o último véu a se levantar. Se há um saber no real, há uma ordem que o saber científico pode prever. O saber científico permite, de fato, prever, é seu orgulho, já que ele demonstra a existência de leis, e não há necessidade que elas sejam enunciadas por um deus, para que vigorem. É através dessa ideias das leis que a velha ideia da natureza se cristaliza na expressão: «As leis da natureza». Einstein, como diz Lacan, se referia a um deus honesto, que rejeita todo acaso. Era sua maneira de se opor às consequências da física quântica de Max Planck. Existia, em Einstein, uma tentativa de deter o discurso da ciência e a revelação do real. Pouco a pouco, a física cedeu lugar à incerteza e ao acaso, ou seja, a um conjunto de noções que ameaça o sujeito suposto sabe. Não se pôde mais fazer a equivalência entre o real e a matéria. Com a física subatômica, os níveis da matéria se multiplicam, e o A da matéria, como o A da mulher, desaparece. Posso fazer aqui um atalho: em relação à importância das leis da natureza, entende-se a repercussão que teria o aforismo de Lacan: «o real é sem lei», que testemunha uma ruptura total entre a natureza e o real. Ela rompe, de maneira definitiva, a conexão entre a natureza e o real. Ela ataca a inclusão do saber no real, que mantém a subordinação ao sujeito suposto saber.
Na psicanálise não há saber no real. O saber é uma elucubração sobre o real, um real desprovido de toda suposição de saber. Pelo menos é assim que Lacan inventou o real, até se perguntar se isso não era seu sintoma, se não era a pedra angular que mantinha a coerência de seu ensino. O real sem lei  parece impensável. É uma ideia limite que quer dizer, primeiro, que o real é sem lei natural. Por exemplo, tudo que tinha sido a ordem imutável da reprodução se move e se transforma, seja no nível da sexualidade ou da constituição do ser humano, com todas as perspectivas que aparecem hoje, no século XXI, para melhorar a biologia da espécie.
O século XXI se anuncia como o grande século da bioengineering, que abrirá a porta para todas as tentações da eugenia. A melhor ilustração disso que experimentamos, hoje, se encontra no «Manifesto comunista» de Karl Marx, a respeito dos efeitos revolucionários do discurso do capitalismo na civilização.
Gostaria de ler para vocês algumas frases de Marx, que ajudam a refletir sobre o real:
«A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, o que quer dizer, as relações de produção, quer dizer, o conjunto das relações sociais. (…) Esse constante abalo de todo sistema social. (…) Todas as relações sociais, cristalizadas e cobertas de ferrugem, com seu cortejo de concepções e de ideias antigas e veneradas, se dissolvem;(…) Tudo que tinha solidez e permanência se esvai como fumaça, tudo que era sagrado é profanado…»
O capitalismo mais a ciência estão ligados para fazer a natureza desaparecer, e o que resta desse desaparecimento é o que chamamos o real, um resto, e, por estrutura, desordenado. Toca-se o real por todos os lados, segundo os avanços do binário capitalismo-ciência, de maneira desordenada, ao acaso, sem que se possa recuperar a menor ideia de harmonia. Houve um tempo que Lacan falava do inconsciente como um saber no real, quando ele dizia que ele era estruturado como uma linguagem. Ele buscava, então, as leis da fala, a partir da teoria do reconhecimento de Hegel : reconhecer para ser reconhecido. As leis do significante, a relação de causa e efeito entre significante e significado, entre metáfora e metonímia, ele as apresentava como saber ordenado, sob a forma dos grafos, sob o predomínio do Nome-do-Pai na clínica e no registro fálico da libido. Mas, em seguida, outra dimensão apareceu com lalíngua, pois, se há leis da linguagem, não há leis da dispersão e da diversidade das línguas. Cada língua é forjada pela contingência e pelo acaso. É por isso que o inconsciente tradicional –para nós, o inconsciente freudiano–  nos aparece como uma elucubração de saber sobre um real, uma elucubração transferencial de saber, que acrescenta a esse real uma função de sujeito suposto saber, pronta para se encarnar em outro ser vivo. O inconsciente, se ele pode se ordenar enquanto discurso, só é extraído da experiência analítica, e a elucubração transferencial visa dar sentido à libido, condição necessária para que o inconsciente seja interpretável. Isso supõe uma interpretação prévia, quer dizer, que o inconsciente interprete.
O que o inconsciente vai interpretar? Para responder a esta pergunta, é preciso introduzir a palavra: «real». Na transferência, é o sujeito suposto saber que interpreta o real. O que se elabora é um saber não no real, mas sobre o real. É aí que situamos o aforismo: «o real não tem sentido», que é uma condição do real. Na medida em que se chegou ao que está fora do sentido, pode-se pensar que se saiu das ficções construídas em nome de um querer dizer. «O real não tem sentido», não responde a nenhum querer dizer, o sentido vem com a elucubração fantasmática. Os testemunhos de passe, essas pedras preciosas de nossos congressos, são os relatos da elucubração fantasmática de cada um, a partir da expressão e da construção singular de sua experiência analítica reduzida a um núcleo, a um pobre real que se atenua até se tornar um puro encontro com lalíngua e seus efeitos de gozo sobre o corpo. Um puro choque pulsional.
O real não é um cosmos, um mundo, nem uma ordem, é um fim, um fragmento assistemático, separado do saber da ficção, que nasce desse encontro com lalíngua e o corpo. O encontro não responde a nenhuma lei prévia, ele é contingente e perverso, pois se traduz por um desvio do gozo, com relação ao que ele deveria ser. O real inventado por Lacan não é o real da ciência. É um real do acaso, contingente, já que lhe falta a lei natural da relação sexual; é um furo de saber no real. Lacan se serviu da linguagem matemática, que convém mais à ciência. Nas fórmulas da sexuação, por exemplo, ele tentou apreender os impasses da sexualidade a partir da lógica matemática. Essa foi uma tentativa heróica para fazer da psicanálise uma ciência do real, da mesma maneira que a lógica, mas isso só podia se dar encerrando o gozo na função fálica, num símbolo. A simbolização do real tem como consequência reenviar ao binário homem/mulher, como se os seres falantes pudessem também ser distribuídos claramente, no momento em que vemos, no real do século XXI, uma desordem crescente da sexuação. É uma consequência secundária que se segue ao choque inicial do corpo com lalíngua, o real sem lei e sem lógica. A lógica acontece somente depois, com a elaboração, o fantasma, o sujeito suposto saber e a psicanálise.
Até este dia, sob a influência do século XX, nossos casos clínicos são construções lógicas de uma clínica sob transferência. A relação de causa/efeito é um prejulgamento científico, que se apóia sobre o sujeito suposto saber. A relação de causa e efeito não conta do ponto de vista do real sem lei, conta apenas como ruptura entre causa e feito. Donde, o chiste de Lacan: «Se vocês entendem como funciona a interpretação, não é uma interpretação». Com a psicanálise, essa que Lacan nos convida a exercer, encontra-se a ruptura do laço de causa a efeito, a opacidade do laço, e, é por isso que falamos de inconsciente. Dizendo de outro modo, a psicanálise encontra o recalcado e a interpretação do recalcado, graças ao sujeito suposto saber. No século XXI, a psicanálise deve seguir outra via : a da defesa contra o real sem lei e sem sentido. Lacan nos indica a via do real, assim como Freud fez com o conceito mítico da pulsão. O inconsciente lacaniano, do último Lacan, está no nível do real, digamos para simplificar : « sob » o inconsciente freudiano. Para entrar no século XXI, nossa clínica deverá se centrar na maneira de incomodar a defesa, de desregrá-la contra o real.
Numa análise, o inconsciente transferencial é uma defesa contra o real, que conserva uma intenção, um querer dizer, enquanto o inconsciente real não tem intencionalidade, mas se exprime por um: «É assim.», é nosso «Amém».
Várias questões se colocarão para o próximo Congresso: a redefinição do desejo do analista, que não é um desejo puro, nos diz Lacan, não é uma metonímia infinita, seria mais um desejo de atingir o real, de reduzir o outro a seu real e liberá-lo do sentido.
Lacan tentou representar o real como um nó borromeano. Perguntaremo-nos no que vale essa representação, em que ela nos serve hoje. Lacan se serviu do nó, de sua paixão pelo nó borromeano, para tocar essa zona irremediável da existência, como Édipo em Colona, onde se encontra a ausência absoluta de amor, de fraternidade e de todo sentimento humano. Eis onde nos conduz a busca do real desprovido de sentido.
Nossos agradecimentos a Chantal Bonneau por seu trabalho de tradução. NDLR.

5 de jun. de 2012

Encontro final da primeira turma do Curso introdutório à psicanálise de Orientação Lacaniana

Por Ruskaya Maia – Coordenadora de Cursos da DG GO/DF

A última reunião da primeira turma do curso de extensão da DG GO/DF foi marcada de boas surpresas. Planejada para ser, além de uma confraternização para a entrega dos certificados, uma atividade epistêmica, teve os alunos como protagonistas, ocupando o lugar de transmissão. Ao todo, foram apresentados cinco trabalhos, feitos por eles a partir de questões propostas pelos professores, que apenas serviram como mote para suas elaborações.  
Edna Peixoto escolheu trabalhar a questão das entrevistas preliminares, tema do último módulo do curso, que teve como objetivo abordar a clínica psicanalítica diretamente. Edna destacou com muita acuidade a importância dessas entrevistas para a condução de uma análise, abordando-as em relação às vertentes da transferência, do diagnóstico e da abertura ao inconsciente, enfatizando, ainda, que elas são um instrumento necessário e ético na direção do tratamento para o analista que atua na abordagem psicanalítica lacaniana.
Luísa Carvalho elegeu trabalhar um conceito privilegiado por Lacan em seu retorno a Freud com sua tese do inconsciente estruturado como linguagem: o sujeito dividido.  A pertinência dessa escolha sempre se confirma, não só porque esse é um conceito fundamental nessa elaboração, mas também porque seu entendimento sempre se mostra difícil para aqueles que se iniciam nos estudos lacanianos. Luísa, em seu texto, soube marcar com simplicidade a diferença entre o eu e o sujeito do inconsciente, definido por ela como o senhor da dúvida e da incerteza, sem substância e impalpável, atravessado pela linguagem, sendo, por isso, dividido, faltoso e desejante.
Com o título ‘O Édipo em três tempos – a função paterna’, Mário Batista Neto discorreu sobre o lugar do pai, tema central na chamada ‘primeira clínica lacaniana’. O autor se dedicou em demonstrar como a metáfora paterna é uma etapa fundamental que organiza para o sujeito uma cadeia simbólica, uma vez que o desejo da mãe, não regulado pela lei, faz uma incógnita para a criança e o nome-do-pai vem como o significante que porta a lei organizadora, fundando assim o simbólico. Mário marca, assim, com propriedade, que a elaboração lacaniana permite a passagem do mito ao matema, ou seja, da tragédia grega à história individual de cada um.
O pai, como conceito, permanece sendo tema no trabalho apresentado por Juliana Melo, que se ocupou do texto freudiano ‘Totem e Tabu’ para destacar a função do mito (no plano coletivo) e da fantasia (no individual) de forjar sentido e resposta para as questões que permanecem insolúveis, como por exemplo, as questões sobre a origem e a morte. Mais que se preocupar com a veracidade do mito e com a legitimidade de sua suposição, trata-se de entender que tanto o mito quanto a fantasia, por si mesmos, estruturam a realidade. Juliana destaca ainda que, quando Lacan propõe seu retorno a Freud, o faz devolvendo ao pai sua majestade, deixando claro que para a psicanálise há uma distinção entre pessoa e função, ou seja, uma distância entre a função paterna e o pai propriamente dito, sendo que a função paterna é operadora e reguladora.
A partir dessa teorização, Thaís Foizer trouxe para a discussão um exemplo clínico, inaugurando, em sua formação, a sistematização de sua prática clínica a partir da construção de um caso. Mais que tecer o necessário fio entre a prática e a teoria, Thaís realiza o que foi muitas vezes apontado por Lacan: a vinculação entre a técnica, a ética e a política na clínica psicanalítica.
Depois das apresentações, a palavra circulou entre todos, professores e alunos, que puderam dar testemunho de que o curso cumpriu muito bem seus objetivos: além de iniciar os alunos no saber que se produz no campo freudiano, o fez a partir da letra viva de Freud e Lacan, o que possibilitou a cada um, a seu modo, apropriar-se do saber ali construído e dar um passo importante em sua formação.


O autismo na psicanálise

                                  
COMUNICAÇÃO NA MESA DE LANÇAMENTO DO LIVRO:
AUTISMO (S) E ATUALIDADE: UMA LEITURA LACANIANA (ORG.: ALBERTO MURTA ; ANALICEA CALMON; MÁRCIA ROSA)

                                                           Por Ceres Lêda Félix de Freitas Rubio

            Como coordenadora do Núcleo de Pesquisa de Psicanálise com criança – Biloquê, representando todos aqueles que participam desse lugar de estudo, compartilho minha alegria agora, com todos aqueles que se interessam pela criança, seja na clínica psicanalítica ou pela prática com a criança na escola ou em instituição de ensino especial. Compartilho, também, com os profissionais da saúde e incluo aqui os psiquiatras, os neurologistas que recebem em seus consultórios crianças autistas, principalmente aqueles que eu conheço e divido discussões, e queixam-se do pouco material teórico publicado sobre esta clínica. Nós todos nos gratificamos com essa especial publicação psicanalítica.
            Com certeza, temos muito o que aprender e discutir com os teóricos que nesse livro expõe sua prática clínica e a teoria psicanalítica que desenvolvem, nos ensinando como lidar com a criança autista e desde já agradecemos. E em especial por nos apontar fundamentalmente que o autista é um Sujeito. Maria do Rosário Collier do Rego, em recente vinda a Goiânia,  ao se referir sobre a importância desta publicação psicanalítica, apontou que os temas ali desenvolvidos nos indicam a existência de um Sujeito e que desconsiderar  a existência de um Sujeito no autismo é tratá-lo só com a educação.  O livro pode nos dizer sobre a razão do sofrimento da criança autista e pode esclarecer a respeito da clínica psicanalítica; até onde o psicanalista pode ir com a criança autista, sem provocar um traumatismo, como apontou Rosário.
 Gustavo Dersal, em Lacan Quotidiano, nos diz que “A psicanálise não promete a cura do autismo, mas ela oferece um contexto respeitoso à fala daquele que sofre, inclusive daquele que sofre por não ter a palavra”.
           O texto que Rosário desenvolve, “A questão do Autismo”, no qual traz para tanto referências de Eric Laurent, Jacques-Alain Miller e Lacan,  nos diz que ao lidar com as crianças autistas é  preciso saber ler a construção da singularidade que cada autista pode dar como solução a sua não entrada no discurso, apesar de estar inserido na linguagem. A autora vai tratar de nos esclarecer sobre o que preocupa as crianças autistas e nos informa, por Lacan, que elas se defendem do verbo, ao tampar os ouvidos para não ouvir a fala do outro. A fala, quando não interpretada, é reduzida a um ruído insuportável.  A não inserção no simbólico, na cadeia de significantes, faz o autista experimentar a dureza do real, sem intérprete do Outro. O gozo não pode ser representado no simbólico; assim, é vivido no corpo. Por isso a criança autista se defende encapsulando-se, formando uma barreira protetora que mantém o Outro à distância.  A autora conclui, a partir de sua prática clínica, que a saída do autismo não está na psicose, mas numa construção que funciona como sintoma, ao introduzir um menos que torna suportável o laço social.
           Rosane Padilla/Louise Lhullier nos ensina ainda mais sobre o autismo com seu texto: Autismo – uma leitura para além dos limites do simbólico. Neste nos ensina sobre as diferentes possibilidades de resposta do sujeito ao encontro com o lugar na estrutura das relações sociais e mais especificamente, através de Laurent, sobre as respostas da criança ao significar o desejo materno. Na criança autista, a resposta é como objeto a, como na psicose (foraclusão), mas com uma especificidade que a diferencia da esquizofrenia e da paranoia: não há gozo localizado nem no Outro, nem em um órgão do corpo, mas antes um corpo que goza por inteiro, indiferenciado, tomado por uma excitação mortífera. A concepção estrutural do primeiro ensino de Lacan permite pensar o sujeito autista em sua relação com a linguagem e com o campo simbólico naquilo que caracteriza a psicose, a foraclusão.
            Diferente do neurótico, no autismo o sujeito está imerso no real, ele não passa pela operação de alienação que constituiria o imaginário e muito menos pela castração que permitiria o acesso ao registro simbólico. Mas, segundo a autora (ao citar Laurent), isto não significa que não haja Outro, mas sim que não haja Outro barrado. O Outro opera como pura exterioridade da lei, Outro da linguagem, sem inscrição da falta, apresenta-se como todo, completo e, portanto, não desejante. A criança autista, consequentemente, não encontra um lugar para situar-se no desejo do Outro, isto é, não se aliena ao desejo do Outro, não encontra uma posição no Outro simbólico.
            Esses sujeitos, por estarem inseridos na linguagem, podem falar, mas sua fala não os apazigua, não servem para fazer laço, para comunicar-se, a linguagem os ameaça. O exercício verbal, a voz, não é endereçada ao outro, pode ser simples repetição rotineira. Na ausência da divisão subjetiva, o sujeito não escuta o dito de sua fala, nem o dito da fala do Outro. Há uma separação radical entre o dizer e o gozo (não há gozo vinculado ao significante), ou o dizer aparece como puro gozo, sem delimitações.  Por isso, a ecolalia ou o mutismo.
            Para o psicanalista, na sua prática, cabe usar a ética da psicanálise na sua clínica e apostar no sujeito capaz de produzir soluções singulares para lidar com o gozo. Promovendo, favorecendo a constituição de um espaço vazio, de uma falta, de uma distância entre o sujeito e o outro. Ou ainda, segundo a autora edificar túneis de ligação entre o mundo do sujeito e o mundo social. Logo, temos muito a aprender com todos esses autores que se implicaram na tarefa de escrever sobre a clínica do Autismo.