22 de fev. de 2008

A FUNÇÃO DO TRAUMA NA PRODUÇÃO ARTÍSTICA

Cristiano Alves Pimenta

O artista, diz Freud em muitos lugares, é aquele sujeito que não renunciou aos seus anseios por satisfações de todas as ordens, mesmo que estas lhe tenham sido negadas por toda sorte de impedimentos. “Um artista, diz ele,[...] deseja conquistar honras, poder, riqueza, fama e o amor das mulheres; mas faltam-lhe os meios de conquistar essas satisfações” (Confer. Introd., cap. XXIII). Dado que essas satisfações lhe são negadas em sua relação com o mundo externo, ele é levado a retirar sua libido dos objetos do mundo e introjetá-la. Tal como no neurótico, essa libido será agora investida em suas construções mentais plenas de desejos, ou seja, em suas fantasias. No entanto, a semelhança com a neurose vai apenas até aqui, pois, no caso do artista, essa libido investida na fantasia não será submetida aos processos de condensação e deslocamento. Esses processos ocorrem na neurose. Eles deformam o material fantasístico, criando as condições para que este franqueie as barreiras do recalque e retorne à consciência, ao mundo externo, sob o preço de se tornar um sintoma, fonte de sofrimento para o sujeito. No caso do artista, essa libido investida na fantasia será sublimada, o que implica que seu destino não é o recalque e o seu retorno como uma formação do inconsciente. Em seu artigo "A pulsão e suas vicissitudes", Freud, de fato, estabelecia a sublimação e o recalque como duas das vicissitudes distintas que a pulsão pode sofrer.

Mas devemos ter em mente que há uma identidade do processo de sublimação e o do recalque que vai até o nível da introjeção da libido e seu investimento na fantasia. É daí para frente que eles se distinguem. Se é assim, a sublimação implica um percurso da libido que não exclui a passagem pelo recalcado originário. O recalque originário é o significante que originalmente ficou encarregado de representar a pulsão na mente e jamais teve acesso à consciência. A própria noção de fantasia está ligada ao desenvolvimento desse recalcado originário. A fantasia é, diz Freud (em "O recalque"), o resultado da “proliferação no escuro”. Ela tem, portanto, todas as afinidades com o recalcado originário. Quando a libido retorna do mundo externo devido às frustrações, ela vem alimentar essas estruturas articuladas em torno do recalcado originário. Portanto, quando Freud diz que na sublimação o destino da libido não passa pelo recalcamento, devemos ter em mente que se trata aqui do recalcamento secundário, e não do primário.

Assim, no artista, essa fantasia articulada em torno do recalcado originário terá acesso ao mundo externo sem ter sofrer as alterações e deformações impostas pela neurose. Do ponto de vista do neurótico, o artista realiza uma transgressão que não lhe é permitida, realiza uma suspensão do recalque. Diz Freud:

“Um homem que é um verdadeiro artista [...] possui o misterioso poder de moldar determinado material até que se torne imagem fiel de sua fantasia; e sabe pôr em conexão uma tão vasta produção de prazer com essa representação de sua fantasia inconsciente, que, pelo menos no momento considerado, as repressões são sobrepujadas e suspensas. Se o artista é capaz de realizar tudo isso, possibilita a outras pessoas, novamente, obter consolo e alívio a partir de suas próprias fontes de prazer em seu inconsciente, que para elas se tornaram inacessíveis; granjeia a gratidão e a admiração delas, e, dessa forma, através de sua fantasia, conseguiu o que originalmente alcançara apenas em sua fantasia – honras, poder e o amor das mulheres”. (p. 439, Conf. Introd., cap. XXIII)

Se, na sublimação, a fantasia, que se imprime com fidelidade no objeto estético, vem à luz neste estado bruto, ou seja, por uma via que não a distorce, ela trás consigo não o recalcado originário enquanto tal, mas a si mesma como uma construção intimamente ligada e próxima a ele, moldada a sua semelhança, por assim dizer. Neste sentido, os objetos artísticos, sendo imagem fiel da fantasia, são manifestações do recalcado originário, são manifestações da pulsão que originalmente foi dirigida ao objeto materno.

Convém, no entanto, não esquecer que a sublimação não é perversão. A sublimação é uma vicissitude que “consiste no fato de a pulsão se dirigir no sentido de uma finalidade diferente e afastada da finalidade da satisfação sexual” (Sobre o Narcisismo: Uma Introdução)

Essa articulação em termos freudianos nos permitirá abordar a fórmula da sublimação que Lacan articula no Seminário da Ética da psicanálise. Aí ele afirma que “a sublimação eleva um objeto à dignidade da Coisa”. (p. 140-141)

A noção lacaniana de das Ding, a Coisa, é originalmente extraída do artigo de Freud “Projeto para uma psicologia científica” (1895-1950). Trata-se, na noção de das Ding, do momento em que ocorre “a primeira apreensão da realidade pelo sujeito”. (p.68)

“É aqui, diz Lacan, que intervém essa realidade que tem relação com o sujeito da maneira mais íntima – o Nebenmensch (isto é: o próximo, o que está ao lado, o outro, a mãe). Fórmula totalmente surpreendente na medida em que articula energicamente o à-parte e a similitude, a separação e a identidade”. (p.68).

Essa primeira apreensão da realidade pelo sujeito é a apreensão do objeto materno e ela tem um aspecto duplo: por um lado o sujeito se dá conta de que ele mesmo é algo separado da mãe, mas por outro, ele é algo que permanece coeso a ela, coeso como coisa – als Ding. Em seu aspecto de separação, o objeto lhe aparece sob a forma do estranho. Como diz Lacan:

“O Ding é o elemento que é, originalmente, isolado pelo sujeito em sua experiência do Nebenmensch como sendo, por sua natureza, estranho, Fremde... O Ding como Fremde, estranho e podendo mesmo ser hostil num dado momento em todo caso como o primeiro exterior, é em torno do que se orienta todo o encaminhamento do sujeito”.

Dizer que é em torno de das Ding que se orienta todo encaminhamento do sujeito, significa muitas coisas. Uma delas é que é essa experiência que o sujeito buscará reencontrar em sua vida é o fundamento de todos os seus anseios e desejos. A vida do sujeito está fundada numa espera e numa procura: reencontrar das Ding enquanto o Outro absoluto do sujeito. O que o sujeito realmente procura nos objetos que encontra é reencontrar o objeto primordial, das Ding. Mas, como diz Lacan, “é por sua natureza que o objeto é perdido como tal. Jamais ele será reencontrado” (p.69). No entanto, a espera e a procura sem mantêm.

Por outro lado, é dessa mesma experiência com das Ding, impossível de ser repetida, que o sujeito buscará manter distância por meio de procedimentos defensivos. As estruturas clínicas, os sintomas que cada uma delas elabora, serão considerados por Lacan, modos de defesa frente a das Ding.

Dizendo de passagem, é essa experiência fundamental com das Ding que falta naqueles seres humanos que sobreviveram desde sua origem em um meio animal, como as meninas lobo. Elas não foram traumatizadas por esse encontro primordial.

Mas o que eu gostaria de propor, pois Lacan não o faz, embora o deixe implícito, é considerar esse encontro primordial como sendo da ordem do traumático. O trauma, tal como Freud o define, tem essa característica de fixar a libido do sujeito. O trauma também está ligado ao que é da ordem da imprevisibilidade, ao acontecimento imprevisto. Ora, a mãe é justamente esse ser cuja lei de funcionamento, é a lei do capricho, que subverte toda regularidade que se insinua, toda garantia, toda referência fixa. Como afirma Lacan:

Das Ding apresenta-se ao nível da experiência inconsciente como aquilo que desde logo constitui a lei. Trata-se, todavia, de uma lei de capricho, arbitrária, de oráculo também uma lei de signos em que o sujeito não está garantido por nada...” (p.93)

Podemos perceber que o encontro com a mãe, a relação primitiva com a mãe, é também, para Lacan, uma relação com uma linguagem desregulada, com uma presença e ausência que não atente ao chamado, ou seja, a mãe é um grande Outro sem lei. O trauma fundamental, portanto, causador de gozo, é o encontro com a linguagem.

Estamos agora em condições de compreender melhor a fórmula lacaniana da sublimação, pela qual “o objeto é elevado à dignidade da Coisa”. O objeto, quando é moldado pelo artista, adquire a capacidade de presentificar a Coisa. Portanto, em sua obra o artista expõe o que há de mais íntimo em si, quer dizer, o modo como se deu seu encontro primordial com o objeto, encontro sempre traumático. E a construção estética pode ser compreendida como uma maneira de estabelecer relações aproximativas, mas também defensivas, em relação ao trauma fundamental. É por isso que, ao suspender as barreiras do recalque, a arte não apenas permite que as pessoas experimentem um certo consolo e alívio, mas também são levadas a se confrontarem com o que é difícil de olhar diretamente e que é melhor permanecer recalcado.

Um comentário:

Unknown disse...

Seja como for, a arte como via de sublimação para quem a produz também o é para quem a frui... Talvez a salvação para a vida reside aí... Como seria a vida sem a arte? Simplesmente, não seria??! Seria a linguagem, seja ela em quaisquer de suas formas, como objeto simbólico, ela própria uma menifestação artística? Adorei esse texto! Obrigada, Cristiano.