7 de dez. de 2013

RESENHA DA ATIVIDADE DE ENCERRAMENTO DA BIBLIOTECA EM 2013



Resenha da conversação sobre o filme “Elena” [i]
por André Lopes[ii]

Fugi. De repente, eu vi que não podia mais, me governou um desgosto. Não sei se era porque eu reprovava aquilo: de se ir, com tanta maioria e largueza, matando e perdendo gente, na constante brutalidade. (Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas)

No dia cinco de dezembro de 2013, após a exibição do filme “Elena”, na DG-GO/DF, ao sabor de muita pipoca, iniciamos uma conversação com as falas de Ordália Junqueira[iii] e Ruskaya Maia[iv]. Ambas marcadas pelas singularidades de seus olhares sobre o tão instigante filme. A de Ordália, dentre algumas marcas, iniciou pontuando a clandestinidade em que Elena nasceu, um nascer clandestino, mas ao mesmo tempo salvacionista, na visão da mãe, tendo como estofo a negativa dessa mãe melancólica: Você fará qualquer coisa, menos ir para Nova York, menos ser atriz, falou a mãe.
Ordália atenta para a separação dos pais, aos quinze anos de Elena, fato que colabora, na leitura de sua irmã Petra, para o distanciamento de Elena: Para de brincar de teatro comigo para virar atriz de verdade. Alguns andaimes se desmoronam para Petra e quando faz sete anos é informada pela irmã que essa é a pior idade. Após esse “pior” Ordália pontua a crença de Petra nas Sereias, figura mítica devoradora de homens e que sempre entoam belos cânticos.
Um aspecto significativo na fala de Ordália foi a associação do filme a uma carta de amor (de Petra para a irmã Elena), que ela nomeia de “carta-filme” que traz o tema do suicídio como central: ... Eu quero morrer. Razão? São tantas que seria ridículo mencioná-las... Petra, em um certo momento pergunta: Se ela me convence que a vida não vale a pena, tenho que morrer com ela. Para que serve esse filme?
Além do nascer clandestino e da negativa da mãe melancólica Ordália também sublinhou a perda de identidade e o tom próprio de Petra em ser o objeto de uma Outra Mulher, a irmã na qual se afogava. Ordália destaca em sua fala o que realmente está em cena: a encenação de Petra da morte da irmã para encontrar ar. Em meio a essa “em-cenação” brota, mesmo de raízes frouxas, uma memória inconsolável de Petra e o seu rompimento com a série familiar fracasso/morte iniciada com a melancolia da mãe. Ordália indaga: quem seria, entre as três mulheres,  a personagem principal do filme, e “belisca”: o pai se encontra “em-câmera”, por trás das cenas, há um não dito, há um não mostrado: o pai. Afinal há UM... ou pior?
Em seguida, Ruskaya Maya, mesmo sentindo a falta de um cineasta na conversa, apontou uma impressão forte do filme: a “maldição”. Ruskaya (a) borda o filme como um “texto” tal qual sua escuta no consultório. Tal qual o sujeito amaldiçoado, pelos significantes do Outro, que chega à análise, Ruskaya lê Elena assim. Em sua fala, Elena-Petra (essa locução subjetiva) é amaldiçoada pela fala oracular da mãe: Não vá para Nova Iorque ser atriz! Em outra leitura, Ruskaya nos traz também algo da alienação e da separação marcadamente própria do feminino e de suas dificuldades tais como a errância e a falta de lugar enodadas à melancolia como a doença do narcisismo.
Em sua fala Ruskaya atenta para o uso do corpo como imagem, a dança. Primeiro a dança com a Lua, depois consigo mesma. Para Ruskaya, Elena fere o seu narcisismo em sua não aceitação, paralela a alienação de Petra como objeto da irmã que pouco fala. Ruskaya enlaça sua leitura do filme com o que Freud considera como a estratégia primitiva do luto: a alienação, apresentada como a incorporação de Petra do espectro de sua irmã, o gozo do corpo como real, um não saber o que fazer com o corpo.
O desejo de Petra se confundir com a irmã em um espaço esmagador marcado por buracos anteriores também é lido por Ruskaya. O que resta após a morte de Elena, são os sintomas obsessivos da irmã, que até então estava associada imaginariamente a Elena.  Finalmente Elena morre, sua morte simbólica, para Ruskaya que lê o filme como uma segunda morte. Seria esse filme uma morte real?
Após as duas falas abriu-se o debate com o público atento. O que se pode registrar desse debate foi que o objetivo de Petra ao produzir o filme está sendo alcançado em cada canto do Brasil. Elena não conseguiu brilhar nos palcos em vida, mas Petra tem conseguido através da arte, do cinema endereçar sua carta de amor a irmã, sua carta-filme in memorian.
Iniciamos essa resenha, com Guimarães Rosa: Fugi. De repente, eu vi que não podia mais, me governou um desgosto [...]. Agora finalizamos com Petra Costa que, com uma leveza poética, conseguiu transformar um tema tão brutal como o suicídio em algo novo: [...] Me afogo em você, enceno a nossa Morte... Para encontrar ar... Para poder viver [...] As memórias vão com o tempo, se desfazem, mas algumas não encontram consolo, só alívio nas pequenas brechas da poesia. Você é minha memória inconsolável, feita de pedra e de sombra e é dela que tudo nasce e dança...
 Não saímos dançando, mas uma sensação de falta ficou no ar. Falta do desgosto, falta da brutalidade, mesmo perdendo Elena... Onde está Elena?
Revisado por Ordália A. Junqueira.


[i] Filme de Petra Costa, exibido na DG-GO/DF-EBP, em 05/12/2013, como Evento de Biblioteca da DG-GO/DF-EBP. Resenha feita a duas mãos por André Lopes e Ordália A. Junqueira.
[ii] André Lopes, poeta, professor de literatura, participante da DG-GO/DF.
[iii] Ordália A. Junqueira, Aderente da EBP, Analista Praticante (AP),  Participante da DG-GO/DF.
[iv] Ruskaya Maia, Membro da EBP, Analista Praticante (AP), Participante da DG-GO/DF.

29 de jul. de 2013

ATIVIDADE PREPARATÓRIA PARA O VI ENAPOL: O CORPO NA PSICOSE

Ter um corpo é o resultado de uma operação significante, cujo efeito é a localização do gozo. A ausência desse significante gera uma inconsistência corporal, produzindo apenas fragmentos de um corpo, uma estranha exterioridade, expostos às mais diversas invasões e manipulações, como vemos no caso Schereber.  Em "De uma questão preliminar", Lacan nos diz que a psicose não é um caos, "não é uma desordem, é sim uma ordem do sujeito". Essa ordem catastrófica só se justifica em relação à ordem de um sujeito neurótico. No avanço de seu ensino sobre a psicose, Lacan passa a orientar seu diagnóstico não somente relacionando-o aos distúrbios da linguagem, mas também ao campo da amarração e da desamarração dos registros RSI. 

5 de mai. de 2013

NOTÍCIAS SOBRE A REUNIÃO DA COMISSÃO DE CARTÉIS DA EBP


Por Cristiano Alves Pimenta

Caros colegas, a Comissão de Cartéis da EBP, agora dirigida por Maria Josefina com a participação de Paola Salinas, Inês Seabra, Cristiana Galo e outros, reuniu-se no último Congresso de Membros da EBP com o objetivo de estabelecer e comunicar as diretrizes traçadas pela nova Comissão. Eu participei dessa reunião em que também estiveram presentes representantes das Sessões e Delegações da EBP e o novo diretor da Escola Marcelo Veras.
De maneira geral, o Diretor da EBP apontou como prioridade política da EBP fazer do trabalho em Cartel a via fundamental da formação analítica e da inserção na Escola. Ou seja, o cartel é a maneira privilegiada de se vincular à Escola. Marcelo Veras enfatizou que estar num cartel é ter um vínculo com a EBP e com a AMP, pois o nome de cada cartelizante regularmente inscrito é publicado na lista que é divulgada na AMP. Como disse Marcelo Veras “os cartéis são da AMP”.
Segue abaixo alguns pontos a respeito do funcionamento do cartel que foram ressaltados na reunião.
A Comissão de Cartéis encaminhará as inscrições dos cartéis, feitas no site da EBP, ao respectivo Diretor de Sessão ou Delegação. Este, por sua vez se incumbirá de verificar se o cartel está realmente em atividade e funcionando dentro do que se espera de um cartel, e de dar um retorno à Comissão de Cartéis dando seu parecer sobre cada cartel inscrito.
Quando um cartel é dissolvido o Mais Um deve comunicar ao Diretor de Sessão ou Delegação que, por sua vez, deverá comunicar à Comissão de Cartéis para que os procedimentos sejam tomados.
Quanto ao tempo de existência do Cartel ressaltou-se que um cartel não começa na data de sua inscrição no site, mas na data da primeira reunião de seus membros, devendo ser dissolvido em dois anos.
A inscrição no site, como já é sabido, deverá ser feita sempre pelo Mais Um.
Um cartel pode ser formado sem a participação de nenhum Membro da Escola, ou tendo um Membro que não seja o Mais Um. O que deve ser enfatizado é que seu funcionamento evite o funcionamento de grupo e de pura mestria. Assim, é necessário que os princípios do cartel sejam assegurados: cada um elabore sua questão (ou questões) e que o trabalho do cartel seja uma produção de cada cartelizante, produção feita a partir da singularidade de suas questões, etc.
Neste sentido, foi enfatizado que os cartéis de transmissão, como o cartel da Orientação Lacaniana não reduza seu trabalho à transmissão, mas que deixe lugar para a produção individual de cada cartelizante.
Quando um cartelizante deixa o cartel, este deverá ser dissolvido, podendo ser refeito com os mesmos cartelizantes que permaneceram. Nada impede que um cartel que se dissolva –  seja por que um membro tenha saído ou porque esgotou seu tempo de dois anos – se recomponha com os mesmos membros e até mesma temática.
A Comissão comprometeu-se, juntamente com a Diretoria, a valorizar e divulgar as produções dos cartelizantes. Para isso, o Boletim DOBRADIÇA se incumbirá da divulgação dos textos produzidos, das informações sobre cartéis, como o calendário das atividades, etc.
Os cartéis chamados Fulgurantes, que têm curta duração, deverão, como os demais cartéis, serem inscritos normalmente no site. Os interessados em formar um cartel poderão se inscrever no PROCURA-SE, no site da EBP. Os nomes lá permanecerão por seis meses.
Para obter mais informações pode-se dirigir diretamente à Maria Josefina, por meio de seu e-mail, publicado no site da EBP.
Atenciosamente.

1 de mai. de 2013

O SABER DO INSCONSCIENTE NO CORPO DA CRIANÇA

No próximo 18 de maio, nós da Delegação Geral Go/DF, junto com o Núcleo de pesquisa de psicanálise com criança - BILOQUÊ, estaremos nos preparando para o VI ENAPOL - Encuentro Americano de Psicoanalisis de la Orientacio Lacaniana. Desta forma, estaremos discutindo sobre o saber do inconsciente no corpo da criança, e qual o papel do psicanalista de orientação lacaniana frente a essa criança que sofre só e junto com sua família.


10 de mar. de 2013

RESENHA SOBRE A SEÇÃO CLÍNICA - MARÇO



Seção Clínica
Denizye Aleksandra Zacharias

A abertura das atividades da Seção Clínica para o ano de 2013 aconteceu no dia 06 de março com a apresentação do Caso Clínico À beira da loucura pelo analista praticante Cristiano Alves Pimenta (Membro da EBP e AMP) com a participação das debatedoras Simone Abadia e Cristina Alves Barbosa (participantes da DG-Goiás/DF). 
A conversação foi profícua, pois teve como ponto crucial a articulação íntima entre o real da experiência e a teoria relativa a esse real (Guimarães, Lêda) formalizada em um único caso.
Cristiano inicia a sua apresentação dizendo que a função do analista é a de desarranjar as defesas e esclarece com a seguinte pontuação de Miller:
O psicanalista deve ser capaz de desarranjar em um sujeito a defesa contra o real. E ser analisante é consentir em receber de um psicanalista o que desarranja esta defesa....É do real e da defesa contra esse real que se trata na psicanálise, (Miller, A experiência do real no tratamento analítico, cap.2 ), e conduziu a sua elaboração na formalização do caso clínico desde os aspectos diferenciais para o diagnostico visando a direção do tratamento, como também tocou em questões teóricas sobre o gozo feminino.
A Seção Clínica é um espaço de reflexão para o analista sustentar sua formação na Escola, pois ao dar o testemunho de sua clínica para além da transferência no dispositivo, elaborando a conjunção entre a teoria e a prática de sua clínica, transmitindo aos pares a psicanálise pura, está sustentando um compromisso de trabalho com o Campo Freudiano.
     Agradeço aos colegas que participaram e estiveram presentes e deixo aberto o  convite para a próxima Seção Clínica no dia 3 de abril, até lá.

4 de jan. de 2013

REVISTA LACAN COTIDIANO, Nº 246 (FRAGMENTOS)

                                        Sexta-feira, 26 de outubro de 2012 - 21h 00 [GMT + 1]
NÚMERO 246
Eu não faltaria a um Seminário por nada no mundo— Philippe Sollers
Nós venceremos porque não temos outra escolha — Agnès Aflalo
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 A ROSA DOS LIVROS 

Cartas de Freud a seus filhos

por Nathalie Georges-Lambrichs

Agora em francês, traduzido por Fernand Cambon com o título Cartas a seus filhos, um livro assinado por Freud e publicado em 2010 em Aufbau com o título Unterdeß halten wir zusammen, Briefe an die Kinder. Ele foi enriquecido com uma nota do tradutor sobre o essencial, pois puxa o fio da relação entre uns e outros, filhos, genros, noras e netos com a psicanálise, e nos transmite algo da tonalidade do conjunto, antes de trazer para a nossa língua o estilo sutil e estruturado de Freud.
Pode-se apenas admirar a obstinação desdobrada por Michael Schröter para dar forma ao material esparso e mutilado a partir do qual soube produzir esse livro póstumo de Freud. Historiador desses arquivos, dedicados à dispersão ou até à desaparição, ele identificou os mistérios, e recortando, ajustando, ordenando, completando, e aqui ele se apaga, não sem deixar sua sombra colorir o conjunto, e porque não? Porque não estão aí os papeizinhos, no sentido em que Gide os cultivava para que servissem à suas biografias, mas de fato as cartas, chegadas a seus primeiros destinatários, os filhos de Freud, cujo número, desde então, sem ofensas àqueles que pretendem o contrário, não cessa de crescer e multiplicar-se.
Reverência necessária, « fala-se » na grande imprensa, que se contenta em girar em torno do monumento, lançando uma explosão de clichês, sem qualquer forma de julgamento. Tão perturbador ainda é o nome de Freud, que ele produz nesses últimos tempos, como o início da descoberta do inconsciente, ou uma difamação programada, ou proposições insípidas:
Deslizem, mortais, não se apoiem.
Mais do que o exercício de patinação artística, porque se há aí um « gelo fino » é aquilo que o crítico impõe sobre uma superfície das mais acidentadas para torná-la chata e ilegível, o livro presta-se à pilhagem, fervilhando de pequenos fatos e referências, abundante em notações quotidianas ou eruditas, à superfície das páginas. É-se imediatamente absorvido, ameaçado de ser engolido entre duas frases separadas por abismos de tempo, de espaços, de não-ditos a respeito de dramas que necessariamente aconteceram em outros lugares. E, contudo, não seria questão apoiar-se para atravessar, o que? As páginas, os mistérios, seus segredos amorosos ou bancários?
                                                                         


Contudo, eu encontro aí apenas o vivo, resistente, teimoso. Cada detalhe me interessa, cada julgamento emitido por um ou outro sobre esse ou aquele, próximo, paciente, obra ou projeto, nas notícias biográficas bem informadas e que retraçam a vida de cada um dos filhos, dando excertos de suas cartas, pois a escolha foi, publicar integralmente nesse livro, apenas as cartas que receberam de seu pai.
Michael Schröter possibilita também acesso a documentos impressionantes, como o testamento que Freud redigiu em 31 janeiro de 1919 (p.194-95), que ficou nos papéis de Martin, o filho mais velho. Os depoimentos das noras também são instrutivos, testemunhando o interesse pela obra de seu sogro, a ponto de uma tornar-se fonoaudióloga, outra artista (eu não digo tudo, para dar a vocês o desejo de ir ao livro e conferir).
O estilo de Freud está lá, tão preciso, com a capacidade de dar imediatamente nomes aos bois, sem nunca dizer o que quer que seja que não queira precisamente dizer, e sem falso pudor, especialmente nas questões de dinheiro. Certamente ele « computava » suas entradas e suas saídas, mas era para saber o que viria, e mais para os outros do que para si mesmo. Ele sustentava as necessidades de todos os seus filhos e netos, tanto quanto podia, insistindo, abrindo as contas, apoiando-os incansavelmente e com bom humor. Certamente ele tinha ideias sobre o destino dos seres humanos, repartidos em dois gêneros, assujeitado cada um a papeis bem definidos. Certamente ele encarnou e exerceu plenamente sua autoridade, quanto à escolha de parceiros amorosos em particular, mas sem jamais deixar-se degradar no exercício de um poder.


A família  de Freud em 1898:  Martin e Sigmund (no alto)  Oliver, Martha, Minna Bernays e Ernst (no meio) Sophie e Anna (em baixo) .

As peças que faltam para a reconstituição da família Freud, agora com mais vagar, as viagens ou os tormentos da guerra, os laços estreitos são apenas os mais salientes. Perdidas assim, a maior parte das cartas que ele endereçou a Oliver e sua mulher Henny, por causa da fuga precipitada para a França - que Oliver foi o único a escolher - depois que se tornou vichysta. Oliver, o mais jovem dos filhos, o único dos filhos de Freud que teria dito a seu pai que estava neurótico, a ter feito uma análise e finalmente, a estar o mais afastado da esfera paterna, mas guardando os laços vivos de afeição; Oliver que, jovem homem, assinava suas cartas « teu filho fiel ».

Eu faço, de minha part um salto dessas cartas, cartões postais e telegramas, para as nossas mensagens de hoje. Dar um sinal de vida na ausência, dar as boas novas, são gestos quotidianos que voltaram para nós no século XXI. Para além de toda interpretação e superinterpretação de que essa forma seja, talvez, sintoma de uma dificuldade para assumir a separação ou a ausência, utilizando os sulcos da aletosfera, os fatos estão aí: as teias cada vez mais densas, as redes sociais recheadas de intimidades, a ponto de que nesse século, parece que se escreve como se fala.
Os momentos de silêncio, de corte, as lacunas e as faltas tornam-se, portanto, mais preciosas; tal, por exemplo, aquele que recobre os dois últimos anos da vida de Freud, pois nenhuma das últimas cartas de cada um dos seis sub-conjuntos ultrapassa 1936. Seis, porque as cartas para Max, esposo e viúvo de Sophie, estão entre as mais numerosas e as mais ricas.

Sigmund Freud, Lettres à ses enfants, Paris, Flammarion, 2012, 610 pages, 27 €.

***
 LETTRE D'IBERIE 

Independência e Trindade

por Miquel Bassols

De repente, são as palavras que parecem governar e os governos são bastante conduzidos por elas, treinados, como muitas vezes acontece, por seu poder. As palavras, muito rápidas, correm, frequentemente, muito mais rápido do que os sujeitos que as dizem, e muito mais do que os políticos que delas se fazem, como se diz, os porta-palavras. É o discurso corrente — o « diz cursocorrente » como dizia Lacan. É o que está acontecendo, me parece, nesses dias aqui na Espanha, com a palavra (mot) « independência ».
Dita e gritada em altas vozes por uma multidão de pessoas nas ruas de Barcelona no último 11 de setembro — data da Jornada da Catalunha —, essa palavra, entretanto, não seria escrita em nenhum dos cartazes da grande manifestação, como um slogan a ser entoado. Mas esse termo « independência » tem sido tão difundido, mesmo que algumas vezes se tenha tentado caçá-lo do discurso, como uma arma que se voltaria para aqueles que a apontam. O presidente da Generalitat (o governo catalão), Artur Mas, que antes havia declarado que « tudo é possível » no que diz respeito à « independência » teve que transformar a palavra (le mot) alguns dias depois em uma « interdependência », talvez um pouco mais conveniente ; Jordi Pujol, o grande patriarca do nacionalismo catalão, por sua vez, silenciou de modo incontestável,  declarando: « A independência é impossível ». Entretanto, quanto mais essa palavra se torna impossível, mais ressoa com múltiplos ecos desde o majestoso Passeig de Gràcia (grande boulevard barcelonês) até o  Camp Nou vibrando com os gols de Lionel Messi. E quanto mais a independência é contestada e negada pelo governo central de Madrid, mais ela se torna consistente nos dois campos.
Como se lhe fosse conferida a força das palavras que se afirmam sempre mais à medida em que são negadas. É isso que podemos qualificar como significante mestre — escreve-se S1 —, signo que dá consistência a um grupo, a toda uma comunidade, mas quem pode também dividi-la num momento posterior, para fazer aparecer o avesso de toda identificação: a divisão do sujeito, sua falta-a-ser irredutível — escreve-se $ —, que não poderá jamais fechar-se sobre qualquer objeto ou ideal.
Trata-se, na Catalunha de hoje, de uma vontade de ser que não poderá satisfazer-se com qualquer objeto ou significante novo. E é por essa mesma razão que a palavra (mot) « independência » tem, ao mesmo tempo, a força de união e divisão. Seria necessário mesmo que alguém, uma mulher forte, se fizesse porta voz de um milhão e meio de pessoas — cifra dos manifestantes do 11 de setembro —, e chegasse a dizê-lo de novo e claramente às portas do Parlamento. Carme Forcadell, presidente da Assembleia Nacional da Catalunha e que havia convocado a grande manifestação, o diz no momento de ser recebida por Núria de Gispert, Presidente do Parlamento: o que nós queremos é a independência e é isso que é preciso exigir de nosso Presidente, como um desejo irrevogável. Como recusá-lo! Nos dias seguintes, o Presidente irá propor uma formulação atenuada, dizendo : « Nós queremos um Estado que seja o nosso. » Mas novamente esse termo volta à superfície como uma confusão da qual não se conseguiu livrar. Foi também Carme Forcadell que soubera transformar a fórmula, muito conhecida, de Jordi Pujol: « É catalão aquele que vive e trabalha na Catalunha », nesta outra: « É catalão aquele que o quiser ser ». Ela fazia assim ressoar nesta frase, ecoando a partir de um discurso, a fragilidade do ser, a sua vacuidade inerente. Ser tornado-se dessa forma Querer, sem atributos nem complementos que funcionem como condição do ser. Trata-se aqui de um desejo realmente ideal, q     ue não demanda mais passar pela alienação, que o dever supõe demandar. Do mesmo modo, não se tem mais que passar pela pesada condição de viver e trabalhar… De fato, é pela afirmação potente e verdadeira que a vacuidade do ser tende sempre e necessariamente alcançar uma identidade: $ a S1. Assim nós podemos agora escrevê-lo.
O problema é quando alguém não quer simplesmente ser, mas diz que já o é, quando afirma seu ser em um: « Eu sou », que preenche de atributos esta vacuidade do ser, que antes se manifestou como pura vontade, quando o enche de condições e complementos para conseguir fazer uma identidade completa. É então que o Eu (Moi) acredita ser o mestre desta linguagem, quando é apenas o seu servo. É aí que começam os problemas de amanhã.
E de fato, o que uma análise levada com cuidado nos permite descobrir, é que, em suma, a independência do Eu (Moi) é uma crença mais do que um sonho, crença tão religiosa quanto qualquer outra, tão dependente de significantes ideais que a governam quanto da imagem do outro, do outro Eu (Moi) no qual se nutre esta independência.

Outra mulher, Teresa Forcades,  aponta um fato que não se deve negligenciar. Trata-se de uma irmã beneditina que se faz ouvir com força e precisão nas mais diversas mídias e que tem sustentado a seguinte hipótese: « A independência é um projeto de diversidade » comparável à « pluralidade da Trindade cristã ». Não haveria verdadeira independência senão dentro de uma ligação tão interdependente quanto aquela implicada no nó da Trindade, um nó que tem uma estrutura muito sólida: basta que qualquer um dos três se separe para que os outros dois fiquem separados. Mas, separados, eles não são mais independentes, simplesmente eles são mais ... diversos. Os leitores de Lacan – e Teresa Forcades garante ser uma – conhecem muito bem as virtudes desse nó que faz a unidade trinitária. Mas qual seria hoje a trindade catalunha? O que é que permitira dizer a unidade de sua identidade? Um mistério. Há muito tempo que o pai está em declínio — Jacques Lacan dixit — e o filho permanece em casa sem encontrar trabalho. E o Espírito Santo? Pode o amor fazer a ligação que falta entre a Espanha que foi e a Europa que deveria vir a ser?
Mas prestemos atenção a outro fato de linguagem. Por esses dias, ouvimos maneiras de dizer que deslocam as coisas de um modo bastante sintomático, quando se fala das difíceis ligações entre Catalunha e Espanha. Mais uma vez, as palavras (les mots) comandam: da metáfora do casamento, quando um dos cônjuges pede o divórcio, passa-se em nossos dias à metáfora das freiras e ao que advém, quando um dos dois reivindica um poder superior àquele do outro.
Nessa perspectiva, é claro que precisamos de uma trindade onde a dualidade não permite sair do impasse. A Europa? Sim, talvez.

***
 EXPOSIÇÃO - ROMANCE PSICANALÍTICO 

A Mãe Invisível

A crítica de arte e curadora Sinziana Ravini e a produtora Estelle Benazet elaboraram a "exposição romance psicanalítico" The Hidden Mother (A Mãe Invisível). Isso acontece numa galeria privada, l'Atelier Rouart. Em vários pisos, as duas curadoras investiram nos lugares, instalaram um divã psi, colocaram « pequenos objetos transicionais » doados pelos artistas à biblioteca e, principalmente, ocuparam os muros com obras que questionavam a mulher, a mãe, a filha, a matriz...
«Há a mãe inconsciente, há a mãe escondida, latente, e em seguida, a mãe não reconhecida ou desconhecida, inquietante, estrangeira ou, ao contrário, muito familiar. A mãe-mulher, a mãe que dá à luz, a criança na mãe, a mãe morta, a mãe violada, a mãe violenta... Eu me perco nesse catálogo», comenta François Ansermet.
Extraído do artigo de Inrockuptibles de 24 de outubro de 2012.

                                                                              


Até 17 de novembro de 2012, de quarta-feira à sábado, das 14h à 18h
Atelier Rouart
40, rue Paul Valéry 75016 Paris
code AB012 puis AB55
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