Resenha
da conversação sobre o filme “Elena” [i]
por André Lopes[ii]
Fugi. De repente,
eu vi que não podia mais, me governou um desgosto. Não sei se era porque eu
reprovava aquilo: de se ir, com tanta maioria e largueza, matando e perdendo gente,
na constante brutalidade. (Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas)
No dia cinco de dezembro de 2013, após a exibição do
filme “Elena”, na DG-GO/DF, ao sabor de muita pipoca, iniciamos uma conversação
com as falas de Ordália Junqueira[iii]
e Ruskaya Maia[iv].
Ambas marcadas pelas singularidades de seus olhares sobre o tão instigante
filme. A de Ordália, dentre algumas marcas, iniciou pontuando a clandestinidade
em que Elena nasceu, um nascer clandestino, mas ao mesmo tempo salvacionista,
na visão da mãe, tendo como estofo a negativa dessa mãe melancólica: Você fará qualquer coisa, menos ir para Nova
York, menos ser atriz, falou a mãe.
Ordália atenta para a separação dos pais, aos quinze
anos de Elena, fato que colabora, na leitura de sua irmã Petra, para o distanciamento
de Elena: Para de brincar de teatro
comigo para virar atriz de verdade. Alguns andaimes se desmoronam para
Petra e quando faz sete anos é informada pela irmã que essa é a pior idade.
Após esse “pior” Ordália pontua a crença de Petra nas Sereias, figura mítica
devoradora de homens e que sempre entoam belos cânticos.
Um
aspecto significativo na fala de Ordália foi a associação do filme a uma carta de amor (de Petra para a irmã
Elena), que ela nomeia de “carta-filme”
que traz o tema do suicídio como central: ...
Eu quero morrer. Razão? São tantas que seria ridículo mencioná-las...
Petra, em um certo momento pergunta: Se
ela me convence que a vida não vale a pena, tenho que morrer com ela. Para que
serve esse filme?
Além do nascer clandestino e da negativa da mãe
melancólica Ordália também sublinhou a perda de identidade e o tom próprio de
Petra em ser o objeto de uma Outra Mulher, a irmã na qual se afogava. Ordália
destaca em sua fala o que realmente está em cena: a encenação de Petra da morte
da irmã para encontrar ar. Em meio a essa “em-cenação” brota, mesmo de raízes
frouxas, uma memória inconsolável de Petra e o seu rompimento com a série
familiar fracasso/morte iniciada com a melancolia da mãe. Ordália indaga: quem
seria, entre as três mulheres, a
personagem principal do filme, e “belisca”: o pai se encontra “em-câmera”, por
trás das cenas, há um não dito, há um não mostrado: o pai. Afinal há UM... ou
pior?
Em seguida, Ruskaya Maya, mesmo sentindo a falta de
um cineasta na conversa, apontou uma impressão forte do filme: a “maldição”.
Ruskaya (a) borda o filme como um “texto” tal qual sua escuta no consultório. Tal
qual o sujeito amaldiçoado, pelos significantes do Outro, que chega à análise,
Ruskaya lê Elena assim. Em sua fala, Elena-Petra (essa locução subjetiva) é
amaldiçoada pela fala oracular da mãe: Não
vá para Nova Iorque ser atriz! Em outra leitura, Ruskaya nos traz também
algo da alienação e da separação marcadamente própria do feminino e de suas
dificuldades tais como a errância e a falta de lugar enodadas à melancolia como
a doença do narcisismo.
Em sua fala Ruskaya atenta para o uso do corpo como
imagem, a dança. Primeiro a dança com a Lua, depois consigo mesma. Para
Ruskaya, Elena fere o seu narcisismo em sua não aceitação, paralela a alienação
de Petra como objeto da irmã que pouco fala. Ruskaya enlaça sua leitura do
filme com o que Freud considera como a estratégia primitiva do luto: a
alienação, apresentada como a incorporação de Petra do espectro de sua irmã, o
gozo do corpo como real, um não saber o que fazer com o corpo.
O desejo de Petra se confundir com a irmã em um
espaço esmagador marcado por buracos anteriores também é lido por Ruskaya. O
que resta após a morte de Elena, são os sintomas obsessivos da irmã, que até
então estava associada imaginariamente a Elena.
Finalmente Elena morre, sua morte simbólica, para Ruskaya que lê o filme
como uma segunda morte. Seria esse filme uma morte real?
Após as duas falas abriu-se o debate com o público
atento. O que se pode registrar desse debate foi que o objetivo de Petra ao
produzir o filme está sendo alcançado em cada canto do Brasil. Elena não
conseguiu brilhar nos palcos em vida, mas Petra tem conseguido através da arte,
do cinema endereçar sua carta de amor
a irmã, sua carta-filme in memorian.
Iniciamos essa resenha, com Guimarães Rosa: Fugi. De repente, eu vi que não podia mais,
me governou um desgosto [...]. Agora
finalizamos com Petra Costa que, com uma leveza poética, conseguiu transformar
um tema tão brutal como o suicídio em
algo novo: [...] Me afogo em você, enceno
a nossa Morte... Para encontrar ar... Para poder viver [...] As memórias vão
com o tempo, se desfazem, mas algumas não encontram consolo, só alívio nas
pequenas brechas da poesia. Você é minha memória inconsolável, feita de pedra e
de sombra e é dela que tudo nasce e dança...
Não saímos dançando,
mas uma sensação de falta ficou no ar. Falta do desgosto, falta da brutalidade,
mesmo perdendo Elena... Onde está Elena?
Revisado
por Ordália A. Junqueira.
[i]
Filme de Petra Costa, exibido na DG-GO/DF-EBP, em 05/12/2013, como Evento de
Biblioteca da DG-GO/DF-EBP. Resenha feita a duas mãos por André Lopes e Ordália
A. Junqueira.
[ii]
André Lopes, poeta, professor de literatura, participante da DG-GO/DF.
[iii]
Ordália A. Junqueira, Aderente da EBP, Analista Praticante (AP), Participante da DG-GO/DF.
[iv]
Ruskaya Maia, Membro da EBP, Analista Praticante (AP), Participante da
DG-GO/DF.