LANÇAMENTO DO LIVRO: A VIOLÊNCIA – Sintoma Social da Época Orgs.
Ondina Maria Rodrigues Machado e Ernesto Derezensky
Por: Ceres Lêda Félix
de Freitas Rubio
Podemos
marcar o lançamento como aquele evento
que abre a temática que irá percorrer todos os estudos da Escola Brasileira de
Psicanálise este ano e da Delegação Geral GO/DF. A Delegação com as suas
atividades e com a maior delas, a Jornada anual, que será realizada em 22 e 23 de Agosto, intitulada “Quando a fala cala, a bala fala – o que a Psicanálise diz sobre a
violência? falará sobre violência.
Nos
textos trabalhados no lançamento o de Cristina Drummond “Violências Maternas”,
o de Marcus André Vieira “A violência do trauma e seu sujeito” e finalmente o
de Enrique Laurent “Sobre as manifestações da pulsão de morte”, cada um a seu
modo, nos orientaram sobre esta questão.
A
partir de hoje estejam todos convidados a participar dos preparatórios da Jornada
em Maio e Junho, e em Agosto, da Jornada, que acontecerá no auditório da
Universidade Alfa (unidade Perimetral). Acompanhem as informações pelo blog da
Delegação, se disponham a ler sobre o tema e a escreverem seus trabalhos.
Em
três momentos teremos as resenhas desses três textos publicados. O primeiro que
segue é “Violências Maternas”.
Cristina
Drummond nos privilegia ao escrever seu artigo e orienta todos aqueles que se
ocupam com a criança no discurso psicanalítico ao falar sobre Violências
Maternas. Elas existem e podemos vê-las nos consultórios através das crianças
que ali chegam e nos noticiários. Uma violência que se passa por um lado,
mascarado, através dos cuidados maternais e por outros que vão, além
disso, e são pura exteriorização da manifestação
da pulsão de morte.
Cristina
inicia seu texto nos trazendo uma vinheta clínica e que indica como os cuidados
maternais podem ser vistos como violentos. Uma criança de 5 anos queixa-se:
“Você abusa de mim!”. A criança tem encoprese e reclama do centésimo enema que
a mãe quer submetê-lo. Ele desenha um coelho com todos os orifícios tampados e
escreve do lado de fora: “Não”. E em seguida diz que antes não queria ser
menino porque os meninos (judeus) tinham que tirar um pedacinho de seu corpo,
mas que agora sabe que ser mulher é muito pior, porque para ter um filho, elas
tinham que fazer um corte ainda maior na barriga. Ele denuncia a violência e
neste fragmento Cristina vê uma série de elementos que estão inseridos nesta
questão:
1)
A
relação mãe-filho;
2) O real do corpo da criança;
3) O sintoma e a repartição sexual – a
referência ao falo simbólico.
O
pedacinho que se tira dos homens, que reclama João, é a famosa libra de carne
pelo pagamento pela entrada no simbólico, a autora escreve se referindo a Lacan.
Quanto às mulheres, essa operação não é assim tão segura e o corte tem que ser
maior porque elas são não-todas submetidas à castração. Cristina aponta,
clinicamente e teoricamente com Miller, que a criança está submetida ao abuso
materno a partir da questão da feminilidade. Há afinidades entre a feminilidade
e a vontade e “é do lado da mulher que a vontade se desprende com um caráter
absoluto, infinito, incondicionado e se manifesta, com mais evidência, no
capricho”.
A criança assim, está submetida aos caprichos femininos e
maternos.
Cristina
aponta a ciência como um facilitador do gozo feminino quando este desejo pela
maternidade não passa mais por uma relação com um homem, esse sendo dispensado.
A criança sendo colocada na posição de objeto de consumo disponível no mercado.
Lembra
que a psicanálise associou a ideia de um paraíso entre mãe e filho à de
simbiose, teóricos como Balint, Margaret
Mahler, Helen Deutsch, Françoise Dolto, Melanie Klein, teorizaram. Esta última
fazendo dessa ligação uma relação especular, tomando o corpo materno como o
recinto das pulsões da criança “pulsões motivadas pela agressão decorrente de
uma decepção fundamental”. Lacan, diz
que a autoridade das mulheres em psicanálise pode ser uma ameaça, pois algumas
trataram da questão da mãe e da criança, como “experts em esconder toda falta e
em falar como oráculos”. Lacan introduziu entre a criança e a mãe um terceiro
termo, o falo, indicando que não se trata aí de uma relação dual e interrogando
a incidência do desejo do Outro e do feminino na constituição do sujeito. Trata-se, da escolha de uma clínica do gozo,
em oposição a uma clínica da relação simbiótica mãe-filho.
Lacan
não aceitaria a solução de Winnicott, segundo a qual haveria a possibilidade de
uma mãe ser suficientemente boa, nada violenta. No seu ensino viu-se a
constatação de fazer uma leitura da violência presente na relação entre a mãe e
a criança.
Pode-se
partir da ideia de que uma mãe é violenta porque toma seu filho como objeto
condensador de seu gozo. Estar na posição de objeto é uma condição da criança:
ela vem ao mundo como objeto real, e esse objeto não está separado da
sujetividade, muito menos da sexualidade da mulher que é sua mãe. É a mãe “impondo, mais do que sua lei, sua
onipotência ou seu capricho”. É o insaciável crocodilo prestes a devorar o seu
objeto, completa a autora.
Trás
a referência de Ferenczi, 1929, no texto “A criança mal acolhida e sua pulsão
de morte” para falar dos “hóspedes não bem-vindos na família” . Esses sujeitos
sofriam de tendências inconscientes de autodestruição que se manifestavam em
impulsos suicidas, impotência, falta de prazer na vida e em um pessimismo
extremo. Em sua pesquisa ele constata que não se verifica na clínica, a ideia
de que as pulsões de vida sejam preponderantes nos recém-nascidos. Se ao nascer
a ternura lhe é recusada, a pulsão de destruição vai se estabelecer.
Esses
“hóspedes não bem-vindos na família” estaria em consonância com a formulação de Lacan de
que somos “todos abortos do que foi, para aqueles que nos engendraram, causa do
desejo”. Cada um de nós é determinado primeiro como objeto a. A criança terá
que trabalhar para inscrever-se na subjetividade, sair da condição de objeto
real através dos significantes simbólicos herdados.
Cristina
nos lembra sobre a verdadeira perversão nas mulheres, que é a relação dessas
com seus filhos, condensadores de seu gozo. E da loucura , quando se toma o
falo como medida, a criança é pensada como objeto demandado ao pai e articulada
a privação feminina. A loucura está no para-além da correspondência que se pode
obter, já que, de acordo com Laurent “ela não para de buscar no Outro o
significante desse objeto impossível que foi privado”. A operação de falicização
da criança conecta a criança real ao valor fálico que ela pode vir a ter para a
mãe, e essa operação deixa sempre um resto. Aí se faz presente o risco da
violência, quando o corpo da criança fica a serviço da vontade de gozo do Outro
materno.
A
criança poderá situar-se como objeto em duas vertentes:
- A de objeto fálico; e
- Objeto condensador de
gozo.
No
artigo, trás Medeia como o paradigma da violência materna, a verdadeira mulher
segundo Miller, “é uma crueldade que tem a ver com o sacrifício que ela tem de
mais precioso, para abrir no Outro um buraco que não se pode preencher”. Medeia
atua com o destruir, e Lacan assinala: que toda mulher pode realizar-se no não
ter, no abrir mão de sua inscrição fálica.
Cristina
trás mais duas vinhetas clínicas. Paulo, 9 anos, queixa e a agride a mãe porque
esta conta aos parentes coisas que ele
teria dito sobre eles, a partir de uma interpretação dela. Isso aponta que se a
criança é tida como objeto, sua condição de sujeito da palavra não é
considerada, e vê-se que algo da separação não se operou. A agressividade do
filho é uma resposta à violência da mãe, a criança busca, desesperada, uma
maneira de lhe fazer borda.
A
cola, é intensa nas mães esquizofrênicas
fala Cristina, ao dizer de Joana, que tomam o corpo do filho como parte de seu
próprio corpo. Ou em uma interpretação delirante, a filha é tomada, como
portadora de algum mal. “A maneira como ela me olhou me fez ver aquilo que eu
não queria ver: ela é ruim”.
Nessas
duas vinhetas, a autora baseada em Laurent, identifica de um lado, traços perversos
femininos, e de outro, traços de loucura feminina. A criança podendo ser
capturada de modos distintos, pelos traços perversos do amor materno, ou pelos
traços de loucura do amor sem limite.
Por
último fala do gozo sem limites de mulheres pela maternidade que se utilizam da
reprodução assistida, deixando a criança ainda mais submetida. Criança gerada a
fim de ser doadora de medula ou outro órgão para um irmão doente; ou a
reprodução assistida sem limites: “não me importa quantos mais eu tenha que
matar, quero ter um filho meu” a fala de uma mulher que perdera vários bebês
por incompatibilidade genética com o marido.
A
autora conclui com Lacan, ao afirmar que o que está suprimido no mito sobre a
relação da criança com a mãe, mito de completude, amor e aceitação, só pode ser
compreendido “ao se opor a que seja o corpo da criança que corresponda ao
objeto a”. Essa oposição diz respeito a impedir que a criança seja fixada em
uma fantasia e que é necessário pensar a operação de separação, levando em
conta a questão do objeto e das graves consequências sobre o corpo da criança. Lacan, acredita que a procura por recuperar,
no corpo da criança, o objeto impossível da privação, marcada sempre pela violência, encontre um
limite na palavra. E Laurent, crê tornar menos consistente a paixão mortífera que
está sobre as crianças.
Essas
formulações devem orientar o trabalho
clínico dos psicanalista com crianças.
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