NÚMERO 246
Eu não faltaria a um Seminário por nada no mundo— Philippe Sollers
Nós venceremos porque não temos outra escolha — Agnès Aflalo
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▪ A ROSA DOS LIVROS ▪
Cartas de Freud a seus filhos
por Nathalie Georges-Lambrichs
Agora em francês, traduzido por Fernand Cambon com o título Cartas a seus filhos, um livro assinado por Freud e publicado em 2010 em Aufbau com o título Unterdeß halten wir zusammen, Briefe an die Kinder. Ele foi enriquecido com uma nota do tradutor sobre o essencial, pois puxa o fio da relação entre uns e outros, filhos, genros, noras e netos com a psicanálise, e nos transmite algo da tonalidade do conjunto, antes de trazer para a nossa língua o estilo sutil e estruturado de Freud.
Pode-se apenas admirar a obstinação desdobrada por Michael Schröter para dar forma ao material esparso e mutilado a partir do qual soube produzir esse livro póstumo de Freud. Historiador desses arquivos, dedicados à dispersão ou até à desaparição, ele identificou os mistérios, e recortando, ajustando, ordenando, completando, e aqui ele se apaga, não sem deixar sua sombra colorir o conjunto, e porque não? Porque não estão aí os papeizinhos, no sentido em que Gide os cultivava para que servissem à suas biografias, mas de fato as cartas, chegadas a seus primeiros destinatários, os filhos de Freud, cujo número, desde então, sem ofensas àqueles que pretendem o contrário, não cessa de crescer e multiplicar-se.
Reverência necessária, « fala-se » na grande imprensa, que se contenta em girar em torno do monumento, lançando uma explosão de clichês, sem qualquer forma de julgamento. Tão perturbador ainda é o nome de Freud, que ele produz nesses últimos tempos, como o início da descoberta do inconsciente, ou uma difamação programada, ou proposições insípidas:
Deslizem, mortais, não se apoiem.
Mais do que o exercício de patinação artística, porque se há aí um « gelo fino » é aquilo que o crítico impõe sobre uma superfície das mais acidentadas para torná-la chata e ilegível, o livro presta-se à pilhagem, fervilhando de pequenos fatos e referências, abundante em notações quotidianas ou eruditas, à superfície das páginas. É-se imediatamente absorvido, ameaçado de ser engolido entre duas frases separadas por abismos de tempo, de espaços, de não-ditos a respeito de dramas que necessariamente aconteceram em outros lugares. E, contudo, não seria questão apoiar-se para atravessar, o que? As páginas, os mistérios, seus segredos amorosos ou bancários?
Contudo, eu encontro aí apenas o vivo, resistente, teimoso. Cada detalhe me interessa, cada julgamento emitido por um ou outro sobre esse ou aquele, próximo, paciente, obra ou projeto, nas notícias biográficas bem informadas e que retraçam a vida de cada um dos filhos, dando excertos de suas cartas, pois a escolha foi, publicar integralmente nesse livro, apenas as cartas que receberam de seu pai.
Michael Schröter possibilita também acesso a documentos impressionantes, como o testamento que Freud redigiu em 31 janeiro de 1919 (p.194-95), que ficou nos papéis de Martin, o filho mais velho. Os depoimentos das noras também são instrutivos, testemunhando o interesse pela obra de seu sogro, a ponto de uma tornar-se fonoaudióloga, outra artista (eu não digo tudo, para dar a vocês o desejo de ir ao livro e conferir).
O estilo de Freud está lá, tão preciso, com a capacidade de dar imediatamente nomes aos bois, sem nunca dizer o que quer que seja que não queira precisamente dizer, e sem falso pudor, especialmente nas questões de dinheiro. Certamente ele « computava » suas entradas e suas saídas, mas era para saber o que viria, e mais para os outros do que para si mesmo. Ele sustentava as necessidades de todos os seus filhos e netos, tanto quanto podia, insistindo, abrindo as contas, apoiando-os incansavelmente e com bom humor. Certamente ele tinha ideias sobre o destino dos seres humanos, repartidos em dois gêneros, assujeitado cada um a papeis bem definidos. Certamente ele encarnou e exerceu plenamente sua autoridade, quanto à escolha de parceiros amorosos em particular, mas sem jamais deixar-se degradar no exercício de um poder.
A família de Freud em 1898: Martin e Sigmund (no alto) Oliver, Martha, Minna Bernays e Ernst (no meio) Sophie e Anna (em baixo) .
As peças que faltam para a reconstituição da família Freud, agora com mais vagar, as viagens ou os tormentos da guerra, os laços estreitos são apenas os mais salientes. Perdidas assim, a maior parte das cartas que ele endereçou a Oliver e sua mulher Henny, por causa da fuga precipitada para a França - que Oliver foi o único a escolher - depois que se tornou vichysta. Oliver, o mais jovem dos filhos, o único dos filhos de Freud que teria dito a seu pai que estava neurótico, a ter feito uma análise e finalmente, a estar o mais afastado da esfera paterna, mas guardando os laços vivos de afeição; Oliver que, jovem homem, assinava suas cartas « teu filho fiel ».
Eu faço, de minha part um salto dessas cartas, cartões postais e telegramas, para as nossas mensagens de hoje. Dar um sinal de vida na ausência, dar as boas novas, são gestos quotidianos que voltaram para nós no século XXI. Para além de toda interpretação e superinterpretação de que essa forma seja, talvez, sintoma de uma dificuldade para assumir a separação ou a ausência, utilizando os sulcos da aletosfera, os fatos estão aí: as teias cada vez mais densas, as redes sociais recheadas de intimidades, a ponto de que nesse século, parece que se escreve como se fala.
Os momentos de silêncio, de corte, as lacunas e as faltas tornam-se, portanto, mais preciosas; tal, por exemplo, aquele que recobre os dois últimos anos da vida de Freud, pois nenhuma das últimas cartas de cada um dos seis sub-conjuntos ultrapassa 1936. Seis, porque as cartas para Max, esposo e viúvo de Sophie, estão entre as mais numerosas e as mais ricas.
Sigmund Freud, Lettres à ses enfants, Paris, Flammarion, 2012, 610 pages, 27 €.
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▪ LETTRE D'IBERIE ▪
Independência e Trindade
por Miquel Bassols
De repente, são as palavras que parecem governar e os governos são bastante conduzidos por elas, treinados, como muitas vezes acontece, por seu poder. As palavras, muito rápidas, correm, frequentemente, muito mais rápido do que os sujeitos que as dizem, e muito mais do que os políticos que delas se fazem, como se diz, os porta-palavras. É o discurso corrente — o « diz cursocorrente » como dizia Lacan. É o que está acontecendo, me parece, nesses dias aqui na Espanha, com a palavra (mot) « independência ».
Dita e gritada em altas vozes por uma multidão de pessoas nas ruas de Barcelona no último 11 de setembro — data da Jornada da Catalunha —, essa palavra, entretanto, não seria escrita em nenhum dos cartazes da grande manifestação, como um slogan a ser entoado. Mas esse termo « independência » tem sido tão difundido, mesmo que algumas vezes se tenha tentado caçá-lo do discurso, como uma arma que se voltaria para aqueles que a apontam. O presidente da Generalitat (o governo catalão), Artur Mas, que antes havia declarado que « tudo é possível » no que diz respeito à « independência » teve que transformar a palavra (le mot) alguns dias depois em uma « interdependência », talvez um pouco mais conveniente ; Jordi Pujol, o grande patriarca do nacionalismo catalão, por sua vez, silenciou de modo incontestável, declarando: « A independência é impossível ». Entretanto, quanto mais essa palavra se torna impossível, mais ressoa com múltiplos ecos desde o majestoso Passeig de Gràcia (grande boulevard barcelonês) até o Camp Nou vibrando com os gols de Lionel Messi. E quanto mais a independência é contestada e negada pelo governo central de Madrid, mais ela se torna consistente nos dois campos.
Como se lhe fosse conferida a força das palavras que se afirmam sempre mais à medida em que são negadas. É isso que podemos qualificar como significante mestre — escreve-se S1 —, signo que dá consistência a um grupo, a toda uma comunidade, mas quem pode também dividi-la num momento posterior, para fazer aparecer o avesso de toda identificação: a divisão do sujeito, sua falta-a-ser irredutível — escreve-se $ —, que não poderá jamais fechar-se sobre qualquer objeto ou ideal.
Trata-se, na Catalunha de hoje, de uma vontade de ser que não poderá satisfazer-se com qualquer objeto ou significante novo. E é por essa mesma razão que a palavra (mot) « independência » tem, ao mesmo tempo, a força de união e divisão. Seria necessário mesmo que alguém, uma mulher forte, se fizesse porta voz de um milhão e meio de pessoas — cifra dos manifestantes do 11 de setembro —, e chegasse a dizê-lo de novo e claramente às portas do Parlamento. Carme Forcadell, presidente da Assembleia Nacional da Catalunha e que havia convocado a grande manifestação, o diz no momento de ser recebida por Núria de Gispert, Presidente do Parlamento: o que nós queremos é a independência e é isso que é preciso exigir de nosso Presidente, como um desejo irrevogável. Como recusá-lo! Nos dias seguintes, o Presidente irá propor uma formulação atenuada, dizendo : « Nós queremos um Estado que seja o nosso. » Mas novamente esse termo volta à superfície como uma confusão da qual não se conseguiu livrar. Foi também Carme Forcadell que soubera transformar a fórmula, muito conhecida, de Jordi Pujol: « É catalão aquele que vive e trabalha na Catalunha », nesta outra: « É catalão aquele que o quiser ser ». Ela fazia assim ressoar nesta frase, ecoando a partir de um discurso, a fragilidade do ser, a sua vacuidade inerente. Ser tornado-se dessa forma Querer, sem atributos nem complementos que funcionem como condição do ser. Trata-se aqui de um desejo realmente ideal, q ue não demanda mais passar pela alienação, que o dever supõe demandar. Do mesmo modo, não se tem mais que passar pela pesada condição de viver e trabalhar… De fato, é pela afirmação potente e verdadeira que a vacuidade do ser tende sempre e necessariamente alcançar uma identidade: $ a S1. Assim nós podemos agora escrevê-lo.
O problema é quando alguém não quer simplesmente ser, mas diz que já o é, quando afirma seu ser em um: « Eu sou », que preenche de atributos esta vacuidade do ser, que antes se manifestou como pura vontade, quando o enche de condições e complementos para conseguir fazer uma identidade completa. É então que o Eu (Moi) acredita ser o mestre desta linguagem, quando é apenas o seu servo. É aí que começam os problemas de amanhã.
E de fato, o que uma análise levada com cuidado nos permite descobrir, é que, em suma, a independência do Eu (Moi) é uma crença mais do que um sonho, crença tão religiosa quanto qualquer outra, tão dependente de significantes ideais que a governam quanto da imagem do outro, do outro Eu (Moi) no qual se nutre esta independência.
Outra mulher, Teresa Forcades, aponta um fato que não se deve negligenciar. Trata-se de uma irmã beneditina que se faz ouvir com força e precisão nas mais diversas mídias e que tem sustentado a seguinte hipótese: « A independência é um projeto de diversidade » comparável à « pluralidade da Trindade cristã ». Não haveria verdadeira independência senão dentro de uma ligação tão interdependente quanto aquela implicada no nó da Trindade, um nó que tem uma estrutura muito sólida: basta que qualquer um dos três se separe para que os outros dois fiquem separados. Mas, separados, eles não são mais independentes, simplesmente eles são mais ... diversos. Os leitores de Lacan – e Teresa Forcades garante ser uma – conhecem muito bem as virtudes desse nó que faz a unidade trinitária. Mas qual seria hoje a trindade catalunha? O que é que permitira dizer a unidade de sua identidade? Um mistério. Há muito tempo que o pai está em declínio — Jacques Lacan dixit — e o filho permanece em casa sem encontrar trabalho. E o Espírito Santo? Pode o amor fazer a ligação que falta entre a Espanha que foi e a Europa que deveria vir a ser?
Mas prestemos atenção a outro fato de linguagem. Por esses dias, ouvimos maneiras de dizer que deslocam as coisas de um modo bastante sintomático, quando se fala das difíceis ligações entre Catalunha e Espanha. Mais uma vez, as palavras (les mots) comandam: da metáfora do casamento, quando um dos cônjuges pede o divórcio, passa-se em nossos dias à metáfora das freiras e ao que advém, quando um dos dois reivindica um poder superior àquele do outro.
Nessa perspectiva, é claro que precisamos de uma trindade onde a dualidade não permite sair do impasse. A Europa? Sim, talvez.
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▪ EXPOSIÇÃO - ROMANCE PSICANALÍTICO ▪
A Mãe Invisível
A crítica de arte e curadora Sinziana Ravini e a produtora Estelle Benazet elaboraram a "exposição romance psicanalítico" The Hidden Mother (A Mãe Invisível). Isso acontece numa galeria privada, l'Atelier Rouart. Em vários pisos, as duas curadoras investiram nos lugares, instalaram um divã psi, colocaram « pequenos objetos transicionais » doados pelos artistas à biblioteca e, principalmente, ocuparam os muros com obras que questionavam a mulher, a mãe, a filha, a matriz...
«Há a mãe inconsciente, há a mãe escondida, latente, e em seguida, a mãe não reconhecida ou desconhecida, inquietante, estrangeira ou, ao contrário, muito familiar. A mãe-mulher, a mãe que dá à luz, a criança na mãe, a mãe morta, a mãe violada, a mãe violenta... Eu me perco nesse catálogo», comenta François Ansermet.
Extraído do artigo de Inrockuptibles de 24 de outubro de 2012.
Até 17 de novembro de 2012, de quarta-feira à sábado, das 14h à 18h
Atelier Rouart
40, rue Paul Valéry 75016 Paris
code AB012 puis AB55
Lacan Quotidien
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▪traduções chantal bonneau (espanhol) maria do carmo dias batista (lacan quotidien no Brasil)
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