24 de maio 2012 - 21:50 h [GMT+1]
NÚMERO 214
Eu não teria perdido um Seminário por nada nesse mundo— PHILIPPE SOLLERS
Ganharemos porque não temos outra escolha — AGNÈS AFLALO
Uma escolha: Manter-se próximo ao real ou nutrir as bolhas especulativas
Por Bernard Porcheret
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Eu seria menos intranquilo? Eu seria menos intranquilo se tivesse compartilhado a crença cega na redução do campo psiquiátrico ao biológico? Eu seria mais eficaz se o psiquiatra prudente que sou se deixasse penetrar pelo marketing outrora tão generoso de tantos laboratórios farmacêuticos?
Eu teria estado maravilhado ou irônico frente as certezas adquiridas de tantos colegas? São eles sérios ao serem tão pouco exigentes quando capturados pelos resultados ditos científicos, quando a estatística ganha, para eles, o lugar de prova, mas que esta mesma estatística não tem rigor algum, nem a abrangência necessária para ser válida? Eu seria ultrapassado ao considerar com ironia as ações médicas quando elas se baseiam na nosografia, nas etiologias, nas prescrições?
Eu seria menos intranqüilo se tivesse consentido, ainda jovem, a sedução dos laboratórios farmacêuticos, aos seus jantares, aos seus cruzeiros, pseudo-fóruns ou simpósios servindo para justificar os presentes? Esses mesmos laboratórios que, ao longo dos anos, desenvolveram junto aos médicos e ao público uma retórica da promessa1? Eu teria me tornado ao longo do tempo incompetente quando ironizo as descobertas pseudo-científicas?
Não, eu não seria menos intranqüilo, porque a clínica termina sempre por objetar as promessas quaisquer que sejam; o homem honesto deve ser sempre levado a sério, questão de ética. Mais, sem dúvida alguma, o gosto pela clínica teria desaparecido, dando lugar ao despeito! Seria substituído pelo organizacional, eu teria me tornado um conselheiro oficial, especialista em semiologia mental. Nenhuma bem-aventurança no horizonte, talvez o beneficio imaginário e preciso do exercício de um poder administrativo ou especializado, e em seguida a aposentadoria esperada. O tédio teria me ganhado. Mas que mosca me picou então, há quarenta anos, para que os efeitos dessa picada fossem logo impostos a mim, a tal ponto que eu pense não ter derrogado essa posição irônica salutar.
Fui virtuoso ao recusar as viagens oferecidas em troca de pesquisas às vezes inescrupulosas? Não, não se trata de virtude. Tive a perícia inata para ter tido, logo de início, um olhar crítico sobre os artigos científicos que correlacionavam com uma precipitação espantosa esquizofrenia e ventrículos cerebrais, esquizofrenia e genética? Tampouco. Trata-se de outra Coisa: um instante de ver.
“Para mim é muito tarde” Porque, há várias décadas, essas palavras de Freud, em sua carta a Fliess de 29/08/1888, ficou gravada em minha memória: … para mim é muito tarde?”. Em várias cartas anteriores, Freud reclama para Fliess de ter poucos pacientes e de estar isolado. Fliess lhe responde que ele deveria retomar a medicina geralista ao invés de se especializar. Freud guarda o silêncio por longo tempo, depois lhe responde: … para mim é muito tarde. Meus estudos insuficientes não me deixam a possibilidade de fazer medicina generalista; existe em minha formação médica uma lacuna difícil de preencher. Eu aprendi estritamente o necessário para ser neurologista. Ele acrescenta logo depois: Nessas condições, um adulto não sonharia em modificar os fundamentos de sua existência. Eu sou obrigado a ficar como estou, sem, no entanto, ter quaisquer ilusões sobre as condições precárias do meu estado.
Porque eu tinha relacionado suas palavras às cartas de 21/09/1897 e de 03/10/1897, até situá-las nesta última? Eu preciso lhe confiar logo o grande segredo que, ao longo desses últimos meses, se revelou lentamente. Eu não acredito mais em minha neurótica… Nesse colapso geral, somente a psicologia segue intacta. O sonho conserva certamente seu valor e eu atribuo sempre mais valor a meus inícios na metapsicologia. Que pena, por exemplo, que a interpretação dos sonhos não é suficiente para fazer você viver! Freud prossegue na carta seguinte: Poucas coisas para te dizer no que toca minhas relações com o exterior, mas em mim mesmo alguma coisa muito interessante acontece. Há quatro dias, minha auto-análise, que considero como indispensável para a compreensão de todo o problema, prossegue nos meus sonhos e me forneceu as provas e as informações mais sérias.
Freud realiza nesse momento em suas pesquisas sobre os sonhos, os lapsos, os chistes, os esquecimentos, os sintomas, isso que está em jogo fundamentalmente para os seres falantes, e que Lacan estabelecerá devidamente: a relação do sujeito com a língua. Nem tanto o conteúdo do sonho interessará a Freud, mas o jogo significante e também seu umbigo.
O frescor do inconsciente transferencial. Decifrado muito tempo depois, este “erro” de leitura testemunha que um instante de ver decisivo em mim trouxe conseqüências. Ele produziu uma descontinuidade, um antes e um depois. Isso testemunhava este enunciado: para mim é muito tarde. É evidente que esse momento se encontra em cada analista, sempre singular. Este instante de ver é um vislumbre fascinante do real como impossível de suportar. Logo descoberto, mas deixando sua marca, somente uma psicanálise levada suficientemente longe permite em seguida enlaçá-lo, localizar suas reduções e por vezes produzir a última palavra. Uma psicanálise com suas partes sucessivas é esse tempo para compreender isso que foi vislumbrado? É, em todo caso, isso que eu pude concluir. Marca indelével de um gozo interativo devido ao impacto do material significante sobre o corpo, que desse choque faz acontecimento. O universo significante é recoberto pelo universo de significações no qual nós estamos imersos. Exceto talvez o poeta o qual Freud, Lacan e muitos outros psicanalistas dão toda sua atenção. Este, com efeito, está desperto para o gozo da linguagem, o gozo de suas solidificações sem sentido, como escreve Michel Leiris. Estas palavras da linguagem que não fazem parte da classe da língua socializada, e que, para ele, comanda sua prática estética. O poeta as faz valer em sua arte, seja moderna ou clássica. O que sabe o poeta? A materialidade da língua, o gozo das palavras, sua primitiva ausência de sentido. Para Marguerite Duras, as palavras são perigosas, carregadas fisicamente de pólvora, de veneno. Para Jean-Jacques Rousseau, a língua materna é obscena.
Ainda que a escrita literária e a escrita analítica não seja idêntica. Se psicanálise e poesia tenham ligação quando desvelam o real na língua, por outro lado, elas divergem quanto ao tratamento do real pelo semblante. A psicanálise, pela palavra, faz vacilar os semblantes que revestem a marca real da língua e produz ali a letra; a poesia, direção inversa, pela letra literária, a inventa novamente.
O dispositivo analítico é uma clínica sob transferência que por meio do semblante permite enlaçar esta marca indelével de um gozo interativo devido ao impacto do material significante sobre o corpo, que desse choque faz acontecimento. O inconsciente transferencial é o que permite ao sujeito neurótico de enlaçar o inconsciente como real. O peso recai sobre o praticante, e sobre o meio analítico no qual ele se forma, de ocupar sua atenção, quer dizer sua relação ao inconsciente, e de provar toda seu frescor operatório.
O gosto pela clínica. Assim se decide o gosto do praticante pela clínica. E somos muitos que compartilham com isso. Para além de uma abordagem holística e diacrônica, e para além da particularidade das classes, o psicanalista visa ao único, à singularidade disso que pode fazer acontecimento para um sujeito, fenômeno elementar, e a maneira com a qual este pode tratá-lo. Esse real não se deixa jamais absorver completamente pelo semblante que o recobre, e é por isso que ao lado das erupções mais ou menos fugazes na psicopatologia da vida cotidiana, há doentes. Portanto o praticante, não sem negligenciar os aportes médicos e sociais, que ajudam a desangustiar, e a atenuar a eventual ruptura do laço social, se coloca ao seu lado. Seja para ajudar a dissipar com tato as ficções do ser que identificam ou esmagam o sujeito se ele é neurótico. Seja quando não é o caso, para ajudar a desenvolver as defesas menos onerosas em torno do precipício de sua existência, para uma pragmática singular visando a arranjar um gozo deslocalizado.
Um ironia construtiva. Como Jacques-Alain Miller tinha justamente mostrado, há muitos anos, e que seu curso do ano passado permite de argumentar, trata-se de uma clínica irônica. Quer dizer uma clínica que faz a distinção radical entre o real e o semblante, entre a existência e o ser, seja entre henologia e ontologia. Mas que faz do sinthoma sua parte bela, gancho único do semblante e do real. Ainda é preciso que o praticante o tenha vislumbrado, que este instante de ver traga consequências, que ele o tome na medida e não recue frente a tarefa. Pode-se esperar que sua cura analítica, feita de aberturas e fechamentos do inconsciente, o ensine pouco a pouco isso que funda a qualidade irônica de sua posição. O despertar, a curiosidade e o entusiasmo são os melhores sinais. E, aqui, notemos que entusiasmo não vem sem uma certa intranquilidade, que em todo caso nós estamos longe da bem-aventurança. Como não recuar frente esse toque do real? O “eu não quero saber de nada” é da estrutura. Uma cura analítica, com um ou vários analistas, feita de vários períodos, não acontece sem uma nuvem com um enlaçamento com uma prática e uma escola analítica que deve conservar seu despertar. Quantos recuaram, cederam em seu desejo, doentes ou não, decepcionados e tristes, sem dúvida! A impotência é sempre a máscara do impossível.
Uma nova loucura higienista. A dinâmica aditiva da nossa sociedade sobre determina o consentimento aos objetos a consumir, aos saberes fechados, aos dogmas não fundamentados que prometem a felicidade. É a via prometida para preencher toda divisão subjetiva, para sair do sentimento de impotência rejeitando o impossível.
A expressão bolha especulativa utilizada por François Gonon sob a forma de uma pergunta: “A psiquiatria biológica: uma bolha especulativa?” é oportuna. Uma bolha financeira quer dizer que o nível do preço de um produto é muito excessivo em relação ao valor financeiro intrínseco aos bens ou às trocas ativas. A lógica de formação dos preços tornou-se “auto-referenciada”. O raciocínio de arbitragem entre os diferentes ativos não se explicam mais. Ele repousa sobre uma crença, a promessa, que o valor do produto será maior amanhã. É uma bolha de sabão que sobe e estoura, uma bolha de chiclete que não para de crescer e estoura na cara. O termo bolha faz referência ao Crash da bolsa inglesa de 1720 que ocasionou uma lei de regulação. Ele inspira o poeta Jonathan Swift, que foi uma das muitas vitimas. Swift compara a variação do curso da ação à ascensão e à queda de Ícaro. Um outra vitima: Isaac Newton, que ocupava a função de Mestre da moeda em Londres, teria declarado: “Eu posso prever o movimento dos corpos celestes, mas não o da loucura das pessoas”. Isso nos indica que, quando se trata da psiquiatria, que a loucura não está lá onde a gente espera!
François Gonon, em seu artigo bem fundamentado publicado na revista Esprit, indica que depois dos anos 1960, “as pesquisas em neurociências não conseguem nem desenvolver indicadores biológicos para o diagnóstico das doenças psiquiátricas nem novas classes de medicamentos psicotrópicos”. Ele acrescenta que os estudos genéticos são muito pouco evidentes e “que é ilusório esperar descobrir um alvo molecular específico responsável por transtornos freqüentes”. Por outro lado, quanto aos transtornos psiquiátricos graves, o surgimento anos 50 dos psicotrópicos e dos neurolépticos, e todo mundo concorda, foi um aporte maior ao seu tratamento. Podemos lembrar do relatório Zarifian encomendado pelo governo em 1996 e que denunciou muitos pontos: a generalização da prescrição dos psicotrópicos, ligada a multiplicação dos sintomas potencialmente patológicos no DSM, a deriva do sintoma construído como um alvo para o medicamento; este sob a pressão dos industriais, com a cumplicidade dos meios acadêmicos. Zarifian denunciava um “lobby” do meio ambiente que consiste em induzir por meio de técnicas de comunicação sofisticadas, frequentemente em escala mundial, as representações da clínica, da patologia ela mesma e de seu contexto assim como do tratamento, que sejam os mais favoráveis possíveis a prescrição medicamentosa”. François Gonon mostra como o discurso abusivo e reducionista da psiquiatria biológica é produzido, qual o impacto sobre o publico, e quais são suas conseqüências sociais. Sua hipótese é que “a psiquiatria biológica será então convocada para demonstrar que o fracasso social dos indivíduos é resultado de suas deficiências neurobiológicas”.
Então, tomemos cuidado com toda retórica da promessa. Se as crianças não param de ser fascinadas pelas bolhas de sabão, e os adolescentes por aquelas dos chicletes, não esqueçamos que os seres falantes são sempre prontos a especular se fechando em suas ficções. É isso que deve saber um psicanalista.
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1François Gonon, «La psychiatrie biologique: une bulle spéculative?», Esprit, novembre 2011, p. 54-73. François Gonon é neurobiologista, Diretor de Pesquisas no CNRS junto ao Instituto das doenças neurodegenerativas da universidade de Bordeaux.
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