23 de jul. de 2012

ESCUTEM OS AUTISTAS! (LACAN COTIDIANO Nº 155)

NÚMERO 155
Eu não teria perdido um seminário por nada no mundo — Philippe Sollers
Nós ganharemos porque não temos outra escolha  AgnÈs Aflalo


▪ CONTRIBUIÇÃO AO DEBATE SOBRE O AUTISMO▪
14 de fevereirode 2012

ESCUTEM OS AUTISTAS !

por Jean-Claude Maleval


Os autistas que escrevem não são loucos literários. Eles não acreditam, como esses últimos, ter feito uma grande descoberta. São sujeitos que devem ser levados a sério. Eles se exprimem para mostrar que são seres inteligentes, paraa serem tratados com mais consideração, e para pedir respeito para suas invenções elaboradas para conter a angústia. Eles desejariam que se interditasse legalmente sua escuta para submetê-los, mais frequentemente sem seu consentimento, a métodos de aprendizagem ? É preciso tomar o partido de escutá-los ou o de coagi-los ? Escolher escutá-los expõe a se confrontar com opiniões perturbadoras.
   Uma das autistas de alto nível dentre as mais conhecidas, Donna Williams, não hesita, em relação ao tratamento do autismo, a se engajar fortemente : « a melhor abordagem », escreve, seria «  aquela que não sacrificasse a individualidade e a liberdade da criança com a idéia que se fazem da respeitabilidade e de seus próprios valores os pais, os professores como seus conselheiros 1 ». Uma outra confirma: « … as pessoas que mais me ajudaram foram sempre as mais criativas e as menos ligadas a convenções 2»  A psicanálise não é uma, ela é múltipla, como o são as práticas psicanalíticas ; elas têm todas entretanto um ponto em comum : são fundadas sobre a escuta do outro.  Sonhar em interditar legalmente a escuta de um grupo humano revela uma ideologia política subjacente das mais inquietantes. Certamente, nem toda escuta é psicanalítica, mas como o legislador fará a diferença entre a prática psicanalítica nociva da escuta e a benéfica autorizada ? É ir além de seu papel de defenderCaixa de texto: Sonhar em interditar legalmente a escuta de um grupo humano revela uma ideologia política subjacente das mais inquietantes































































































































 as abordagens surdas para a escuta das singularidades do sujeito autista ? Isto parece estar em ruptura com a Declaração dos direitos das pessoas autistas, proposta por Autisme Europe e adotada pelo Parlamento Europeu em 9 de maio de 1996. Nesta última, é demandado reconhecer e respeitar os desejos dos indivíduos, de sorte que os autistas deveriam ter  « o direito de não serem expostos à angústia, às ameaças e aos tratamentos abusivos». Como isso poderia se fazer sem os escutar?
   Todas as práticas psicanalíticas têm em comum a defesa do respeito do singular e sua não reabsorção no universal.  É o que desejavam unicamente os autistas que se exprimem. Não é aos estudos randomizados permitindo a avaliação científica impecável às quais convém demandar em primeiro lugar como fazer aí para tratar o autismo ; são os sujeitos concernidos que têm mais a nos ensinar. Eles possuem um saber precioso sobre si mesmos. Levemos a sério os conselhos dados por Jim Sinclair aos pais, também pertinentes para os educadores e os clínicos : « nossos modos de entrar em relação, afirma em nome dos autistas, são diferentes. Insistam sobre as coisas que suas expectativas consideram como normais, e reencontrarão a frustração, a decepção, o ressentimento, talvez mesmo a raiva e o ódio.  Aproximem-se respeitosamente, sem preconceitos, e abertos a coisas novas, e voces encontrarão um mundo que não teriam podido jamais imaginar3». Uma autista muda culta tal como Annick Deshays mostra-se também veemente para reivindicar um  cuidado dos autistas que não faça impasse sobre a singularidade deles :  « Por que fazer das discussões intermináveis sobre os escritos oficiais que dizem respeito aos encargos das pessoas autistas se os interessados eles mesmos não têm o direito às informações, ainda menos à palavra ?»escreve em seu computador. Ela se opõe aos métodos educativos que elaboram a priori o programa das etapas do desenvolvimento a franquear :  « Elaborar um plano científico de educação com os autistas, de maneira uniforme e unilateral, dispensa um regime de ditadura protetora, afirma. […] É mais importante  de início achar a faculdade (ou as faculdades) de cada pessoa autista antes de estabelecer um passo educativo». Ela considera que « Fazer  comportamentalismo é incitar tornarmo-nos « fáceis » por uma formatação que reduz nossa liberdade de expressão ; é endurecer nosso grave problema de identificação e de humanização». Ela procurafazer-se entender pelos especialistas para passar a seguinte mensagem :  « Dizer aos que decidem, desde hoje, que pensar por nós corre o risco de esvaziar a  « quintessência » de nossa razão de existir 5» Contra esses métodos, ela defende « o risco de um diálogo », à vontade de « domar o medo isolante», ela convida mesmo buscar  « gostar dos traços humorísticos próprios » da maneira dos autistas de « verem a vida », tudo isso, acrescenta, « obriga a trabalhar mais em unicidade do que em uniformidade, mais em relação dual que em propostas unilaterais ». Ao contrário da maioria dos autistas, ela pede para ser considerada como um sujeito capaz de uma criatividade que convém levar em conta : «Içar nossos conhecimentos segundo nossa vontade, sublinha,  desdobra um potencial  que  nos é próprio ». « Quanto mais tomo parte nas decisões que me concernem, acrescenta, mais tenho a impressão de existir por inteiro 6».
Na falta de serem ouvidos, muitos autistas terminam por se resignar ao que se lhe impõe ; em revanche, quando o sujeito possui os meios de se exprimir, ele se insurge. Assim Williams não esconde sua revolta na presença de certas técnicas educativas.  Nos anos 1990, ela fez um estágio na Austrália numa casa especializada para crianças com dificuldade. Ela observou lá dois educadores solícitos em seu trabalho com um autista. Ela ficou surpresa pelo desconhecimento deles do mundo inetrior da criança. « Eu fiquei doente, escreve, de vê-los invadir seu espaço pessoal com seus corpos, seu hálito, seus odores, seus risos, seus movimentos e seus barulhos.  Quase loucos, ele agitavam mordedores e objetos diante dela como dois bruxos muito solícitos esperando exorcisar o autismo. Segundo eles, aparentemente, faltava à criança uma overdose de experiências que sua infinita sabedoria « do mundo » sabia trazer para ela. Se eles pudessem utilizar uma alavanca para forçar a abertura de sua alma e entupi-la « de mundo », eles o teriam feito sem dúvida sem mesmo notar a morte de seu paciente na mesa de cirurgia. A menininhgritava e se balançava, tapando as orelhas com seus braços para amortecer o barulho e revirando os olhos para ocultar a matracagem da detonação visual. Eu observava essas pessoas, desejando que eles conhecessem, eles também, o inferno dos sentidos. Eu observava a tortura de uma vítima que não podia se defender numa linguagem compreensível. […] Esses cirurgiões operavam com ferramentas de jardinagem e sem anestesia 7» Sem dúvida se inspiravam num método clássico de aprendizagem, que consiste a apresentar um estímulo em sequencias repetidas, depois a observar a resposta da criança, e a dar uma consequência para reforça-la ou a inibir. É uma aplicação sistemática desses princípios que é defendida pelo método ABA, fundado por Lovaas. Isso durante dois anos, à razão de 40 horas por semana, com crianças cujo consentimento não é pedido, mesmo que saibamos que para maioria eles se ressentem das perguntas como intrusivas e ameaçantes.
Desde sua invenção a psicanálise perturba, revelando que o homem não é o senhor de si mesmo, contrariamente às ilusões da razão, ela não anuncia uma boa notícia. Todavia, a psicanálise perdura apesar das críticas incessantes, o que testemunha antes de tudo sua vitalidade.  Atualmente, é no terreno do autismo que se concentram os ataques contra a psicanálise, vindo em particular do « Autismo France », associação de pais da qual o deputado Fasquelle retoma o argumento em favor do métodoABA, submetendo um projeto de lei visando interditar as práticas psicanalíticas.  Em primeiro lugar, entre essas, o le packing, já praticado por Esquirol, sob o nome de enfaixamento úmido, cinquenta anos antes do nascimento de Freud...   Os partidários do método ABA saíram recentemente de uma controvésia científica legítima produzindo um filme de propaganda severamente condenado pela justiça seguindo as queixas de psicanalistas enganados pela diretora do filme.  O defensor de Sophie Robert, a diretora, tentou fazer valer que esta condenação conduziria à interdição dos filmes de  Mickael Moore se ela fosse confirmada. Mickaël Moore é um diretor americano de filmes engajados (Bowling for Columbine, Farenheit 9/11). Ele sofreu numerosos processos, e ganhou todos. Deve então haver uma diferença entre sua prática e a de Sophie Robert. Duas parecem evidentes. Mickaël Moore se coloca na cena e filma as questões que ele faz a seus interlocutores. Sophie Robert não aparece e corta na montagem certas questões das respostas dadas, o que muda evidentemente o alcance da resposta. Por outro lado,  Mickaël Moore interroga personalidades representativas das opiniões que combate ; enquanto que Sophie Robert interroga certamente algumas personalidades representativas, mas ela convoca além disso psicanalistas que ninguém conhece e que exprimem opiniões que só engajam a si mesmos. Quem quisesse utilizar o mesmo procedimento de propaganda para objetar contra o método ABA iria procurar um educador partidário deste método utilizando ainda as punições corporais 0 e não seria sem dúvida difícil de encontrar – até mesmo um nostálgico dos bons velhos coques  elétricos inicialmente utilizados por Lovaas. Tratar-se-ia certamente de propaganda porque o método defende hoje não maos recorrer ao condicionamento aversivo e às punições. Em poucas palavras,  se Mickaël Moore é tão presente em seus filmes, podemos deduzir que tem orgulho do que faz. Sophie Robert escolheu se esconder. Delion, Golse, Widlôcher e Danon-Boileau denunciam « uma montagem truncada a serviço de uma causa a demonstrar» e visando a lhes ridicularizar8. Os psicanalistas da ECF, Laurent, Stevens e Solano, não recuaram a fazer um processo e a deformação maligna de suas proposições foi confirmada pela justiça.
Os partidários da ABA militam contra uma psicanálise que tanto inventam quanto caricaturizam.Ela culpabilizaria os pais. Esta tese de  Bettelheim sempre citada não era mais unanimidade em seu tempo. Eles recusam desonestamente levar em conta que nenhum psicanalista sério não a sustenta hoje. Eles sublinham que o autismo seria um problema neurobiológico. Ora os dados mais favoráveis a  esta tese põem sempre em evidência que os elementos ligados ao ambiente  interferem com uma possível predisposição genética. Se é um fato bem estabelecido é que diversos métodos aplicados de maneira intensiva (e de preferência no caso a caso) chegam a modificar as condutas dos sujeitos, é preciso sublinhar que não existe nenhum tratamento biológico do autismo e que a descoberta da plasticidade cerebral dá conta da eficiência das práticas psicológicas tanto quanto dessas dos métodos  de aprendizagem.
Caixa de texto: A mãe de uma criança autista, Hilde de Clercq :   « É incontornável levar em conta suas maneiras de lutar contra a angústia, o que negligenciam as técnicas de ensino »































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































Por mais bem intencionadas que sejam, esses últimos encontram limites. Sua eficácia, constata o relatório Baghdadli, é geralmente limitada à aquisição de uma competência específica focada pela intervenção estudada, de sorte que ela não implica numa mudança significativa do funcionamento da pessoa que se beneficia da intervenção10.
Certamente, os métodos de ensino invocam a seu favor as estatísticas eloquentes atestando sua eficácia. Sem entrar em intermináveis discussões sobre suas interpretações e sobre o que é realmente captado pelos números, sublinhemos, sobretudo, que é incontestável que os resultados ao menos equivalentes podem ser obtidos por outros métodos que respeitam mais o sujeito. Se sustentando unicamente ao que contam as mães que conseguiram, pelos métodos empíricos de inspiração diferente, retirando seus filhos do retiro  autístico, parece claramente que a melhora obtida pela doçura e a brincadeira não são menores que aquelas adquiridas pela violência e a coerção. Quando os Copeland descobrem nos anos 60 que recorrer aos “carinhos-recompensas e aos tapas-punições » com sua filha melhora claramente  seu comportamento, eles creem ter encontrado a chave por tanto tempo procurada no tratamento do autismo. « Eles tentaram então fazê-la tocar todos os objetos diante dos quais ela tinha testemunhado terror. Eles eram incontáveis. Na primeira vez, ela gritou com todas as suas forças com muitas repetições, o passo pareceu impossível. Mas enfim eles a puxam solidamente pelo punho e administram-lhe uma correção a cada tentativa de resistência.  Já que tal era o método adotado, era preciso segui-lo. E, efetivamente, ao curso de semana extenuantes, as reticências de Anne claramente derreteram11» Ora as melhoras obtidas mais recentemente por Anne  Idoux-Thivet com seu filho não foram menores, entretanto ela sempre recusou a « usar o bastão e a cenoura », praticando uma « ludoterapia » orientada pelas reações, as angústias e as manifestações da curiosidade de seu filho12. Em poucas palavras, a aproximação desses dois testemunhos opostos atesta que o que pode ser obtido pela violência pode ser melhor ainda pela brincadeira. O tratamento de  Dibs operado por V. Axline, apoiando-se nos jogos de criança acompanhados numa abordagem não diretiva, tinha sido estabelecido desde os anos 1960.
Uma outra mãe de uma criança autista, Hilde de Clercq, considerando a diversidade dos métodos chegou na seguinte constatação, a qual só podemos subscrever,« É bem mais agradável, para todo mundo, seguir o modo de pensar dessas crianças e de ficar positivo, do que impor-lhes se adaptarem e serem confrontados constantemente aos problemas  de comportamento. A melhor estratégia para evitar problemas de comportamento é antecipá-los 13».  Ora, para fazer isso, é incontornável levar em conta a maneira deles de lutar contra a angústia, o que as técnicas de aprendizagem negligenciam.
Todos os métodos de tratamento do autismo possuem seus sucessos e seus fracassos. Esta diversidade é resultado das diferenças consideráveis no funcionamento e nas expectativas dos sujeitos autistas. Entretanto, ela não tem o mesmo posicionamento ético: para os métodos comportamentais e cognitivo-comportamentais a fonte da mudança está situada essencialmente nas mãos do educador, e depois dos pais; em revanche, para os métodos que levam em conta a subjetividade, trata-se de estimular e acompanhar uma dinâmica da mudança inerente à criança. Os métodos psicodinâmicos fazem a aposta de uma responsabilidade do sujeito que pode conduzir até sua independência por vias que devem ser inventadas e não programadas antecipadamente (quem confiaria nos companheiros imaginários de Williams ou na máquina de compressão  de Grandin ?) ; as abordagens educativas operam uma outra escolha: elas trabalham com uma criança que deve ser guiada na rota de um desenvolvimento normalizado, suposto valer para todos. Daí elas chegam certamente com frequência a melhorar a autonomia delas, mas penam para favorecer sua independência.  Numerosos são hoje os autistas de alto nível que relatam como conseguiram a autonomia e a independência, nenhum dentre eles relatou ter sido beneficiado de maneira intensiva de métodos educativos, todos relatam em revanche ter inventado métodos muito originais para tornar compatível o funcionamento autístico deles com o laço social. 
   A psicanálise do século XXI não é a caricatura combatida pelo « Autisme France ». A maioria de seus detratores ignora que alguns psicanalistas (certamente sobre esse ponto ainda minoria) consideram que o autismo não é uma psicose, que contra a opinião de Tustin o objeto autístico pode servir de apoio precioso para o tratamento, que as interpretações significantes ou edipianas são a proscrever, que uma « doce forçagem » (A. Di Ciaccia) é necessária para suscitar as aprendizagens, etc. O que fica então da prática analítica? No essencial a capacidade de acompanhar o sujeito em suas invenções originais efetuadas para lidar com sua angústia. Os métodos de aprendizagem conduzem talvez um autista à autonomia, mas nunca à independência em relação à sua família. Esses métodos postulam, aliás abusivamente, que um acompanhamento será sempre necessário. Numerosas são as experiências singulares que vêm contradizer esta asserção. Os testemunhos dos autistas atestam que nunca um autista pode aceder à independência sem ter se beneficiado de uma escuta benevolente e de um respeito de suas invenções.               É coerente que os que buscam apagar a fala dos autistas sejam os mesmos que se aplicam a uma propaganda caricatural para descrever as propostas dos psicanalistas.   


1 Williams D. Si on me touche, je n’existe plus. [1992] Robert Laffont. Paris. 1992, p. 290.
2  Grandin T. Penser en images. [1995] O. Jacob. Paris. 1997, p. 114.
3 Sinclair J. Don’t mourn for us. Autism Network International, Our voice, 1993, 1, 3 ; ou http://web.syr.edu/%7Ejisincla/dontmourn.htm
4 Deshays A. Libres propos philosophiques d’une autiste. Presses de la Renaisssance. Paris. 2009, p. 57.
5 Ibid., pp. 114, 116, 121, 124.
6 Ibid., p. 118.
7 Williams D. Quelqu’un, quelque part. [1994] J’ai Lu. Paris. 1996, pp. 38-39.
9 Témoignage de P. Delion. Dossier CIPPA.(Coordination Internationale entre Psychothérapeutes Psychanalystes s’occupant de personnes avec autisme).  Novembre 2011, p. 39. (www.cippautisme.org)
10 Baghdadli A. Noyer M. Aussiloux C. Interventions éducatives, pédagogiques et thérapeutiques proposées dans l’autisme. Ministère de la Santé et des Solidarités. Direction Générale de l’Action Sociale. Paris. 2007, p. 261.
11 Copeland J. Pour l’amour d’Anne. [1973] Fleurus. Paris. 1974, p. 39.
12 Idoux-Thivet A. Ecouter l’autisme. Le livre d’une mère d’enfant-autiste. Autrement. Paris. 2009.
13 De Clercq H. Dis maman, c’est un homme ou un animal ? Autisme France Diffusion. Mougins. 2002, p. 97.

13 de jul. de 2012


24 de maio 2012 - 21:50 h [GMT+1]
NÚMERO 214
Eu não teria perdido um Seminário por nada nesse mundo— PHILIPPE SOLLERS
Ganharemos porque não temos outra escolha — AGNÈS AFLALO

Uma escolha: Manter-se próximo ao real ou nutrir as bolhas especulativas
Por Bernard Porcheret
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Eu seria menos intranquilo? Eu seria menos intranquilo se tivesse compartilhado a crença cega na redução do campo psiquiátrico ao biológico? Eu seria mais eficaz se o psiquiatra prudente que sou se deixasse penetrar pelo marketing outrora tão generoso de tantos laboratórios farmacêuticos?
Eu teria estado maravilhado ou irônico frente as certezas adquiridas de tantos colegas? São eles sérios ao serem tão pouco exigentes quando capturados pelos resultados ditos científicos, quando a estatística ganha, para eles, o lugar de prova, mas que esta mesma estatística não tem rigor algum, nem a abrangência  necessária para ser válida? Eu seria ultrapassado ao considerar com ironia as ações médicas quando elas se baseiam na nosografia, nas etiologias, nas prescrições?
Eu seria menos intranqüilo se tivesse consentido, ainda jovem, a sedução dos laboratórios farmacêuticos, aos seus jantares, aos seus cruzeiros, pseudo-fóruns ou simpósios servindo para justificar os presentes? Esses mesmos laboratórios que, ao longo dos anos, desenvolveram junto aos médicos e ao público uma retórica da promessa1? Eu teria me tornado ao longo do tempo incompetente quando ironizo as descobertas pseudo-científicas?
Não, eu não seria menos intranqüilo, porque a clínica termina sempre por objetar as promessas quaisquer que sejam; o homem honesto deve ser sempre levado a sério, questão de ética. Mais, sem dúvida alguma, o gosto pela clínica teria desaparecido, dando lugar ao despeito! Seria substituído pelo organizacional, eu teria me tornado um conselheiro oficial, especialista em semiologia mental. Nenhuma bem-aventurança no horizonte, talvez o beneficio imaginário e preciso do exercício de um poder administrativo ou especializado, e em seguida a aposentadoria esperada. O tédio teria me ganhado. Mas que mosca me picou então, há quarenta anos, para que os efeitos dessa picada fossem logo impostos a mim, a tal ponto que eu pense não ter derrogado essa posição irônica salutar.
Fui virtuoso ao recusar as viagens oferecidas em troca de pesquisas às vezes inescrupulosas? Não, não se trata de virtude. Tive a perícia inata para ter tido, logo de início, um olhar crítico sobre os artigos científicos que correlacionavam com uma precipitação espantosa esquizofrenia e ventrículos cerebrais, esquizofrenia e genética? Tampouco. Trata-se de outra Coisa: um instante de ver.

“Para mim é muito tarde” Porque, há várias décadas, essas palavras de Freud, em sua carta a Fliess de 29/08/1888, ficou gravada em minha memória: … para mim é muito tarde?”. Em várias cartas anteriores, Freud reclama para Fliess de ter poucos pacientes e de estar isolado. Fliess lhe responde que ele deveria retomar a medicina geralista ao invés de se especializar. Freud guarda o silêncio por longo tempo, depois lhe responde: … para mim é muito tarde. Meus estudos insuficientes não me deixam a possibilidade de fazer medicina generalista; existe em minha formação médica uma lacuna difícil de preencher. Eu aprendi estritamente o necessário para ser neurologista. Ele acrescenta logo depois: Nessas condições, um adulto não sonharia em modificar os fundamentos de sua existência. Eu sou obrigado a ficar como estou, sem, no entanto, ter quaisquer ilusões sobre as condições precárias do meu estado.
Porque eu tinha relacionado suas palavras às cartas de 21/09/1897 e de 03/10/1897, até situá-las nesta última? Eu preciso lhe confiar logo o grande segredo que, ao longo desses últimos meses, se revelou lentamente. Eu não acredito mais em minha neurótica… Nesse colapso geral, somente a psicologia segue intacta. O sonho conserva certamente seu valor e eu atribuo sempre mais valor a meus inícios na metapsicologia. Que pena, por exemplo, que a interpretação dos sonhos não é suficiente para fazer você viver! Freud prossegue na carta seguinte: Poucas coisas para te dizer no que toca minhas relações com o exterior, mas em mim mesmo alguma coisa muito interessante acontece. Há quatro dias, minha auto-análise, que considero como indispensável para a compreensão de todo o problema, prossegue nos meus sonhos e me forneceu as provas e as informações mais sérias.
Freud realiza nesse momento em suas pesquisas sobre os sonhos, os lapsos, os chistes, os esquecimentos, os sintomas, isso que está em jogo fundamentalmente para os seres falantes, e que Lacan estabelecerá devidamente: a relação do sujeito com a língua. Nem tanto o conteúdo do sonho interessará a Freud, mas o jogo significante e também seu umbigo.

O frescor do inconsciente transferencial. Decifrado muito tempo depois, este “erro” de leitura testemunha que um instante de ver  decisivo em mim trouxe conseqüências. Ele produziu uma descontinuidade, um antes e um depois. Isso testemunhava este enunciado: para mim é muito tarde.  É evidente que esse momento se encontra em cada analista, sempre singular. Este instante de ver é um vislumbre fascinante do real como impossível de suportar. Logo descoberto, mas deixando sua marca, somente uma psicanálise levada suficientemente longe permite em seguida enlaçá-lo, localizar suas reduções e por vezes  produzir a última palavra. Uma psicanálise com suas partes sucessivas é esse tempo para compreender isso que foi vislumbrado? É, em todo caso, isso que eu pude concluir. Marca indelével de um gozo interativo devido ao impacto do material significante sobre o corpo, que desse choque faz acontecimento. O universo significante é recoberto pelo universo de significações no qual nós estamos imersos. Exceto talvez o poeta o qual Freud, Lacan e muitos outros psicanalistas dão toda sua atenção. Este, com efeito, está desperto para o gozo da linguagem, o gozo de suas solidificações sem sentido, como escreve Michel Leiris. Estas palavras da linguagem que não fazem parte da classe da língua socializada, e que, para ele, comanda sua prática estética. O poeta as faz valer em sua arte, seja moderna ou clássica. O que sabe o poeta? A materialidade da língua, o gozo das palavras, sua primitiva ausência de sentido. Para Marguerite Duras, as palavras são perigosas, carregadas fisicamente de pólvora, de veneno. Para Jean-Jacques Rousseau, a língua materna é obscena.
Ainda que a escrita literária e a escrita analítica não seja idêntica. Se psicanálise e poesia tenham ligação quando desvelam o real na língua, por outro lado, elas divergem quanto ao tratamento do real pelo semblante. A psicanálise, pela palavra, faz vacilar os semblantes que revestem a marca real da língua e produz ali a letra; a poesia, direção inversa, pela letra literária, a inventa novamente.
O dispositivo analítico é uma clínica sob transferência que por meio do semblante permite enlaçar esta marca indelével de um gozo interativo devido ao impacto do material significante sobre o corpo, que desse choque faz acontecimento. O inconsciente transferencial é o que permite ao sujeito neurótico de enlaçar o inconsciente como real. O peso recai sobre o praticante, e sobre o meio analítico no qual ele se forma, de ocupar sua atenção, quer dizer sua relação ao inconsciente, e de provar toda seu frescor operatório.

O gosto pela clínica. Assim se decide o gosto do praticante pela clínica. E somos muitos que compartilham com isso. Para além de uma abordagem holística e diacrônica, e para além da particularidade das classes, o psicanalista visa ao único, à singularidade disso que pode fazer acontecimento para um sujeito, fenômeno elementar, e a maneira com a qual este pode tratá-lo. Esse real não se deixa jamais absorver completamente pelo semblante que o recobre, e é por isso que ao lado das erupções mais ou menos fugazes na psicopatologia da vida cotidiana, há doentes. Portanto o praticante, não sem negligenciar os aportes médicos e sociais, que ajudam a desangustiar, e a atenuar a eventual ruptura do laço social, se coloca ao seu lado. Seja para ajudar a dissipar com tato as ficções do ser que identificam ou esmagam o sujeito se ele é neurótico. Seja quando não é o caso, para ajudar a desenvolver as defesas menos onerosas em torno do precipício de sua existência, para uma pragmática singular visando a arranjar um gozo deslocalizado.

Um ironia construtiva. Como Jacques-Alain Miller tinha justamente mostrado, há muitos anos, e que seu curso do ano passado permite de argumentar, trata-se de uma clínica irônica. Quer dizer uma clínica que faz a distinção radical entre o real e o semblante, entre a existência e o ser, seja entre henologia e ontologia. Mas que faz do sinthoma sua parte bela, gancho único do semblante e do real. Ainda é preciso que o praticante o tenha vislumbrado, que este instante de ver traga consequências, que ele o tome na medida e não recue frente a tarefa. Pode-se esperar que sua cura analítica, feita de aberturas e fechamentos do inconsciente, o ensine pouco a pouco isso que funda a qualidade irônica de sua posição. O despertar, a curiosidade e o entusiasmo são os melhores sinais. E, aqui, notemos que entusiasmo não vem sem uma certa intranquilidade, que em todo caso nós estamos longe da bem-aventurança. Como não recuar frente esse toque do real? O “eu não quero saber de nada” é da estrutura. Uma cura analítica, com um ou vários analistas, feita de vários períodos, não acontece sem uma nuvem com um enlaçamento com uma prática e uma escola analítica que deve conservar seu despertar. Quantos recuaram, cederam em seu desejo, doentes ou não, decepcionados e tristes, sem dúvida! A impotência é sempre a máscara do impossível.

Uma nova loucura higienista. A dinâmica aditiva da nossa sociedade sobre determina o consentimento aos objetos a consumir, aos saberes fechados, aos dogmas não fundamentados que prometem a felicidade. É a via prometida para preencher toda divisão subjetiva, para sair do sentimento de impotência rejeitando o impossível.
A expressão bolha especulativa utilizada por François Gonon sob a forma de uma pergunta: “A psiquiatria biológica: uma bolha especulativa?” é oportuna. Uma bolha financeira quer dizer que o nível do preço de um produto é muito excessivo em relação ao valor financeiro intrínseco aos bens ou às trocas ativas. A lógica de formação dos preços tornou-se “auto-referenciada”. O raciocínio de arbitragem entre os diferentes ativos não se explicam mais. Ele repousa sobre uma crença, a promessa, que o valor do produto será maior amanhã. É uma bolha de sabão que sobe e estoura, uma bolha de chiclete que não para de crescer e estoura na cara. O termo bolha faz referência ao Crash da bolsa inglesa de 1720 que ocasionou uma lei de regulação. Ele inspira o poeta Jonathan Swift, que foi uma das muitas vitimas. Swift compara a variação do curso da ação à ascensão e à queda de Ícaro. Um outra vitima: Isaac Newton, que ocupava a função de Mestre da moeda em Londres, teria declarado: “Eu posso prever o movimento dos corpos celestes, mas não o da loucura das pessoas”. Isso nos indica que, quando se trata da psiquiatria, que a loucura não está lá onde a gente espera!
François Gonon, em seu artigo bem fundamentado publicado na revista Esprit, indica que depois dos anos 1960, “as pesquisas em neurociências não conseguem nem desenvolver indicadores biológicos para o diagnóstico das doenças psiquiátricas nem novas classes de medicamentos psicotrópicos”. Ele acrescenta que os estudos genéticos são muito pouco evidentes e “que é ilusório esperar descobrir um alvo molecular específico responsável por transtornos freqüentes”. Por outro lado, quanto aos transtornos psiquiátricos graves, o surgimento anos 50 dos psicotrópicos e dos neurolépticos, e todo mundo concorda, foi um aporte maior ao seu tratamento. Podemos lembrar do relatório Zarifian encomendado pelo governo em 1996 e que denunciou muitos pontos: a generalização da prescrição dos psicotrópicos, ligada a multiplicação dos sintomas potencialmente patológicos no DSM, a deriva do sintoma construído como um alvo para o medicamento; este sob a pressão dos industriais, com a cumplicidade dos meios acadêmicos. Zarifian denunciava um “lobby” do meio ambiente que consiste em induzir por meio de técnicas de comunicação sofisticadas, frequentemente em escala mundial, as representações da clínica, da patologia ela mesma e de seu contexto assim como do tratamento, que sejam os mais favoráveis possíveis a prescrição medicamentosa”. François Gonon mostra como o discurso abusivo e reducionista da psiquiatria biológica é produzido, qual o impacto sobre o publico, e quais são suas conseqüências sociais. Sua hipótese é que “a psiquiatria biológica será então convocada para demonstrar que o fracasso social dos indivíduos é resultado de suas deficiências neurobiológicas”.
Então, tomemos cuidado com toda retórica da promessa. Se as crianças não param de ser fascinadas pelas bolhas de sabão, e os adolescentes por aquelas dos chicletes, não esqueçamos que os seres falantes são sempre prontos a especular se fechando em suas ficções. É isso que deve saber um psicanalista.
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1François Gonon, «La psychiatrie biologique: une bulle spéculative?», Esprit, novembre 2011, p. 54-73. François Gonon é neurobiologista, Diretor de Pesquisas no CNRS junto ao Instituto das doenças neurodegenerativas da universidade de Bordeaux.

9 de jul. de 2012

NÚCLEO DE PSICANÁLISE E ARTE


NÚCLEO DE PSICANÁLISE E ARTE apresenta:
Melancolia, de Lars von Trier: Exibição e Debate

DIA 14 DE JULHO, sábado, às 14:00 hs, na sede da Delegação: Rua Dr. Olinto Manso Pereira, n. 673, Sala 305, Centro Comercial Antônio João Sebba, Setor Sul - Goiânia, Goiás

Debatedores: 

- Cristiano Pimenta, psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise.
- Raquel Ghetti Macedo Bênia, psicanalista, membro da Delegação Geral - GO/DF.
- Paulo Guicheney, compositor, professor da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás.

O cinema hoje, em grande parte, é uma experiência inofensiva, rapidamente esquecida e que não produz em nós nenhuma marca. Não é o caso de Melancolia, do dinamarquês Lars von Trier; impossível passar ileso aos efeitos dessa obra genial. Como nomeá-los? Eis que se faz necessário uma referência à psicanálise, pois o efeito em questão não é outra coisa senão o que se diz por meio de um termo freudiano fundamental, a saber, o trauma.
Mas o que exatamente nos traumatiza em Melancolia? Não se trata de uma questão evidente, pois estamos diante de uma obra complexa, centrada no drama cheio de sutilezas de Justine, que cai depressiva frente a um casamento que fracassa antes de começar, a uma mãe seca e cruel e um pai que se retira quando ela mais precisa dele. Triste quadro, que se completa com as investidas de um chefe sem escrúpulos. No entanto, vemos em Justine uma melhora paradoxal de sua depressão diante do cataclisma que se aproxima. Por outro lado, sua irmã Claire, muito segura, desaba com a iminência do choque interplanetário. Assim como seu marido, sabichão rico – imagem ridícula de um príncipe da Renascença – que covardemente escolhe o suicídio à verdade, deixando sem pai o filho que se vê diante do fim de uma vida que mal começou.
Não poderíamos afirmar que a complexidade cheia de sutilezas de Melancolia nos traumatiza por nos colocar excessivamente próximos do que Lacan chamou de real? É esse real humano, esse indizível angustiante presente na existência, que é abordado em Melancolia. Eis porque esse filme convoca o debate: precisamos falar dele para nos distanciarmos do buraco negro em que ele nos abandonou, juntos a esses personagens tão comuns e a um Tristão e Isolda que não têm mais o que celebrar.