RESENHA SOBRE O LANÇAMENTO DO LIVRO “O
FEMININO QUE ACONTECE NO CORPO, A PRÁTICA DA PSICANÁLISE NOS CONFINS DO
SIMBÓLICO”.
Por Cristina Alves
Embora
haja sempre algo de indizível no que diz respeito ao feminino, a psicanálise
contemporânea de orientação lacaniana não se cansa em falar sobre o assunto,
sobretudo sobre este gozo feminino que escapa ao registro do todo, do Um, e que
não é exclusivo das mulheres – apesar de lhes ser constitutivo. E é na busca
por essas reflexões que a Escola Brasileira de Psicanálise lançou o livro O feminino que acontece no corpo – A prática da psicanálise nos confins do
simbólico (Editora Scriptum, 2012), uma organização de Heloisa Caldas,
Alberto Murta e Claudia Murta.
Na
Delegação Geral Goiás/Distrito Federal, o lançamento do livro ocorreu no dia 16
de agosto – evento organizado e coordenado pela Secretária de Biblioteca da DG,
Ordália Junqueira. Ordália ressaltou a importância da temática do feminino este
ano, já que o XIX Encontro Brasileiro do
Campo Freudiano abordará justamente as figuras do feminino no discurso
analítico.
Além
da apresentação de Ordália, o evento na DG contou com a apresentação de dois
textos fundamentais presentes no livro: “A feminilidade”, de Sigmund Freud,
apresentado por Denizye Zacharias (Participante da DG); e “Mulheres e semblantes”, de
Jacques-Alain Miller, apresentado por Jaqueline Coelho (Coordenadora Geral da
DG).
Denizye
Zacharias primeiramente ressaltou a importância da leitura do livro como uma
preparação tanto para o evento nacional da EBP quanto para o nosso evento
regional, a V Jornada da DG GO/DF, “Palavra
de Mulher: A experiência do feminino no tratamento analítico”, que ocorrerá
em outubro. O que veio em seguida, em sua fala, foi sem dúvida uma excelente
propaganda do livro, já que foram apresentados aspectos bastante relevantes da
obra como um todo e em específico do texto de Freud. Denizye mostrou que, nesse
texto, Freud aborda a questão da ruptura na relação mãe-filha e
também a importância da mudança de significação subjetiva do clitóris nessa
separação. Por fim, Denizye chama a atenção para o esclarecimento que Freud faz
sobre a dita passividade feminina e sobre a postura interrogativa do autor que,
segundo ela, tem “a delicadeza de um arqueólogo, de não destruir seu tesouro
com o próprio instrumento que o desvela”.
Jaqueline
Coelho, por sua vez, começou sua fala já com o ponto principal do texto de
Miller, numa citação em que o autor afirma que as mulheres têm um ódio muito
especial ao semblante. Jaqueline mostra que a tese milleriana parte justamente
do fato de que as mulheres têm uma relação muito próxima com o real, já que a
castração nelas é de origem. E isso também justificará a existência do
analista, pois a psicanálise seria da ordem de um discurso que não é semblante.
Por último, Jaqueline dá luz ao que Miller propõe como uma “verdadeira mulher”,
aquela que mais se distancia subjetivamente da posição da mãe, “a mulher que
tem”.
Ao
final das comunicações, apresentamos um vídeo* de divulgação da nossa jornada, que visa justamente à continuação
de toda a discussão proposta pelo livro sobre o feminino. A noite de lançamento
foi, portanto, um importante evento para o estímulo à curiosidade sobre esse
tema tão contemporâneo, estímulo esse que foi confirmado (felizmente) por um
sucesso de vendas do livro.
*NOTA
DE ORDÁLIA JUNQUEIRA: Destacamos
o vídeo feito pelas colegas da DG-GO/DF, Jaqueline e Denizye, com Ana Lúcia Lutterbach
Holck (EBP-RJ/AMP), no qual ela responde uma questão feita sobre o seu texto do
livro em que ela apresenta consequências clínicas do gozo feminino. Ana Lúcia
diz que, em uma análise, o analista opera mais na escuta do que na escrita,
apontando que existe uma relação entre a leitura, a escrita e a interpretação.
Ana traz o gozo feminino como sendo opaco ao sentido, à compreensão, que ele resiste.
Lembra a seguinte citação de Miller: “A repetição do Um comemora uma erupção de
gozo inesquecível”. Uma marca de gozo que não é atravessada pela compreensão
assim, esse significante da precipitação estaria mais associado à escuta e esse
gozo opaco é mais regido pela letra, estando mais próximo da leitura. Para
completar, Ana Lúcia lembra que quando Lacan trabalha o sinthoma – com “th” (se
referindo aqui ao final de análise) –, no final de seu ensino, isso já seria um
trabalho que é feito pelo analista a partir desse gozo opaco, naquilo que resta
como incurável em uma análise, sendo que, para esse incurável, são encontradas
soluções absolutamente singulares (pelo sujeito) e que o
analista faz a leitura do que o analisante pode fazer com isso.
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