9 de dez. de 2012

TEXTO DE ABERTURA DO XIX ENCONTRO BRASILEIRO DO CAMPO FREUDIANO

Por Cristina Drummond



As mulheres tecem e contam estórias. Às vezes por mais de mil noites, para fugir da sina de uma morte anunciada. Essas estórias feitas de palavra e de silêncio trazem um saber fazer com o que não cabe na representação e que diz respeito ao lugar de objeto, muitas vezes descartado, violentado, abusado que a mulher ocupa em nosso mundo. Lugar de sintoma, já que pode ser decifrado. Longo foi o percurso da história para que a voz das mulheres se fizesse escutar. E ainda há muito para caminhar. De qualquer modo, as mulheres parecem enfrentar melhor do que os homens os atropelos de nossa atualidade. De onde viria esse saber-fazer?
Raul Pompéia, em sua crônica para o Diário de Minas de 19 de maio de 1889 fala da abertura das portas do Hospício de Pedro II para visitação. Conta nessa ocasião um incidente ali ocorrido que se atribui ao conselheiro Ferreira Viana. “Ia passando, quando um dos recolhidos do estabelecimento acercou-se e interpelou:
- Poder-me-á dizer, o senhor, quantas pessoas de juízo conta a capital?
- É difícil computar assim de improviso a proporção...
- Cento e sessenta e nove, disse o recolhido. São as que moram nessa casa...
- Cento e sessenta e nove... repetiu o conselheiro, disfarçado a surpresa. Mas as mulheres? ... Exclui?...
- As mulheres são doidas aqui e lá fora!”
Podemos, a partir do relato desse pequeno diálogo, que tem seu toque de comicidade, pensar que o mundo poderia muito bem estar organizado por essa lógica. Os homens loucos dentro do hospício, e as mulheres, todas loucas, espalhadas por todos os lados, sem que se consiga contê-las dentro dos muros, ou ainda, dentro de um conjunto. E é por compartilharmos essa lógica, a qual vem regulando nosso mundo há séculos, que essa conversa nos diverte.
Entretanto, o real da psicanálise que aprendemos a ler com Lacan, nos demonstra que essa lógica que nos faz rir, essa lógica que está presente no chiste e que se sustenta a partir do Outro simbólico, não nos serve para tratar da questão do feminino.
Precisamos de uma outra lógica para dar conta daquilo que a clínica do feminino nos apresenta. Trata-se de uma lógica que Lacan perseguiu em seu ensino e que evidencia o que está para além do simbólico e que não pode ser aprisionado num universal. Não existe o hospício que encerre todas as mulheres. Não existe o conjunto das mulheres. A lógica, Lacan disse em seu seminário Ou Pior, é a arte de produzir uma necessidade de discurso. É, portanto, por um efeito de discurso que a lógica opera e nos determina.
A clínica psicanalítica teve início no encontro de Freud com as histéricas e sempre houve muita afinidade da psicanálise com o feminino. Lacan, em seu seminário De um discurso que não fosse semblante disse, numa espécie de conclusão, que a histérica é lógica. Isso é dizer um pouco mais do que Freud pode dizer sobre as histéricas. É ir além de pensar que os temas que interessam às mulheres na cultura, tais como o amor, o desejo, o gozo, a sexualidade, são temas com os quais a psicanálise tem afinidade e se ocupa. Foram necessários muitos anos de trabalho para demonstrar que essa lógica que a histérica sustenta nos ensina sobre o campo do desejo para os seres falantes, nos ensina também sobre o que é da ordem do semblante e do gozo em psicanálise. A histérica nos ensina sobre a função lógica da exceção e também que o feminino se articula com um gozo múltiplo. Ela encarna impasses entre a recusa do corpo e o gozo da privação. Lacan formula também que a mulher é o sintoma de um homem, que ela o faz submeter o semblante à prova do real. Diz ainda que no conjunto dos homens deve haver ao menos um ao qual a mulher dê um lugar fora do todos iguais.
Exceção, ao menos um, não-toda, uma a uma..., é disso que vamos tratar nesse encontro. Figuras do feminino no discurso analítico. Se não há lugar onde encerrar as mulheres, podemos declinar alguns de seus nomes, podemos extrair o gozo feminino da ontologia e do universal e aprender com essa lógica como um sujeito pode se virar ali onde o simbólico não vem salvá-lo. Foram as mulheres, com seu silêncio enigmático, que introduziram a questão do gozo que está para além do falo e que impera em nossa contemporaneidade, tão carente de ideais paternos. As mulheres nos ensinam como se pode fazer com o nada, como se pode fazer com a precariedade, como ultrapassar a devastação e como, ao sustentar um desejo de maneira decidida, se pode dar sentido à vida. Elas nos ensinam sobre seu uso particular da palavra e da escrita.
Este encontro se inclui numa série. Ele pode ser contado como o de número 19. E ao mesmo tempo em que ele entra nessa série, ele é único, por seu tema, por seu momento, porque ele é um acontecimento. Iniciar esse encontro faz também parte de um tempo de conclusão. Foram dois anos de trabalho intenso, por todos os lados de nosso país onde a Escola Brasileira de Psicanálise se faz presente. O trabalho de sua preparação e o trabalho em torno de seu tema nos reuniu nos boletins, nos seminários preparatórios, na feitura e nas discussões em torno do livro sobre o feminino, nas investigações, na produção de um e-book, nos textos de cada um, na vinda de nossos convidados, na preparação da festa e dos eventos que ocorrerão no dia anterior e posterior ao encontro. Nesse tempo tecemos e contamos estórias. E nesse trabalho o Um de nossa Escola se fez presente entre nós de maneira criativa e entusiasmada.
Vamos sim tratar dos pontos em que a teoria psicanalítica pode avançar para dar conta do feminino, tanto na clínica com crianças, na clínica das psicoses, na clínica das depressões, das anorexias, da maternidade, do corpo e de suas vestimentas. Vamos trazer perguntas que nos ficaram para compartilhar com nossos colegas, vamos mais uma vez trabalhar juntos a partir dessa transferência que nos enlaça. Afinal, um encontro desses faz parte do trabalho a título de Escola. Essa escola que quer sustentar e fazer existir o discurso psicanalítico em nosso mundo.
Agradeço a presença de todos vocês e desejo que esse Encontro renove nosso desejo pela psicanálise. Libido é o que não falta nessa terra. Axé!


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