O texto abaixo é uma resenha crítica sobre o testemunho de Silvana Modesto, mãe de um autista, no evento "Conversações sobre o autismo", que a Delegação Geral Goiás/Distrito Federal promoveu, no dia 22 de junho, em Brasília.
Meu filho Vítor Hugo... Um testemunho!
Por Ordália Alves Junqueira (Aderente da
EBP – psico.rdom@terra.com.br)
No centro da Escola estão os relatos
de passe. A importância dos testemunhos
na orientação lacaniana, sem dúvida, é enorme. O nosso esforço é fazer com que
o particular de cada relato, o achado singular, tenha consequências sobre o Universal
da teoria e assim, a investigação clínica da psicanálise avance. Cada caso nos
ensina, interroga a teoria constantemente trazendo sempre algo a mais. Considerando
essa perspectiva da orientação lacaniana, o relato dos autistas e dos pais de
autistas muito tem nos ensinado. Um ensino, principalmente, sobre a maneira
particular com que os autistas tratam o insuportável, da ordem da palavra ou do
olhar. Lacan assinalou que a criança autista alucinava e que ela “se protegia
do verbo”. Lacan sempre situou o autismo a partir da maneira como o sujeito se
defende daquilo que o invade, que eles eram “verbosos” e que tínhamos alguma
coisa a dizer-lhes. No testemunho que registro aqui, temos algo a mais: os pais
têm muito a nos dizer sobre seus filhos autistas. Laurent tem nos ensinado
isso, nos chamado a essa responsabilidade enquanto analistas, nos convidando a ouvir
esses pais, a nos aproximarmos deles, das associações de pais, pois temos muito
a aprender com eles e com os seus filhos autistas. Segundo Laurent, em sua
conferência no V ENAPOL-RJ (2011), se no campo da psicose, o testemunho de Schreber
foi a referência com a qual os psiquiatras da primeira geração dialogaram, “podemos
ler, com a mesma atenção, os testemunhos – no plural – dados por sujeitos
autistas”.
A psicanálise de orientação lacaniana
toma os autistas como sujeitos, tentando construir uma lógica do autismo que
poderá ser a resposta para muitas questões. Uma construção teórica que é uma
condição preliminar a todo tratamento possível dos autistas, como nos ensina
Laurent, parafraseando o famoso título de Jacques Lacan. Podemos pegar o
sujeito autista, tomando a sua relação com a linguagem, tanto em seu estatuto “verboso”
quanto em seu mutismo, e também em sua relação com o gozo, com o “Um do gozo”.
No último ensino de Lacan, J.-A. Miller nos conduz a uma leitura do “Um do gozo”,
totalmente distinta daquela do significante. Há um querer gozar que domina o
querer dizer, uma relação fundamental do sujeito com o gozo enquanto fala
sozinho, não passando pelo Outro. Nessa perspectiva, podemos até dizer que,
sair do autismo pode ser uma questão para todo sujeito, não só para os
autistas. O testemunho da mãe de Vítor, o nosso sujeito autista em questão, traz
uma contribuição preciosa às atuais discussões do autismo, no âmbito da Associação
Mundial de Psicanálise. Orientados pelo axioma lacaniano segundo o qual a criança
autista está na linguagem, embora não esteja no discurso, essa mãe nos convida
a “escutar” o que seu filho tem a dizer em sua mudez. A nós caberá uma questão:
teremos algo a dizer-lhe?
Os autistas são estrangeiros em
qualquer sociedade.
Jim Sinclar
O que queremos dele...
Esta parece ser a grande dificuldade
dos profissionais que lidam com o autista: “Fazer com que ele entenda o que
queremos dele!” afirma Silvana Modesto, mãe de Vítor Hugo, autista de vinte
anos, em um emocionante depoimento feito em Brasília-DF, em 22 de junho último,
no Evento de Biblioteca da Delegação Geral GO-DF, para o lançamento do livro “Autismo(s)
e atualidade: uma leitura lacaniana”, editado pela Scriptum em parceria com
Escola Brasileira de Psicanálise.
Silvana inicia seu relato trazendo que
Vítor nasceu “lindo e saudável”. Por volta de seis meses percebeu que ele tinha
um comportamento diferente do irmão mais velho, chorava muito e não jogava
beijinho, quando solicitado. Com um ano, outros comportamentos mais exacerbados
apareceram: gostava de se isolar correndo do grupo de crianças; apresentava
movimentos repetitivos como bater um dedinho no outro, balançava o corpo como
se estivesse dançando e girava em seu próprio corpo; não sabia brincar de “faz
de conta” e havia um atraso de fala. Os médicos diziam que ele “não tinha nada”.
Com um ano e meio colocou-o na escola e foi orientada a levá-lo para uma avaliação.
O diagnóstico acusou retardo motor, déficit de atenção e hiperatividade.
Fez um tratamento com psicopedagoga e fonoaudióloga. Silvana diz que suspeitava
que seu filho fosse autista, mas todos os profissionais que o avaliavam diziam
que não. Quando Vítor tinha três anos, ela perde sua mãe em um acidente de
carro. Relata que ficou muito envolvida em sua dor, em seu luto e deixou de dar
a atenção que ele merecia, por isso ele “regrediu”. Foi levado para São Paulo,
fizeram uma infinidade de exames, mas nada foi constatado.
Somente aos oito anos, Vítor foi
diagnosticado como uma criança autista, mas, antes disso, aos quatro anos, uma
psicóloga havia feito um diagnóstico de retardo mental. Confessa que é
como se tivesse assinando um atestado de incompetência. Nessa época passou por
três momentos principais. Inicialmente se sentiu culpada por ter feito
seu filho assim: algo da gravidez, uma causa familiar, religião, dentre outras
coisas. Depois veio a fase da revolta: “fiquei muito embrutecida,
magoada com as pessoas”, pois achava seu filho inteligente e esperto, algo que
não condizia com o retardo mental que a psicóloga diagnosticou. E por
fim, decidiu que não tinha solução e que precisava conviver com aquilo, tinha
que escolher um caminho: ou se revoltaria a vida toda ou tentaria ser feliz.
Decidiu enfrentar e foi em busca de ajuda.
Matriculou Vítor na primeira turma da
Pestalozzi de Goiânia-GO onde trabalhou como voluntária por um tempo.
Diz que quando começou a conviver com aquelas crianças teve certeza que seu
filho era um autista. Ficou feliz e iniciou uma nova etapa começando a estudar,
pois, segundo ela, precisava entender como seu filho funcionava. ”Comecei a
trabalhar com ele em casa e eu ficava revoltada com a Terapia Comportamental,
pois ele não tinha um ‘querer dele’”. Passou a ensinar tudo para ele, tratando-o
como “ser humano”, desde escovar os dentes a fazer um suco, constatando o óbvio:
que o autista precisa ser respeitado, ser entendido e que ele tem as vontades
dele. A partir daí, montaram uma Associação de Pais de autistas que está em
funcionamento até hoje.
Só não existe o Outro...
Silvana diz que seu filho hoje, com
vinte anos, está muito bem. Descreve uma fase meio complicada que passou com
ele na adolescência, dificuldade essa, acredita, pelas alterações hormonais,
como por exemplo: rebeldia, bater de frente com os pais, o que, em sua
compreensão, a maioria dos adolescentes faz. Com relação à sexualidade, diz ter
sido tranquilo, pois, com a cumplicidade que conseguiu estabelecer entre eles -
considerando que foi “a maior prova de amor que dei ao meu filho” - orientou-o
a ir para o quarto quando desejasse se masturbar e completa: “Ele se masturba!
Existe o orgânico! Só não existe o Outro!”.
O método é o amor...
O método da Escola para o autista é o
amor. Segundo Silvana o que acentua a intelectualidade é a afetividade. “Você
consegue tudo com ele, desde que seja com amor”. Vítor não é verbal, não fala
nada. Lembra que somente uma vez, quando acabou a energia em sua casa, ele foi à
porta do quarto dela e falou, pela primeira e única vez: “Mamãe! Mamãe!”.
Temos muito a dizer...
Pelo fato de não ser verbal, Silvana
desenvolveu com ele uma comunicação com figuras, que ele guarda em uma pasta.
Afirma que o método formal não pode falar com ele. No método que desenvolveu com
as figuras existe a comunicação com ela, e que isso diminui os seus
comportamentos agressivos. Aqui, Silvana afirma: “Os pais tem um papel
fundamental! Os profissionais são importantes, mas os pais têm muito a dizer,
sabemos muito, captamos detalhes que podem ter um ganho enorme”. Uma
psicopedagoga, que fazia um trabalho de pesquisa com a CAC (Comunicação
Alternativa no Computador), ficou surpresa como Vítor aprendeu com ela sem método,
apenas ouvindo o que a mãe falava e usando com ele. Nesse momento Silvana pergunta:
“Como dizer que uma pessoa dessas é um DM? Ele tem uma inteligência que não foi
descoberta!”.
A falácia da ciência!
Silvana apresenta afirmações que
alguns “especialistas” fazem sobre os autistas e que, segundo ela, “nem sempre
são verdadeiras”. A primeira é que o autista não faz contato visual. Ela
discorda dizendo que ele faz sim, “é um contato profundo, só não consegue
sustentar!”. Silvana continua trazendo um segundo ponto importante: que o
autista tem sentimentos de amor, raiva, alegria, algo que contraria muitos
pesquisadores. A diferença está na forma que ele expressa, utilizando um exemplo:
“feliz por ter ganhado uma coca-cola Vítor morde a mão ao mesmo tempo”. Quanto
ao autista não sentir dor, ela contesta: “Ele sente dor sim!”, lembrando que é
preciso aprender a respeitar a sua forma de expressar os seus sentimentos. Em
relação à utilização de medicamentos, Silvana diz que “é muito relativo, o meu
filho usa, me arrependo amargamente, mas eu não sabia o que fazer na época”. E quanto
às Escalas de Avaliação, ela diz que não concorda, pois “ele não entende
o que você pede para ele”, frisando que a dificuldade maior do autista está
justamente nisto: “ele entender o que você pede!”.
Não chorem por nós...
Finalizando seu depoimento, Silvana
diz que trabalha na Associação de Autistas de Goiânia-GO e que o objetivo, o
compromisso maior da Associação é com a divulgação, para se construir uma
sociedade melhor para as crianças autistas. Segundo ela, as pessoas precisam
saber que eles existem, que eles são assim e que vão permanecer assim. “Os
autistas são estrangeiros em qualquer sociedade”. Por fim, faz uma citação de
Jim Sinclar, um "Autista Asperger",
retirada de seu texto: “Não chorem por nós”.
[...] Dá mais trabalho se comunicar
com uma pessoa cuja linguagem não é a nossa. E o autismo vai mais fundo
que a linguagem e a cultura. Os autistas são estrangeiros em quaisquer sociedades.
Você vai ter que abrir mão de toda a sua apropriação de significados
compartilhados. Você vai ter que aprender a voltar a níveis mais básicos, sobre
os quais provavelmente você nunca tenha pensado, vai ter que abandonar a
certeza de estar em seu próprio território familiar de conhecimento do qual você
está a serviço e deixar o autista lhe ensinar um pouco da sua linguagem, guiá-lo
um pouco pra dentro do seu mundo. [...] Se esta busca te excita então nos
acompanhe, na resistência e na determinação, na esperança e na alegria. A
aventura de uma vida está toda diante de você. (www.google)
NOTA:
Assim responde Silvana, por e-mail, quando informada sobre a
publicação da resenha de seu depoimento: “Agradeço
a oportunidade de poder falar sobre minha experiência com meu filho autista,
pois acredito que nós pais temos muito a contribuir com os profissionais
que venham a atender nossos filhos e só assim vamos ajudar a conscientizar a
sociedade da necessidade de olharmos esses seres com mais respeito e
humanidade. [...] não sei no que pode ajudar, mas de fato, penso e ajo assim e
me considero uma co-terapeuta no tratamento de Vítor Hugo; gosto de me inteirar
e participar de tudo”.
Goiânia, 30 de junho de 2012.
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