13 de abr. de 2014

LANÇAMENTO DO LIVRO: A VIOLÊNCIA – Sintoma Social da Época



LANÇAMENTO DO LIVRO: A VIOLÊNCIA – Sintoma Social da Época Orgs. Ondina Maria Rodrigues Machado e Ernesto Derezensky
Por: Ceres Lêda Félix de Freitas Rubio

Podemos marcar o lançamento  como aquele evento que abre a temática que irá percorrer todos os estudos da Escola Brasileira de Psicanálise este ano e da Delegação Geral GO/DF. A Delegação com as suas atividades e com a maior delas, a Jornada anual, que  será realizada em 22 e 23 de Agosto,  intitulada “Quando a fala cala, a bala fala – o que a Psicanálise diz sobre a violência? falará sobre violência.  
Nos textos trabalhados no lançamento o de Cristina Drummond “Violências Maternas”, o de Marcus André Vieira “A violência do trauma e seu sujeito” e finalmente o de Enrique Laurent “Sobre as manifestações da pulsão de morte”, cada um a seu modo, nos orientaram sobre  esta questão.
A partir de hoje estejam todos convidados a participar dos preparatórios da Jornada em Maio e Junho, e em Agosto, da Jornada, que acontecerá no auditório da Universidade Alfa (unidade Perimetral). Acompanhem as informações pelo blog da Delegação, se disponham a ler sobre o tema e a escreverem seus trabalhos.
Em três momentos teremos as resenhas desses três textos publicados. O primeiro que segue é “Violências Maternas”.
Cristina Drummond nos privilegia ao escrever seu artigo e orienta todos aqueles que se ocupam com a criança no discurso psicanalítico ao falar sobre Violências Maternas. Elas existem e podemos vê-las nos consultórios através das crianças que ali chegam e nos noticiários. Uma violência que se passa por um lado, mascarado, através dos cuidados maternais e por outros que vão, além disso,  e são pura exteriorização da manifestação da pulsão de morte.
Cristina inicia seu texto nos trazendo uma vinheta clínica e que indica como os cuidados maternais podem ser vistos como violentos. Uma criança de 5 anos queixa-se: “Você abusa de mim!”. A criança tem encoprese e reclama do centésimo enema que a mãe quer submetê-lo. Ele desenha um coelho com todos os orifícios tampados e escreve do lado de fora: “Não”. E em seguida diz que antes não queria ser menino porque os meninos (judeus) tinham que tirar um pedacinho de seu corpo, mas que agora sabe que ser mulher é muito pior, porque para ter um filho, elas tinham que fazer um corte ainda maior na barriga. Ele denuncia a violência e neste fragmento Cristina vê uma série de elementos que estão inseridos nesta questão:
1)    A relação mãe-filho;
2)    O real do corpo da criança;
3)    O sintoma e a repartição sexual – a referência ao falo simbólico.

O pedacinho que se tira dos homens, que reclama João, é a famosa libra de carne pelo pagamento pela entrada no simbólico, a autora escreve se referindo a Lacan. Quanto às mulheres, essa operação não é assim tão segura e o corte tem que ser maior porque elas são não-todas submetidas à castração. Cristina aponta, clinicamente e teoricamente com Miller, que a criança está submetida ao abuso materno a partir da questão da feminilidade. Há afinidades entre a feminilidade e a vontade e “é do lado da mulher que a vontade se desprende com um caráter absoluto, infinito, incondicionado e se manifesta, com mais evidência, no capricho”.
A criança assim,  está submetida aos caprichos femininos e maternos.
Cristina aponta a ciência como um facilitador do gozo feminino quando este desejo pela maternidade não passa mais por uma relação com um homem, esse sendo dispensado. A criança sendo colocada na posição de objeto de consumo disponível no mercado.
Lembra que a psicanálise associou a ideia de um paraíso entre mãe e filho à de simbiose, teóricos como  Balint, Margaret Mahler, Helen Deutsch, Françoise Dolto, Melanie Klein, teorizaram. Esta última fazendo dessa ligação uma relação especular, tomando o corpo materno como o recinto das pulsões da criança “pulsões motivadas pela agressão decorrente de uma decepção fundamental”.  Lacan, diz que a autoridade das mulheres em psicanálise pode ser uma ameaça, pois algumas trataram da questão da mãe e da criança, como “experts em esconder toda falta e em falar como oráculos”. Lacan introduziu entre a criança e a mãe um terceiro termo, o falo, indicando que não se trata aí de uma relação dual e interrogando a incidência do desejo do Outro e do feminino na constituição do sujeito.  Trata-se, da escolha de uma clínica do gozo, em oposição a uma clínica da relação simbiótica mãe-filho.
Lacan não aceitaria a solução de Winnicott, segundo a qual haveria a possibilidade de uma mãe ser suficientemente boa, nada violenta. No seu ensino viu-se a constatação de fazer uma leitura da violência presente na relação entre a mãe e a criança.
Pode-se partir da ideia de que uma mãe é violenta porque toma seu filho como objeto condensador de seu gozo. Estar na posição de objeto é uma condição da criança: ela vem ao mundo como objeto real, e esse objeto não está separado da sujetividade, muito menos da sexualidade da mulher que é sua mãe.  É a mãe “impondo, mais do que sua lei, sua onipotência ou seu capricho”. É o insaciável crocodilo prestes a devorar o seu objeto, completa a autora.
Trás a referência de Ferenczi, 1929, no texto “A criança mal acolhida e sua pulsão de morte” para falar dos “hóspedes não bem-vindos na família” . Esses sujeitos sofriam de tendências inconscientes de autodestruição que se manifestavam em impulsos suicidas, impotência, falta de prazer na vida e em um pessimismo extremo. Em sua pesquisa ele constata que não se verifica na clínica, a ideia de que as pulsões de vida sejam preponderantes nos recém-nascidos. Se ao nascer a ternura lhe é recusada, a pulsão de destruição vai se estabelecer.
Esses “hóspedes não bem-vindos na família” estaria  em consonância com a formulação de Lacan de que somos “todos abortos do que foi, para aqueles que nos engendraram, causa do desejo”. Cada um de nós é determinado primeiro como objeto a. A criança terá que trabalhar para inscrever-se na subjetividade, sair da condição de objeto real através dos significantes simbólicos herdados.
Cristina nos lembra sobre a verdadeira perversão nas mulheres, que é a relação dessas com seus filhos, condensadores de seu gozo. E da loucura , quando se toma o falo como medida, a criança é pensada como objeto demandado ao pai e articulada a privação feminina. A loucura está no para-além da correspondência que se pode obter, já que, de acordo com Laurent “ela não para de buscar no Outro o significante desse objeto impossível que foi privado”. A operação de falicização da criança conecta a criança real ao valor fálico que ela pode vir a ter para a mãe, e essa operação deixa sempre um resto. Aí se faz presente o risco da violência, quando o corpo da criança fica a serviço da vontade de gozo do Outro materno.
A criança poderá situar-se como objeto em duas vertentes:
- A de objeto fálico; e
- Objeto condensador de gozo.
No artigo, trás Medeia como o paradigma da violência materna, a verdadeira mulher segundo Miller, “é uma crueldade que tem a ver com o sacrifício que ela tem de mais precioso, para abrir no Outro um buraco que não se pode preencher”. Medeia atua com o destruir, e Lacan assinala: que toda mulher pode realizar-se no não ter, no abrir mão de sua inscrição fálica.
Cristina trás mais duas vinhetas clínicas. Paulo, 9 anos, queixa e a agride a mãe porque esta   conta aos parentes coisas que ele teria dito sobre eles, a partir de uma interpretação dela. Isso aponta que se a criança é tida como objeto, sua condição de sujeito da palavra não é considerada, e vê-se que algo da separação não se operou. A agressividade do filho é uma resposta à violência da mãe, a criança busca, desesperada, uma maneira de lhe fazer borda.
A cola,  é intensa nas mães esquizofrênicas fala Cristina, ao dizer de Joana, que tomam o corpo do filho como parte de seu próprio corpo. Ou em uma interpretação delirante, a filha é tomada, como portadora de algum mal. “A maneira como ela me olhou me fez ver aquilo que eu não queria ver: ela é ruim”.
Nessas duas vinhetas, a autora baseada em Laurent, identifica de um lado, traços perversos femininos, e de outro, traços de loucura feminina. A criança podendo ser capturada de modos distintos, pelos traços perversos do amor materno, ou pelos traços de loucura do amor sem limite.
Por último fala do gozo sem limites de mulheres pela maternidade que se utilizam da reprodução assistida, deixando a criança ainda mais submetida. Criança gerada a fim de ser doadora de medula ou outro órgão para um irmão doente; ou a reprodução assistida sem limites: “não me importa quantos mais eu tenha que matar, quero ter um filho meu” a fala de uma mulher que perdera vários bebês por incompatibilidade genética com o marido.
A autora conclui com Lacan, ao afirmar que o que está suprimido no mito sobre a relação da criança com a mãe, mito de completude, amor e aceitação, só pode ser compreendido “ao se opor a que seja o corpo da criança que corresponda ao objeto a”. Essa oposição diz respeito a impedir que a criança seja fixada em uma fantasia e que é necessário pensar a operação de separação, levando em conta a questão do objeto e das graves consequências sobre o corpo da criança.  Lacan, acredita que a procura por recuperar, no corpo da criança, o objeto impossível da privação,  marcada sempre pela violência, encontre um limite na palavra.  E Laurent, crê  tornar menos consistente a paixão mortífera que está sobre as crianças.
Essas formulações devem  orientar o trabalho clínico dos psicanalista com crianças.

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